Sem meios-termos

Foto | Bob Carlos Clarke
Foto | Bob Carlos Clarke

 

 

Ela tinha um jeito muito próprio de cantar. Fazia pausas na música para rir, verdadeiras gargalhadas, como se estivesse ouvindo as piadas mais deliciosas e engraçadas. Mas então no dia seguinte intercalava as canções com choradeiras absolutamente entristecidas e grossas lágrimas corriam rosto abaixo, como se fosse carpideira profissional com larga experiência. Ninguém sabia explicar motivos e meandros desse comportamento. Ocorria e era tudo. Houve teorias — criadas e derrubadas quase na mesma velocidade. Houve por exemplo quem acreditasse se tratar de algo similar ao que acontece com a vida: ela é cheia de alegria e tristeza, essa louca montanha-russa de emoções contrastantes. Moderação, ela sabia, é o remédio dos discretos, cujo reino é o das sombras. Ela subia e descia, respirando, ao sabor das variações. Cair com graça, andar com hesitação, perder o rebolado e encontrar outros ritmos e tonalidades. Não sei se foi feliz, não sei nem mesmo se ser feliz era alguma das ambições que tinha (a felicidade só permite um mesmo tom monótono, qual o problema das pessoas ao desejar apenas isso?, ouvi-a perguntar, certa vez). Viveu uma vida intensa, isso se pode dizer dela. Sem meios termos, no fio da lâmina.

 

2 comentários sobre “Sem meios-termos

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