Malabarista de palavras

disco

 

 

Não fazer nada é fazer. Burilar cada palavra da frase, buscar um refinamento, até enxergar o momento em que as faíscas escapam em direção ao vazio, seguidas por aquele som agudo e desagradável que indica: trabalho. A observação do tempo em toda a sua majestade é o poder e a glória do escritor, sua perdição ao mesmo tempo, o lento afundar na areia movediça e lodosa do nada estendido ao infinito. O bom escritor é o hábil malabarista a jogar para cima um conjunto de cinco, depois sete, onze palavras, a frase se estendendo gigantescamente a dizer o nada, mas fingindo que diz tudo, aquele sorriso de autoconfiança que não se abala sob qualquer circunstância. Os pinos giram, voltam a se encaixar novamente nas mãos do escritor-malabarista antes de serem de novo arremessados para cima com um giro veloz das mãos. Um escritor passa a madrugada bêbado de palavras. Elas são suas? Pertencem-lhe? Ele sabe que não, ele sabe que sim. As palavras existiam antes mesmo de ele nascer, mas a disposição delas, as aproximações inesperadas que é capaz de fazer, isso é dele, sua contribuição à causa abstrata da literatura, na tentativa meio sem sentido de mobilizar as pessoas para aquela sucessão específica de argumentos. Esse sujeito aqui brigou contra moinhos, este outro contra si mesmo e a própria dúvida, antes de partir no encalço do tio e destruí-lo, para vingar a morte do pai. Esses sujeitos ensinam outros tantos a viver, muito embora sejam apenas pinos, tenham sido lançados para cima num encadeamento específico de palavras para formar frases. O aplauso ecoa através do tempo, mesmo que o público saiba da impossibilidade de que alcance os ouvidos e o coração do escritor distante. Mas o malabarista sabe que o efeito de sua arte se propaga e não há pressa para alcançar a repercussão. O tempo dirá quem merece atenção pelo modo como lançou pinos para cima e entreteve o respeitável público. Arte é solidão, o aplauso apenas distrai do verdadeiro sentido oculto da coisa toda.

 

Publicado por

paulopaniago

digo não

2 comentários em “Malabarista de palavras”

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s