Negociações

metrô

 

 

 

Aqui não existe a profissão de escritor, o escritor é obrigado a fazer qualquer coisa, exceto — naturalmente — escrever, se quiser continuar sobrevivendo. 

Mario Levrero, Deixa comigo

 

Com o cérebro entorpecido por uma gripe, que não lhe permitia discernir com clareza qual a melhor atitude adotar, se de adoção se tratasse, o sujeito sorriu para a oferta de seu interlocutor. A situação era bem simples e envolvia apenas discrição. O sujeito, para efeitos do que aqui se narra vamos chamá-lo Castro, pois bem, Castro havia enviado a uma editora os originais de um romance, não com seu nome verdadeiro, para efeitos do que aqui se narra não interessa qual seja, e agora a editora estava encarregando alguém, um representante comercial, um enviado especial, um agente, sei lá, talvez até mesmo um editor, de se encontrar pessoalmente com o tal e promissor Castro. Portanto, Castro está interessado em contratar este outro sujeito, vamos dizer, Rocha (pode ou não ser o seu nome verdadeiro, pouco importa a esta altura) para simplesmente se passar por Castro e receber o enviado pela editora e tratá-lo com desdém e enviá-lo de volta à editora sem ter assinado o contrato que o indivíduo certamente trará. Vingança pela morosidade, por todas as outras vezes em que a recusa tinha sido a tônica.

— Entendidos? — diz Castro, depois de explicar a rocha os pormenores da impostura que ele deverá praticar.

— Certo, só falta combinarmos o que eu levo com isso — responde Rocha, bastante pragmático, nem um pouco interessado nos motivos de Castro para pregar esse trote numa editora. Os escritores do país estão se matando uns aos outros por um oportunidade igual junto a uma editora e esse tal Castro se permitindo rir e esnobar da oferta. Enfim.

Resulta que Rocha embolsa metade do valor total combinado a título de adiantamento. Mas quando, durante o almoço com o representante da editora, escuta o valor que estão dispostos a oferecer a título de adiantamento, Rocha trai o movimento e, aproveitando-se do fato de que Castro havia enviado os originais para a editora sob pseudônimo, assina contrato autorizando a publicação, fornecendo seus dados bancários como referência para o depósito do adiantamento.

A trama se complica.

 

Um comentário sobre “Negociações

  1. patbilmend 27/10/2014 / 10:52

    Hummmm… o que eu levo com isso é o jargão do brasileiro esperto…

    Curtir

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