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cão

 

 

Os energúmenos do mundo fazem parte de uma sociedade em plena expansão. Conceda o devido tempo e o empreendimento de que fazem parte dominará todos os outros sistemas, fazendo césares, hitleres e napoleões parecerem apenas a pálida manifestação de um projeto que se quis ambicioso e só conseguiu ser ridículo. Pior: cada imbecil que me aparece pela frente dá a impressão clara de ser o próprio presidente do clube dos imbecis, tal a capacidade de produção de asneiras e o incômodo que consegue me provocar. Eu, de minha parte, considero-me responsável, tenho como que um dispositivo magnético de atração para esse tipo de criatura que me faz desejar em vários momentos ser logo enterrado para me poupar novos transtornos. Tudo isso para dizer que sentou-se a minha mesa naquele café o colega de colégio que deve ter sido sócio fundador do clube dos energúmenos. Pastoso, um bigode cretino e gotas de suor que pareciam aumentar profundamente a minha repulsa pelo tipo, ele começou com a lengalenga de me oferecer emprego na distribuidora de medicamentos e eu, que andava mais duro do que ereção matinal, me vi forçado a, não apenas ouvir mas a ponderar se minha sobrevivência chegaria ao fim sem um emprego imediato ou se suportaria por quanto tempo o convívio com aquele crápula, que além de tudo tinha um sorriso cheio de chiado que me irritava profundamente e que ele lançava ao mundo com a generosidade de uma benção. Meu drama se resolveu de modo adequado, com uma reviravolta inesperada (e não, não se trata de pleonasmo, algumas reviravoltas são muito prováveis e outras facilmente calculáveis): morreu meu martírio de um gentil ataque do coração e, como se o mundo tivesse decidido que eu precisava de um sério refresco, morreu também uma tia-avó que, se não me fazia lamentar a perda em função do pouco convívio que havia tido com ela, em compensação me deixou parte de uma herança — na verdade dirigida a minha mãe e, na ausência dela, a seu único e legítimo herdeiro, ou seja, eu — substancial que me permitiu esquecer a situação de penúria em que me encontrava. Acontece que o mundo adora situações de revezamento e por umas e outras vi-me novamente com os problemas financeiros se anunciando no horizonte depois que meus investimentos no ramo equestre se transformaram em miragem. Ainda me restava o suficiente apenas para me alimentar de maneira frugal por um mês ou dois, dependendo da boa vontade com que conseguisse espaçar as refeições e me apareceu pela frente justo o filho do cretino, que havia assumido os negócios do pai e também me conhecia. Reforçou a oferta original, do Energúmeno pai. Desnecessário dizer que ele tinha a mesma risada, a mesma cretinice paterna e que o suplício devia ser o meu destino no fim das contas, restava-me apenas me conformar. Coloquei na lapela a medalha que me deram do clube e fui à luta, virando eventualmente um dos melhores vendedores da firma. Inclusive, venho cultivando o bigode e diariamente treino a minha risadinha com chiado. Logo chegarei à perfeição.

 

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