Compensações

Foto | Mark Bramley
Foto | Mark Bramley

 

 

Ele tinha um perfil digno de estar numa das faces de uma moeda. A testa alta, o longo nariz grego, a sugestão de que seria capaz de tomar decisões graves sem sofrer muito com ponderações inúteis. A voz, no entanto, era metálica, enquanto falava eu era capaz de ouvir um martelo trabalhando numa espada sobre uma bigorna. Parecia o tipo de sujeito que não se deixaria matar numa guerra, nem ficaria depois se gabando aos companheiros a respeito do número de inimigos abatidos por sua iniciativa. Anunciou, porém, as verdadeiras razões para estar ali naquele fim de mundo, especificamente para se encontrar comigo. A editora o tinha enviado para negociar pessoalmente a publicação do meu trabalho revolucionário — o adjetivo foi dele, que imaginou que me tornaria mais dobrável ao canto de sereia com esse tipo de bajulação — a respeito da evolução da linguagem. A ponte perdida lançava uma hipótese ousada — dessa vez assumo o adjetivo — a respeito da língua de povos pré-colombianos, além de atacar as abordagens mais conservadoras (Steven Pinker, Richard Dawkins et caterva, que tinham o grave defeito de serem todos ingleses demais, mesmo quando não eram), que situavam a coisa em torno de quarenta mil anos no passado, ou cem mil, nos casos mais otimistas.

Tive que ser firme com o sujeito e declarar que no máximo diria ao meu agente para considerar a gentileza da visita quando desse início ao leilão. Nem mesmo quando ele dobrou e quase triplicou a oferta inicial eu me dei o luxo de pestanejar. Com razão, como já havia me instruído meu agente, fiz bem em recusar. O livro foi arrebatado por um valor afinal quase cinco vezes acima do que ele havia me oferecido com a voz metálica, ferro sobre ferro. Tomei gosto por tratar os editores e suas potestades com o mesmo desdém com que tratam os novos autores, mesmo os que apresentam um sério potencial. Talvez haja mesmo uma lei das compensações e me aguarda um lugar especial no Inferno, mas até agora tem valido a pena.

 

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