O mundo se agita

máquina-de-escrever

 

 

Havia uma pilha de papéis na mesa a sua frente e ele olhou para ela como um conjunto. Papéis que faziam parte de sua vida, que solicitavam encaminhamento, resolução, uma atitude, dois dedos de concentração e algum desdobramento. O sol entrava por uma janela lateral e traçava uma faixa clara sobre o piso escuro, pequenos fiapos de algo — tecido, vegetal — flutuavam no ar. Primeiro Amy Winehouse recusou-se a ir para a clínica de reabilitação, depois Lana Del Rey foi implacável e precisa e estabeleceu que ela e eu nascemos para morrer. Os papéis aguardavam, memorandos da preguiça. Ocorreu-lhe um francês: il s’agit, que na tradução vira “trata-se”, mas que no original diz que algo precisa se agitar para acontecer. A vida é sucessão de ações e não-ações. Agir sem pensar, pensar muito antes de agir, fazer as coisas porque são necessárias ou porque algo deve ser feito, há um protocolo prévio de encaminhamentos e seu papel é dar vazão aos papéis, posicionar-se: emitir opiniões fortes, médias ou fracas e testar a temperatura das respostas, deixar o corpo fazer praticamente sozinho o trabalho de inspirar e expirar, ar que entra, ar que sai, uma formiga que passeia sobre a cordilheira nevada de papéis e que será poupada da morte por esmagamento. Ele puxou dois papéis do alto da pilha e começou a leitura do texto, o início de um romance que precisa aquela revisão, uma palavra diferente aqui, uma frase a mais ou a menos ali, um polimento, arrumação, o burilar da dança sincopada e cheia de cadência do raciocínio. O que se sabe sobre o mundo, o que se pode saber. Il s’agit. Um romance que será lido por três ou quatro amigos e depois esquecido para sempre, sem causar qualquer repercussão. Ninguém disse que seria fácil, cantarola em falsete Chris Martin, para consolá-lo. Il s’agit de se agitar, meu camarada. Aos papéis, ataque-os como se não houvesse amanhã, o que importa que os editores e leitores ignorem a sua existência e palavras? O motivo para escrevê-las, papel após papel, é outro, interno, obsessivo, conturbado. E isso basta. Ele se agitou, ergueu o lápis, depois o baixou sobre o papel. Nada de grandioso ou emocionante. Mas no papel a vida fervilhava, trepidante e provocativa, agitada. E ele viu que era bom.

 

2 comentários sobre “O mundo se agita

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