Âncoras da vida

Foto | Dave Jordano
Foto | Dave Jordano

 

 

Por não saber lidar com toda a intensidade de ser livre, apenas as plantas dos pés fixas no solo e todo o resto ao ar livre (livre!), o homem inventou contenções: roupas, cadeiras, paredes. Ele se restringe, apequena-se, para e reflete, cogita, anota, inútil e sedentário, alheio ao vento que esbarra na vidraça e é desviado. Você se lembra da tarde em que o sol se punha e você mergulhado num jogo de bola de vida ou morte (o coração aos pulos como se daquilo dependesse o destino do universo) no meio da rua — sua vontade era que o sol jamais se pusesse, o jogo jamais terminasse, prolongado por toda a eternidade e além — até que se tornou impossível ver a bola e a noite afinal demarcava o limite do horário para voltar para casa, tomar banho e jantar. O ciclo das estações, o intercâmbio das amizades, as flutuações das vontades, a intensidade concentrada que a vida possuía e que ganhou contornos mais dilatados com o passar dos anos, apaziguando angústias para ceder lugar a outras. A vida é besta, você é uma besta que fica relembrando o passado, ciente de que ele não volta e de que rememorá-lo não colabora, e lamenta as amarras, a quantidade de âncoras que o seu barco foi angariando pela vida afora.

 

4 comentários sobre “Âncoras da vida

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