Aquela noite em especial

Foto | Jo Jankowski
Foto | Jo Jankowski

 

 

Venha o que vier, ela disse, sentando-se para ouvir as músicas — Kovacs cantando My Love, sorumbática e tristemente; Koop em Koop Island Blues, essas coisas — e fumar um último cigarro aquela noite, em especial porque estava se despedindo dos cigarros e talvez da vida em geral. Talvez, eu digo isso como alguém sem o devido envolvimento, se ela não tivesse escutado em seguida outra dessas canções que fazem as pessoas mergulharem muitos e muitos metros abaixo da linha do aceitável em si mesmas, nas profundezas onde você não consegue mais distinguir o que é água, o que é lodo, talvez, e apenas talvez, porque não se pode ter certeza, ela tivesse se salvado. Claro, não se pode ter certeza de muita coisa, porque o conceito de se salvar parte do pressuposto de que a vida é interessante e vale a pena e o que ela fez foi afinal se salvar, pulando fora. Perspectivas, eu digo. O fato é que ela inalou o cigarro, exalou o ar branco dos pulmões infiltrados fechando os lábios em torno de um “o” para deixar a passagem da fumaça e se não tivesse cometido o gesto extremo é sempre possível imaginar que o câncer teria feito o trabalho por ela, de maneira lenta e dolorosa, afetando também a vida de parentes e amigos que estariam próximos para acompanhar, com lamentos e um tipo mórbido de interesse, o desenrolar dos acontecimentos. Seja como for, venha o que vier, as expressões redundantes, que nada dizem ou acrescentam, e que também não podem deixar de existir de uma só vez, porque são necessárias para marcar o quanto há de redundância e repetição na vida (os ponteiros do relógio girando em círculos, enquanto o tempo avança). Eu sentiria saudade dela, disso tenho certeza, sua expressão distante, algumas palavras que trocamos, o que ela me disse e que mudou o modo como percebo a vida e as coisas ao meu redor de maneira profunda. Falávamos da vida do romance e ela me disse, assim do nada, que o romance é o anarquismo da rebelião, com essas palavras exatamente, “o anarquismo da rebelião” e pensei longamente a respeito do assunto (do tipo: no meio da rebelião você decide que não quer mais ser rebelde e recua ou avança profundamente) e concluí, se é mesmo que a entendi bem, que ela estava certa, o que não a tornava menos depressiva ou distante ou já meio fora desse mundo. É perigoso estar vivo, porque sempre se está a um passo de não se estar mais. Fora isso, o sol brilha lá fora, ou a lua, não sei muito bem, estou a vários dias preso aqui e nem sei direito o que aconteceu com ela, se anda fumando cigarros, se cumpriu a velha promessa várias vezes adiada, ou se o vício da tristeza a manteve por alguns dias extras por aqui e em breve talvez vamos nos encontrar novamente. Ela teve sua cota dos contratempos de sempre: família indiferente, expulsa de colégios, rebeldia a toda prova, quebra de quartos de hotel, um acúmulo de crises e persistência, algumas dúvidas não de todo com solução, graus de conformidade, enfim, o pacote humano de todo dia, mas almas sensíveis têm uma maneira de estar no mundo de tal forma que as fragilidades parecem pesar bem mais do que as cinco toneladas de praxe. Parecia enfeitiçada, nas últimas vezes que a vi, o olhar ainda completamente distante, sei lá em que distâncias. Tem uma hora, eu disse para mim mesmo, mas não para ela, e sobretudo não completei o raciocínio. Isso é importante, deixar várias coisas em aberto, não completar, não aceitar o convite para preencher as lacunas ou as linhas em branco. Por exemplo, esta história, ela vai assim e de repen

 

7 comentários sobre “Aquela noite em especial

  1. Extraordinária 21/11/2014 / 9:31

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

    • paulopaniago 22/11/2014 / 8:32

      Diz um amigo meu que exclamações em comentários, analisando psicanaliticamente, demonstram a intenção de quem escreveu de chupar o pau da pessoa a quem se endereça o comentário. Esse meu amigo é pândego, mas não posso deixar de rir dessa situação e apontá-la aqui. Gentilmente, claro.

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      • Mathias 22/11/2014 / 10:13

        O amigo tem interesse inesgotável pelo mistério (libidinoso) das exclamações em comentários. São chamadas telefônicas em má hora…

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      • Mirian Oliveira 23/11/2014 / 10:08

        … caralh

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