Cenas do Manual

Imagem | Merve Özaslan
Imagem | Merve Özaslan

 

 

Consta que o nome era o de uma revista, que inclusive teria publicado pela primeira vez algumas das histórias alucinadas do bibliotecário e dublê de escritor Rudolf Erich Raspe, recolhidas de conversas com o Barão de Munchausen. Mas o de que gostei foi do nome da revista: Manual para pessoas divertidas. Fiquei pensando a respeito do itens que incluiria, se fosse encarregado de redigir os termos, e comecei a seguinte lista:

1 Um aro de produzir bolhas de sabão alimentado com champanhe. As microbolhas, em vez de sopradas, devem ser ingeridas; o efeito é iniciar os divertimentos.

2 Puxar os cantos dos lábios para o lado com as pontas dos dedos indicadores toda vez que um espelho se apresentar a sua frente. Lembrar-se de fazer o mesmo, em seguida, sem espelhos e continuar a prática até que os sorrisos se tornem a nova máscara do mundo.

3 Soltar petelecos em cabeças alheias sempre que escutar piadas sem graça ou comentários fora de lugar. Não importa a cabeça de quem, use indiscriminadamente a que estiver ao alcance do peteleco.

4 Comprar mentiras bem contadas a preço de ouro; pagar na mesma moeda do produto adquirido.

5 Construir cidades tão prodigiosas quanto as invisíveis de Italo Calvino.

6 Prestar provas irrefutáveis da crença inabalável nas qualidades do que se chama o impossível, desde que isso não tenha conotações fantasiosas, como acontece nos casos de certas religiões e em algumas literaturas.

7 Acreditar em relatos fantásticos apenas se contados pelo prisma de sujeitos que não precisam fazer uso de substâncias lícitas.

8

Estava iniciando a anotação do oitavo item quando o meu chefe me chamou de volta à realidade, portanto para longe do cargo de redator da revista que havia acabado de me investir, proibindo-me de maneira terminante de ser feliz em horário de expediente. Chegou a me ameaçar de demissão. “Lugar de ser feliz não é o trabalho”, disse, com raro senso de sabedoria e com a solenidade que o cargo lhe conferia. “Pois fique o senhor com trabalho e todos os efeitos colaterais implicados nele”, respondi, colocando em seguida o polegar no nariz, com a mão para a frente, aberta, os dedos estendidos formando uma espécie de trompete nasal e debochado. Não satisfeito, lancei a língua para fora, de maneira claramente infantil mas nem por isso menos desafiadora e desaforada. Decidi relançar a revista, mantendo inclusive o nome original. Qualquer ideia ou sugestão de pauta, saibam todos, é favor enviar cartas ou e-mails à redação.

 

10 comentários sobre “Cenas do Manual

  1. Falar que gostei seria pouco para o que eu estou sentindo por esse texto. Fez-me rir antes do almoço o que é completamente fora da minha vida rotineira. Simplesmente amaria pôr em ação esses 7 mandamentos e mais 1 ainda não dito, entretanto fico imaginando qual seria a reação das pessoas. Não seria das melhores!
    Beijos e sorrisos como uma nova máscara!

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      1. Ia chover peteleco, principalmente na cabeça do editor desse blog (ótimo escritor, péssimo piadista, o que também pode ser dito sobre o sujeito Mathias, er, quer dizer, imagino eu, haha). Quanto ao Barão, que belo livro! Gostei particularmente do tamanho escolhido… Sobre edições, não tenho dúvidas. Beijo!

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