O que não fala e os que não escutam

escafandro

 

 

O projeto humano é triste. A alegria, um acidente. Esse sujeito, por exemplo, que descobriu um modo de invadir o sistema de televisão do condomínio onde mora — o processo por meio do qual ele conseguiu fazer isso é complicado demais, o que tomaria muito tempo para explicar, além de muito técnico e, para ser franco, muito chato. Agora, sempre que alguém liga a televisão, não importa para que canal mude, se tem serviço a cabo ou televisão aberta, a única coisa que vê é a imagem do rosto de um pirata, ou melhor, do clichê de um pirata: chapéu com imagem da caveira e dos ossos cruzados, traços rudes nas expressões faciais, tapa-olhos, barba desgrenhada e negra, sorriso debochado, aberto e banguela. Embaixo da imagem há uma legenda que diz apenas, com uma tipologia rudimentar: Produções Pirata apresenta. E mais nada, não há programação, nenhum movimento, som não existe. A experiência televisiva virou um tormento. Os vizinhos que têm televisão a cabo ligaram para as respectivas operadoras, que enviaram técnicos, mas ninguém sabe como resolver o problema e portanto o pirata permanece, com seu estranho sorriso implacável, até mesmo há quem o perceba ameaçador. Claro que o assunto não chega a ser pauta de nenhuma outra emissora, por medo de, ao se noticiar o fato, novos ataques surgirem em outros pontos da cidade. Sem televisão, as pessoas do condomínio não melhoraram exatamente, não se tornaram leitores de livros, por exemplo, como uma narrativa utópica certamente iria sugerir. Simplesmente migraram para a internet, ou passam mais tempo fora de casa, ou chafurdam com veemência mortal em celulares que são praticamente computadores pessoais. Quando precisam ligar a televisão, acionam também os aparelhos de DVD ou blue-ray e evitam olhar para o sorriso do pirata. Alguém chegou a cogitar que estava melhor sem a televisão em sua vida, mas ninguém deu ouvidos, e o sujeito foi chamado de otário. A revolução das máquinas foi tão sorrateira quanto silenciosa (para muitos, é ainda imperceptível e poucos os que se deram conta de que foi uma servidão voluntária o grande disparador) e apenas agravou a tristeza básica do ser humano, seu pendor para crises, para preferir conflitos a soluções.

 

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