O que há para ver

Imagem | Sam Samore
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Para Raymond Carver

O papel para desenhar e os lápis crayon, com muitas, muitas mais cores do que eu conseguiria descrever. Acontece que ela era cega e me disse para fechar os olhos. “Não me engane”, ela disse. “Estou confiando que você fechou os olhos.” Respondi sério, “fechei”. E tinha fechado mesmo. Ela pegou minha mão e começou a desenhar. Primeiro apresentei certa resistência, como se fosse um cego novo, tateante, sem saber que tipo de caminho havia a minha frente. Mas fui aos poucos aprendendo a ceder, deixando que ela conduzisse minha mão, embora ela não tivesse ideia de qual cor de lápis eu havia escolhido. É como andar na garupa de uma moto. Na primeira curva, você ainda resiste, rebate com o corpo na esperança de evitar que a moto caia, que o condutor a sua frente perca o controle. Mas à medida que vai ganhando confiança, você se entrega, passa a fazer a curva junto com a moto e o corpo a sua frente. É como aprender a andar de bicicleta também, num certo sentido. Você percebe que está conseguindo manter o equilíbrio, que há certa dificuldade inicial mas que depois se supera, você aprende uma nova qualidade de si mesmo com isso, um outro grau da própria humanidade. Então eu soltei a mão, deixei que ela desenhasse por nós dois, que nos conduzisse, ela à frente, eu acompanhando o movimento. Até que ela parou o movimento e me deixou continuar sozinho, quando viu que eu tinha pegado o jeito. Daí a pouco eu parei. “Pronto”, ela disse, “pode ver.” Mas eu não queria abrir os olhos, não ainda. A ideia de um novo grau de mim mesmo, de um estágio mais avançado, dessa visão dentro da cegueira, estava mexendo comigo. “Ficou ótimo”, eu disse, ainda de olho fechado.

 

5 comentários sobre “O que há para ver

  1. Bia Leal 16/12/2014 / 10:20

    escrevendo pela primeira vez em caderno sem linhas.

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  2. Aurea Cristina Szczpanski 16/12/2014 / 14:41

    Paulo, o que posso dizer? Este seu texto me levou pela mão… e eu, que comecei relutante, que ainda não aprendi bem a me deixar levar, que nem sei andar de bicicleta, fui indo, indo…

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