A astúcia da sereia

Foto | Evelyn Bencicova
Foto | Evelyn Bencicova

 

 

A sereia avançou pelo salão, arrastando a cauda do vestido de gala e projetando para frente o volume da sedução, o par de seios — as gêmeas, ela chama, entre divertida e orgulhosa — que Maria Luísa arregimentou como argumento forte de convencimento. Ulisses hoje não iria escapar, ela tinha feito uma aposta com as amigas, todas também sereias na mesma festa, e o fato é que ela estava disposta a vencer a todo custo. Penélope, que atende pelo nome de casada Poliana Alves, hoje não terá mais motivos para recusar a atenção dos pretendentes (se bem que, para efeitos desta história, ela nunca cogitou mesmo sonegar qualquer atenção recebida, e é importante que esse registro seja feito). O álcool, nunca inimigo para um antigo grego, hoje funciona como pretexto para tanto absurdo e despautério que Ulisses, aliás Tadeu Alves, depois terá que explicar a sua senhora por que diabos foi visto afastando-se do salão na companhia nada auspiciosa (a depender, evidentemente, do ponto de vista de quem relata) de Maria Luísa e das gêmeas. O que ela não sabe e talvez a escandalizasse, mas não muito, é que também outras sereias juntaram-se à festa particular. Que Ulisses tenha sido devolvido mais tarde com a vida íntegra, aliás acrescida de experiência e ao contrário do que teria acontecido com o Ulisses original caso tivesse cedido ao apelo das sereias de então, é o mistério que os estudiosos ainda penam para explicar.

 

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