Numa dessas viradas

Foto | Abdelaziz Az
Foto | Abdelaziz Az

 

 

Alguém precisava limpar aquela imundície.

— Júlia — gritou Dagmar. — Vai lá chamar sua vó.

Nem se mexeu. Não era com ela. Na televisão, o desenho apostava que coerência era um luxo do passado remoto.

— Júlia, vai lá chamar a sua vó — repetiu.

Nem desgrudou. O olho vidrado nas alucinações da tela. Uma musiquinha repetitiva e grudenta azucrinava os ouvidos. Júlia não se mexia. Mas alguém precisava limpar aquela imundície na sala. Um cadáver não é uma boa imagem para a ceia de Ano Novo. Uma atitude precisava ser tomada, alguma coisa, qualquer coisa precisava ser feita. Júlia em imersão absoluta no desenho, trauteando a musiquinha, que duraria dias na memória familiar e ficaria para sempre associada àquele episódio absolutamente incomum.

 

8 comentários sobre “Numa dessas viradas

  1. Franz E. 01/01/2015 / 10:37

    uff. Pode ser que alguém despreze assim a avó. tenho a certeza que sim, mas para mim, isso é impensável. E quem é o autor da foto?

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  2. marielfernandes 03/01/2015 / 0:03

    Um cadáver é sempre algo que desagrada, além de oferecer perigo, alguém sempre pode tropeçar.

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    • paulopaniago 03/01/2015 / 10:50

      Daí a necessidade de cobri-lo, tirar logo da vista (cadáveres são desagradáveis ao olhar, é o que se pode concluir). Além do quê, depois de certo tempo aparece o odor característico. Enfim, sem nem mencionar os tropeços, como você lembrou.

      Curtido por 1 pessoa

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