Um sujeito do seu tempo

Foto | Aernout Overbee
Foto | Aernout Overbee

 

 

O homem não podia fornecer a ninguém o endereço. Vivia entre um hotel e outro, a cada noite uma cama diferente. Era como se fizesse uma brincadeira perversa de esconde-esconde com a vida. Tinha essa profissão estranha, de alimentar com informações um blog a respeito das condições de hotéis na cidade em que vivia, uma grande metrópole. Os turistas adoravam consultar suas dicas antes de tomarem decisões a respeito de onde permanecer e os altos índices de frequência de sua página virtual despertaram a atenção dos responsáveis pelos setores de divulgação das redes hoteleiras, de modo que ele passou a receber cada vez mais convites para visitar tais e tais outras instalações, sem que qualquer taxa lhe fosse cobrada. O sujeito, portanto, tinha teto sobre a cabeça e cama macia todos os dias do ano, o que lhe eximia de pagar aluguel, condomínio, água, luz, alimentação etc. Por outro lado, para não parecer que se trata do emprego dos sonhos, vivia solitário e ressentia de não poder convidar amigos a visitá-lo, servir um café, preparar um almoço. A particularidade da profissão sugeria que não tirasse férias, a não ser que pudesse bancar o aluguel de alguma casa (não faria sentido ficar hospedado num hotel ou pousada durante as férias) e passar um mês todo lá. Chegou a tentar isso, na metade do terceiro ano do negócio, mas uma semana foi o suficiente para perceber que não conseguia ficar quieto no mesmo lugar: causava uma terrível sensação de estar afundando num pântano, como se fosse um tubarão que tivesse finalmente caído em sono profundo. Voltou à rotina de movimentação perpétua, aonde quer que chegue é bem recebido e em todo hotel que frequenta faz questão de cumprimentar a todos erguendo o chapéu acima da cabeça, o único gesto arcaico que se permite.

 

5 comentários sobre “Um sujeito do seu tempo

  1. Franz E. 03/01/2015 / 13:14

    É. Acontece que muitas vezes se pensa assim, parece até que hotel permite dedicar a vida ao estudo e à escrita, uma vez que não se tem de pensar em mais nada. Teria de ter uma biblioteca bem próximo e recheada das leituras que se gostam mais. O equilíbrio é mesmo a casa, onde se tem o lugar, ou lugares, por onde se estuda e escreve. verdade, verdade, é que não me importava de experimentar.

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    • paulopaniago 04/01/2015 / 9:53

      A ideia parece mais interessante do que a realização, me parece. Acho que eu teria dificuldades, embora seja bastante tentador. Sempre em movimento.

      Curtido por 1 pessoa

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