Controvérsias

pernas

 

 

Tratava-se, ele pensou, de decifrar as intenções da moça no rosto dela, se isso fosse possível. Pergunto-me como é que eu sabia o que ele pensava, se acaso sou um desses narradores oniscientes metidos a saber tudo o que se passa nas mentes e corações dos personagens. O fato é que a explicação é bem simples e não envolve qualquer tipo de truque divino. Eu sabia porque ele me contou. Sei que isso levanta outra questão, possivelmente até mais grave do que a onisciência (pelo menos nela o contrato com a ficção está estabelecido e preservado desde o princípio): como posso ter certeza de que o que ele me disse corresponde de fato ao que ele pensou. E a única resposta possível é: não posso ter certeza de nada. O que me parece importante, no caso, é que a situação me parece verídica e me fio nisso para tentar convencer o potencial leitor desta narrativa aqui. Acontece que ele fracassou na leitura, na decifração do rosto. Porque quando se dobrou para ela com a intenção de beijá-la, foi repelido. O que se passou a partir de então é controverso e a verdade é que a única testemunha além dos dois — que, bem entendido, fornecem relatos muito distintos dos eventos a partir de então — não pode ser convocada, afinal trata-se daquele a quem se atribui o poder não só da onisciência, mas também o da onipotência e da onipresença. Acontece de esse sujeito ser ocupado demais para se permitir tomar partido nos tribunais, de modo que a disputa agora reside de maneira bem mais pedestre na habilidade dos advogados dos envolvidos e na potencial habilidade do juiz de ser efetivamente justo.

 

2 comentários sobre “Controvérsias

  1. Aurea Cristina Szczpanski 19/01/2015 / 10:18

    Me fez lembrar as aulas de teoria literária na faculdade: narradores oniscientes, hein? sempre os achei intrometidos… feito Deus (e nem adiantaria eu não confessar isto, já que ele conhece meus pensamentos)…

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    • paulopaniago 19/01/2015 / 11:07

      Pois é, a onisciência sempre teve bons resultados na literatura, eu acho, sobretudo com as gracinhas do Laurence Sterne. Gosto da onisciência quando ela vem embalada em autodeboche, sobretudo. Entendo a necessidade, no século seguinte, do distanciamento do narrador, mas acho sempre interessante poder brincar de Deus, hahaha.

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