Ninguém sabe

macaco

 

 

É preciso viver, insistem as pessoas, escrevem a respeito. Viva, é preciso viver!, argumentam, e é possível ouvir a exclamação na frase enunciada, no olho arregalado, no gesto entusiástico. Viver não tem fórmula, não tem regra, insistem, e em seguida recitam a fórmula, ensinam a regra que julgam ser a correta. Viva!, viva!, bradam, as mãos gesticulando para enfatizar a asserção. O tempo é curto, advertem, é preciso aproveitar o máximo. E então morrem, preocupados que estão em ensinar os outros a viver. A totalidade da vida nem parece mais tão cheia de substância e o fato terrível é que todas essas admoestações existem porque ninguém sabe de fato como é que se vive.

 

6 comentários sobre “Ninguém sabe

  1. Mathias 16/01/2015 / 17:31

    (Como publicado na imprensa russa em janeiro de 2015)

    SINISTRO É O ASPECTO DAS CADELAS RAIVOSAS

    Por Mathias Zangado

    Gosto de escrever nas livrarias. São lugares interessantes onde um pode pegar livro e se perceber solitário ao redor de outras pessoas que também pegam livros e se percebem solitárias ao redor de outras pessoas etc. etc. O pormenor desse ciclo nada tem a ver com o presente relato, assim, poupo-o ao leitor. Às vezes, sento-me para observar quais livros nacionais os frequentadores de livrarias estão lendo. Eis alguns dados — cuja precisão está bem longe de ser efetivamente provada — que minhas breves pesquisas coletaram: o escritor brasileiro mais lido pelos contemporâneos é Chico Buarque. Vi jovens, velhos, adolescentes, homens, mulheres, gentes de terno, gentes em mangas de camisa, damas alegres, cavalheiros tristes segurando exemplares de O irmão alemão nas filas dos guichês. Poucos leem os clássicos. Até Machado de Assis, que o tempo não foi capaz de desatualizar, parece gozar de pouco prestígio entre os leitores modernos. Escritores brasileiros que costumam ser rotulados com a etiqueta autores da nova geração — Daniel Galera, Joca Reiners Terron, Andréa del Fuego, Carol Bensimon, para citar alguns — têm também um par de seguidores. O que me inquieta: cadê os brasilienses metidos nessa turma? Cadê Paulo Paniago nas prateleiras? E talvez a culpa seja de Brasília, esta cidade estagnada nos mil novecentos e sessenta, com prédios velhos, a ruir, fingindo imagem arquitetônica inovadora, maquete para turistas que vêm de fora e apreciam a tal urbe do futuro. O que se promoveu de arte neste território seco e avermelhado? Poemas construtivistas que falam sobre o tédio do concreto, bandas do rock-1980 com integrantes filhos de funcionários públicos & vocalistas atormentados que usavam óculos e liam Balzac. O artista brasiliense de hoje é um animal incompreendido, compelido a seguir o próprio apetite, sem o auxílio de vivalma, fica louco, delira na mor parte das coisas, ou em todas. Escreve, canta, pinta, dança, no escuro, em auditórios sem plateia. É selvagem que, tão logo se ergue para atacar, os sinais se antecipam e seu corpo inteiro deixa a condição habitual e tranquila e ele açula a própria ferocidade, como diriam alguns sábios. Grita, mas os senhorios paulistas-cariocas-gaúchos, divulgadores das artes que valem a pena, estão longe demais para escutá-lo.

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    • paulopaniago 16/01/2015 / 21:52

      Caro Mathias, suas palavras me enchem de inquietação e deleite, não necessariamente nessa ordem. Porque, se há um lado de mim que gostaria de ver meu nome nas prateleiras (melhor ainda: a sair delas para ser levado até o caixa e depois ser efetivamente lido e, se possível, apreciado), por outro gosto de pensar que a literatura silenciosa também tem um grau estranho e contundente de novidade nesse cenário. Claro que penso que no fundo é uma boa desculpa para continuar a não ter o grito ouvido, porque afinal é preciso dar a cara a tapa e entrar no ringue, de uma maneira ou de outra, mesmo quando se sabe que a luta é desigual e a derrota inevitável. Mas o fato é que escrevo umas coisas que não sei mesmo se teriam leitores, a ideia de ter leitores me parece remota e, petulantemente (mas sem arrogância, devo acrescentar, embora o comum dos mortais dificilmente perca tempo tentando distinguir uma da outra), diria mesmo que o melhor para o que escrevo é não tê-los. Sei que aqui mesmo, nesse blog, há alguns que leem, não raro curtem (ou sinalizam ter curtido, uma opção do próprio sistema do blog) e comentam. Mas aqui os textos são de outra natureza, econômicos como sugere o suporte ou a (im)paciência dos leitores. Me parece que é uma relação interessante a que desenvolvo com os leitores a distância, sobretudo no aspecto de que é virtual, mas surpreendente no que tem de constante. Enfim, me estendi além da conta. O que queria era agradecer as referências e menções, as comparações que me envaidecem, e torcer para que a loucura ainda se atrase um pouco antes de me visitar. Agora, a lamentar mesmo é a ausência nas prateleiras dos escritos de Mathias Zangado, sobretudo porque me parecem apontar caminhos novos ao unir ensaio e ficção, num gênero cujo nome está para ser criado. Gosto muito do que leio na sua página do Tumblr, embora me depare um número enorme de vezes com poucas atualizações. É aí que está o fervilhar, meu caro, nesses seus escritos impiedosos cheios de compaixão ao mesmo tempo, com autores, leitores, pessoas próximas. É daí que vem a novidade, me parece.

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      • Cris 19/01/2015 / 11:19

        Vcs dois são genias! Um dia alguma editora vai descobri-los, estou certa disso. Bjs da Cristina, mãe do Mathias Zangado.

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      • paulopaniago 19/01/2015 / 14:06

        Obrigado pelo elogio, Cristina. Ou uma editora descobre, o que seria ótimo, ou senão a gente cria a própria editora, haha.

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      • Mathias 20/01/2015 / 10:59

        Pois que tento escrever enquanto as frases me possibilitam existência mais ou menos agradável. Quando a luz do dia se torna inoportuna, regresso ao meu buraco & me perco em desbundes etílicos — convém mencionar essa rotina, a qual tenho por hábito guardar para mim quando em sociedade etc. etc.

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