Uma história triste

Foto | Jaime Navarro
Foto | Jaime Navarro

 

 

A morte precoce anula a posterior. 

Robert Walser — Absolutamente nada

 

É uma pena que seja assim, mas algumas histórias são tristes porque contêm esse componente inevitável da vida que é o desastre. Portanto fique advertido o leitor que prossegue: a narrativa que vem é triste. Havia esse garoto do interior que se mudou para uma cidade grande e ainda não tinha sido corrompido pelos valores brutais que imperam nas grandes cidades. Portanto, era um garoto com sensibilidade aguçada para notar o canto dos pássaros, a mudança na floração das árvores, detalhes relativos a trechos de asfalto que ficam especialmente bonitos depois da chuva, a direção do vento que muda ao final da tarde. Em outras palavras, ele tinha os sentidos atentos ao entorno, não apenas a visão. Grandes sonhos e ainda maiores esperanças estavam dispostos diante dele para serem colhidos feito fruta madura. Mas por conta de um desses infortúnios a que por falta de palavra melhor se dá o nome de acidente, contraiu uma doença fatal e morreu, foi atropelado e morreu, estava no caminho de uma bala perdida (outra expressão miseravelmente infeliz) e morreu, ouviu uma música ruim demais e morreu, tropeçou num pequeno declive na calçada e ao bater a cabeça de mau jeito morreu, o que importa o como? Fato indisputável é que morreu e é sempre muito cedo para morrer, mas ainda assim algumas pessoas parece que abusam.

 

2 comentários sobre “Uma história triste

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