O ar que respiro

Foto | Aernout Overbeeke
Foto | Aernout Overbeeke

 

 

A algaravia, o ruído que preciso fazer, então me dou conta, existem para tentar de algum modo abafar o meu silêncio, porque nele tenho mais volume de autoconsciência e quando começo a me perguntar a respeito do sentido dessa autoconsciência, percebo que o mecanismo está ameaçado, que ele coloca em xeque tudo aquilo que é o meu limite da definição. Qual é mesmo o sentido de tudo isso? Essa experiência de estar vivo, inspirar e expirar, saber que um dia estarei morto e fingir que isso não me afeta, pensar e considerar, ponderar, sentir alegrias e tristezas e não saber com honestidade o que se sobressairia se colocasse uma de cada lado da balança. Começo a pensar paranoicamente que deveriam colocar soníferos no oxigênio dos aviões, que a leveza das ideias não corresponde necessariamente à pureza do ar, que as ideias estão um tanto aéreas e desencontradas, que a loucura tem formas perfeitamente normais e simpáticas de se manifestar, que a essa altura do campeonato minha personalidade não vai mais se alterar muito (mas meu caráter sempre pode manifestar uma face mais sórdida sem que minha consciência se altere muito por isso). A vida, de novo eu sei, mas isso pouco importa no fim das contas, não faz o menor sentido. Não é fascinante?, eu me interrogo, mas sei que estou sendo farsante, porque isso não traduz o que de fato me define: a certeza de que não tenho um grande lugar de destaque no mundo e o fato de que isso afinal me incomoda.

 

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