Companhias constantes

Foto | Sigurd Grünberger
Foto | Sigurd Grünberger

 

 

A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta. 

John Banville — Eclipse

 

O que me atraiu nela primeiro foi a superfície. Disso não tenho dúvida, o primeiro mecanismo da atração para um homem é sempre a aparência. Os olhos, boca, seios, a grossura da perna, a maciez adivinhada da bunda, só depois as outras características assomam. No caso dela, um charme no sorriso, no gesto de mão ao jogar os cabelos para trás da orelha, o modo como levanta primeiro os olhos e então a cabeça em seguida. Então as camadas mais internas, o traço da personalidade, a manifestação do caráter, as sutilezas das emoções. Havia evidentemente esse problema comigo, essa disfunção que me faz cair de amores muito fácil e a vocação terrível para o sofrimento. A felicidade me incomoda de maneira profunda. Então, quando tudo parece ir bem, as peças se encaixando nos devidos lugares para que a vida possa continuar sua farsa a respeito da possibilidade de ser harmônica, eu dou um jeito de chutar a vida na canela com bastante força. Com ela não fiz diferente e logo dizia o quanto detestava seus gestos, seu charme, o quanto não podia mais suportar a feiura dela, todas as mentiras convincentes que estavam ao meu alcance usei para afastá-la para bem longe de mim e para me deixar em paz com a minha única e constante companheira, a infelicidade.

 

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