Noite no metrô

ônibus

 

 

Era tarde e voltávamos numa das últimas composições do metrô antes que o serviço se encerrasse. Entramos num vagão especialmente estranho. Havia um sujeito cantando sozinho — ou para todo mundo — e uma mulher claramente amalucada que fumava, totalmente alheia à advertência dos avisos que indicavam ser proibido. A loucura ignora fronteiras, é uma de suas prerrogativas. Sentei-me de frente para meus companheiros e no justo instante em que me dei conta de que aquela composição estava se dirigindo para outras estações que não a nossa, entra esse senhor, com sobretudo cinza, olhos empapuçados, pasta de couro. Um executivo velho e solitário, possivelmente, perto da aposentadoria, que decidiu tomar umas e outras. Ele entra e começa a dizer que tomamos o metrô no sentido errado. Precisamos descer na próxima estação, dar a volta pelas escadas, mudar o sentido, andar mais duas paradas, descer novamente e então nossa conexão correta poderá ser feita. Mas como é que ele sabe, como pode saber dessas coisas? Enquanto mudamos de linha e esperamos a, agora sim, última composição da noite, conversamos a respeito daquele sujeito. Seria Deus, arriscou um. Ou uma versão de Jorge Luis Borges. Entramos por um instante num universo paralelo e fomos agraciados com um guia virgiliano do submundo noturno, que gentilmente e sem ter sido solicitado, nos apontou a direção correta. Até chegar ao apartamento que alugamos por temporada naquela cidade estrangeira mantive a sensação de que eu era um personagem de alguma narrativa bizarra e mesmo hoje, quando penso retrospectivamente na história, não consigo concatená-la com nada que lembre lógica. A surpresa, no entanto, que me foi reservada, me parece um presente inesperado e não deixa de ser uma pena que nunca teremos como expressar a gratidão sentida.

 

6 comentários sobre “Noite no metrô

  1. Thaís Figueiredo 05/03/2015 / 12:08

    Tom meio sombrio, meio misterioso, que você não usa nas micronarrativas com tanta frequência, mas o qual sabe trabalhar muito bem. A história ficou sensacional, mas o título é simplório e não faz jus à qualidade do texto, então vou dar sugestões dramáticas/apoteóticas, mesmo, na cara dura, haha. Deveria ser “O profeta do submundo” ou “Bifurcações embriagadas” ou mesmo “Jardim dos caminhos que se bifurcam”, por que não, já que o autor do texto é mesmo Borges, o mesmo que resolveu aparecer ao narrador em carne e osso e presenteá-lo com essa história. Só mesmo um presente do Criador para resultar numa narrativa dessas, boa demais para ser verdade, mas muito possível, já que a ficção faz muito mais sentido que o mundo real.

    Arrepiante.

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    • paulopaniago 05/03/2015 / 14:09

      Obrigado pelas sugestões e elogios ao texto. Ou, para dizer de outro jeito, os elogios vou aceitar, mas as sugestões, apenas agradecer, embora ache todas bem interessantes. Ficarei com o meu título, que você qualificou como simplório, numa ofensa (não intencional, suponho) com a qual disconcordo (que me soa mais interessante neste momento do que o óbvio ‘discordo’) veementemente.

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  2. Thaís Figueiredo 05/03/2015 / 14:46

    Não era ofensa. Não duvido da capacidade do autor de criar títulos, mas devido à seriedade do assunto, sinto que devo te desafiar para um duelo ou qualquer coisa do tipo, hahaha. Beijo.

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      • Mathias 05/03/2015 / 19:06

        Eu tomaria cuidado com as pistolas, cavalheiro de bons sentimentos — seres humanos talentosíssimos já perderam a razão diante delas. Pushkin, por exemplo, bateu-se em duelo com um suposto amante da esposa; acabou muito ferido & morreu dois dias depois. Todavia, se os Figueiredo me permitem intromissão… Defendo que um título, uma vez publicado, é irreversível.

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      • paulopaniago 06/03/2015 / 8:17

        Está vendo aí? Assino embaixo, uma vez publicado, irreversível. E não se preocupe, meu caro, o duelo é só de amabilidades.

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