A restituição impossível

Arte | Lissa Bockrath
Arte | Lissa Bockrath

 

 

Eu não estou aqui, não estou em parte alguma, a impressão que tenho é que passei a vida toda distraído com alguma coisa que não estava ao meu alcance, em vez de ir seguindo concentrado o fluxo dos dias e fazer observações perspicazes — ou no mínimo atentas — aos eventos que se deram a minha volta. O que penso, ao olhar retrospectivamente, é que gastei tempo demais na primeira parte da minha vida observando com atenção os pormenores em volta de mim, os detalhes dos objetos, prestei atenção excessiva a cores e formas, encantei-me mais do que era razoável. Com isso, perdi a grande perspectiva que busca compreender períodos extensos e situações amplas. Quando me concentrei nessa outra parte, na segunda parte da minha vida, percebi que os desenhos de paisagem, os grandes planos não contemplam as minúcias, os detalhes das coisas, seres vivos, o recorte explicativo, o pormenor esclarecedor. Sempre havia algo a me escapar por entre os dedos, algo que parecia importante o suficiente para me fazer pensar a respeito daquilo que estava perdendo. Com isso, me distraí de compreender com exatidão o que sou e como funciona a vida por perto. Me distraí inclusive de mim mesmo, porque na segunda parte da minha vida comecei a me dar conta que a minha memória era composta sobretudo por aquela visão distorcida — minuciosa demais, cheia de detalhes demais — apreendida na primeira parte. E a decisão mais sábia, me pareceu, era limpar a memória dos excessos para manter as essências. Mas quem define o que deve ficar e o que escorrega para o abismo sem fim do esquecimento não é uma operação inteiramente lógica, de modo que me dei conta de algo preocupante: minha memória descartava eventos e situações que eram importantes e cruciais para serem assinalados numa biografia do homem comum que afinal sou, de modo que comecei a perceber que estava perdendo porções inteiras de lembranças importantes, que iam embora levando consigo as emoções a elas atreladas. Eu estava me perdendo de mim, de novo e de novo. Houve um período em que tentei me destacar dos outros exibindo publicamente personalidade: forte, controversa, exuberante, havia nuances atreladas a cada situação e eu era capaz de variar. A personalidade é uma espécie de espada social com a qual se esgrime contra seus pares ou adversários, com vistas a ampliar a memória a seu respeito, expandi-la para que não seja registrada tão-somente pelo seu próprio sistema interno de registro — como se sabe, ele é problemático e tem falhas incríveis de apuração. A personalidade, no entanto, é apenas um dos aspectos que te ajudam a se definir enquanto humano. E os outros elementos também precisam ser considerados. Sobretudo, o modo como não apenas você é o detentor de um sistema complexo de emoções, mas além disso o que é que você faz para registrá-las ou transmiti-las para os demais? Esse é o ponto difícil da questão. Você transmite as emoções de alguma forma, mas começa a perceber que os outros humanos jamais serão capazes de captar as sutilezas delas, jamais sentirão as coisas do mesmo modo nem captarão racionalmente o que existe afinal de lógica na manifestação das suas emoções. Então, você começa a pensar, qual é o sentido de extravasar isso se a compreensão é mínima ou mesmo inexistente? Você então passa a um outro regime, o de economizar na manifestação das emoções, cada vez mais, cada vez com maior eficiência. Por esse motivo, talvez, é que se observa com desconfiança os velhos que são expansivos, intuitivamente se é levado a concluir que se trata de pessoas que não amadureceram. E quando percebe, o que você esteve fazendo esse tempo todo foi abrir mão de ser você mesmo, de agir de acordo com as expectativas alheias ou, pior, com o que você julga que sejam as expectativas alheias. E não te ocorre pensar que seu julgamento pode estar profundamente equivocado. Ou mesmo que estivesse correto, não te ocorre pensar que talvez você deva viver a sua vida do jeito que achar melhor, sem ligar para o que os outros estão pensando ou se estão fazendo críticas a sua conduta e aos seus valores. Você chega mesmo a dizer algumas vezes para os outros que não liga para o que as pessoas acham, você gostaria de acreditar na verdade do que está dizendo, mas no fundo começa a perceber que sim, você se tolhe e observa de modo geral qual é a etiqueta vigente e procura segui-la na medida do possível. Os loucos parecem ser os que verdadeiramente conseguiram abolir todas as convenções sociais, mas em compensação foram todos confinados nos mesmos hospícios para que seu comportamento libertário não atrapalhe a malha social constituída por impedimentos, cerceamentos, restrições. O louco talvez seja o único ser humano que está em contato consigo e com a verdade do ser em si, talvez por isso precise se desvincular tanto dos demais e aparenta ser alienado: o contato verdadeiramente íntimo implica numa ruptura com esse mundo exterior revestido de tantas e tantas aparências e da manutenção dessa suposta ordem. O louco é o humano que deu certo, embora pareça justamente o contrário. Quando todos tivermos o projeto coletivo de enlouquecer será o momento em que a humanidade terá chegado ao estágio correto de amadurecimento. Infelizmente, a loucura não é um projeto que dá para encarar de maneira racional, não é possível ser louco com hora marcada. É preciso que esse meu flerte com a loucura pudesse ter sido convertido num mergulho radical, se eu tivesse tido a coragem, mas fui covarde e nunca pulei de cabeça. A história ensina que os loucos sofrem — confinados, medicados, terapeutizados — na mão da maioria, que não abre mão de tentar “recuperar todos” para o projeto avassalador da razão, esse império que atravessou séculos e fronteiras, muito mais eficiente do que qualquer capitalismo chinfrim. A razão é o que nos perde a todos, a razão é o grande projeto alucinado do qual não conseguimos nos desvencilhar. Por isso fico achando que me perdi, fico lacônico pensando nos estragos que a memória me proporcionou, fico triste pensando nas porções de mim mesmo que perdi, preocupado em restituir o que não pode ser recuperado jamais.

 

10 comentários sobre “A restituição impossível

  1. Thaís Figueiredo 12/03/2015 / 11:00

    Escrever para desaparecer e ao mesmo tempo deixar um rastro, certo? É disso que se trata aqui e o resultado é lindo e emocionante. “Memória dos excessos” é uma expressão bela, elegante, incrível. Todo esse texto é genial e eu realmente me sinto embarcando em um relato de lembranças extenso e arrebatador à la Proust a cada leitura. Gosto da analogia da personalidade como uma espada corajosa, mas ao mesmo tempo, performática. Também fiquei refletindo bastante na questão das expectativas alheias: muitas vezes agimos de determinada forma para atendê-las, mas na verdade o que se espera é algo completamente diferente… Não há palavras suficientes para expressar o quanto eu gosto dessa narrativa, o fato dela ser em primeira pessoa, o tom confessional… É impossível não querer descobrir o segredo, o antecedente de todas elas, porque é isso que parece, que a qualquer momento algo forte e muito sincero vai acontecer. Fico com vontade de ler mais, de mergulhar nesse relato. O texto tem toda cara de começo, de romance, está sedento por uma Combray, por madeleines, por um beijo da mãe etc. etc.

    Que fase essa sua! Que belo momento para gostar e viver e beber literatura (para mim, no caso)!

    😉

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    • paulopaniago 12/03/2015 / 11:26

      Obrigado pelos tantos e tão profusos elogios, fico encabulado, não lido muito bem com eles e não consigo saber exatamente o motivo, mas acho que é porque considero não ser merecedor. Devo dizer, no entanto, que lendo o que você escreveu fico tentado a pensar de novo a respeito desse texto. Acontece que tentei fazer uma continuação dele e me pareceu que o impacto inicial não se sustenta nem se mantém, o que talvez seja um problema que me leva a considerar que talvez ele seja apenas isso mesmo que já está contido nele. De todo modo, vou pensar a respeito mais adiante, quem sabe, quando terminar Subterrâneos e Vai ficar tudo bem (para quem não sabe: respectivamente um livro de contos e um romance).

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  2. Erika 12/03/2015 / 11:40

    uau. louco, e exato. estava precisando, thankyou. bj,

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  3. Mathias 12/03/2015 / 17:12

    De tantos e variados modos somos contaminados pelos parasitas da literatura. Ou a singular imaginação do escritor que trabalha efetivamente sobre a própria criança (isto é: o texto que ele faz nascer). Todos os olhares mentais desse tipo dos livros: que ora apontam para o romance, ora apontam para um texto mais conciso, ora apontam para o nada. Como diria um antigo, ninguém está inteiramente livre de uma ou outra enfermidade. E aqueles que se propõem a escrever têm dentro de si a moria (o elogio da loucura); embotados, inertes, de mente abatida, perplexos em seus pensamentos temerosos, como se diz, e raramente alegres, em cópulas carnais com o demônio — de acordo com alguns. Que incontáveis escritores sejam melancólicos não se poderia negar; por causa de uma fantasia corrompida que ilude, ou que produz estes efeitos: sofrem demais, desassossegam-se, por qualquer casualidade ficam aflitos e apavorados. Outros são da opinião de que só se escreve bem se cheio de dores, desse sofrimento hostil, tal qual mulher afastada de toda companhia masculina, de ortu monstrorum commentarius (comentário sobre o nascimento de monstros). Há de viver numa tirania aquele que cai completamente nas armadilhas da musa, tornam-se incompreensíveis fora das fronteiras literárias, são rudes muitas vezes ao sentar-se à mesa, falam sozinhos, são irosos, como já disseram, rabugentos, irritam-se com tudo, suspeitam de tudo, cabeçudos, avarentos, duros, teimosos, supersticiosos, presunçosos, & esta doença, depois de um tempo determinado, vira doidice que ataca o cérebro & fixa-se para sempre como um hábito incurável. Transtorno desolador para aquele que ainda moço começa a anotar histórias de toda sorte e no entardecer dos dias é privado dessa estranha prática intelectual que vários humanos julgam imprescindível. A literatura, diz Aristoteles, é de fato necessária, e coisa alguma sem ela pode ser levada a cabo, se os livros não enchem a alma e inflamam o espírito. Mas tome uma dose descabida, ex eo foetus ei assimilatus (por uma sensação medonha), e lá se vai a sanidade. Não pode corpo assim obter repouso seguro. Forma de evidenciar a tal consciência múltipla de si como um ser que não sobreviveria fora das ficções? Talvez. Certo é que o homem é tanto herdeiro das terras férteis da literatura quanto das doenças que ela transmite em segredo — segundo corretamente designou João Barrento. Pois bem, A restituição impossível é bonita poesia. Traz o memorável exemplo de um certo Thomas Bernhard, que não tinha coragem de se suicidar e providenciava que os próprios personagens o fizessem. Ou Goethe, alcoólatra, que enchia de bebida os protagonistas para que ele mesmo não caísse na tentação etílica. E numerosos autores que jogaram aos filhotinhos literários os destemperos que traziam no peito: o primeiro dentre eles, que ninguém vivo pode evitar, é a velhice. Juventude que não pode ser recuperada jamais.

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    • paulopaniago 13/03/2015 / 14:49

      Um pouco de loucura, sim, os que escrevem sempre têm. Um pouco, o tanto necessário talvez para ser tempero extra, mesmo que torturados pelas crises de escrever/não-escrever, os demônios a tentar e atrapalhar. Gostei do adjetivo irosos para definir esses seres inquietos e inquietantes que são os escritores, trevas e brilhos a lhes contaminar a vida, êxtase e danação no mesmo café da manhã, no mesmo jantar. Bernhard tem uma saída inteligente, me parece: morte aos personagens, já que eu, autor, sou covarde demais para me matar. Que bebam e caiam pelas tabelas, enquanto mantenho a sobriedade e a escrita, certo Goethe ao fazer isso. E houve os Hemingway que beberam e suicidaram, as Ana Carolina César cuja poesia pareceu mais forte que a existência, a tentação do abismo vale para todos, escritores ou não. Caminhemos um pouco mais, a tarde parece bonita.

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  4. marielfernandes 14/03/2015 / 22:48

    Talvez, é de fato só uma impressão, você esteja preocupado em excesso com as perdas. Há um livro interessante sobre isso, que me chegou em momento parecido. Chama-se Perdas necessárias. É pra lá de bom. Quem sabe você o apresenta a sua personalidade antes de transformá-la em espada social.

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  5. Amate 31/03/2015 / 14:02

    O maior impacto é ouvir na voz poética o relato tardio da consciência cansada. Por que pode ser tão complicado esperar que entendam nossas motivações, lógicas dos sentimentos? O espectro das expectativas jamais alcançadas ou, se alcançadas, irrespondíveis. Pensar que meus esforços são tão vagos quanto minhas vontades de me fazer crível, inteligível e amado. Gosto dessa voz cheia de perdas, que não se encontra e talvez nem se proponha um encontro. Pois num estado etéreo das coisas ideais estão lá nossas conformações com o que nos tornamos. Aqui jaz o contrário, uma bela relutância. Mas tenho uma ressalva para o que dizes ser maturidade. Existem velhos ainda fanfarrões, apostando em toda exposição possível de sentimentos. Em que eles acreditam? Serão tão tolos a ponto de apostar no mesmo erro? Ou as decisões dos corpos que falam são ambas falhas, tanto se tentam omitir quanto se tentam a exposição?

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    • paulopaniago 31/03/2015 / 15:53

      As respostas para as suas perguntas, me parece, são as que valem seis milhões de dólares. Eu digo que não sei, mas é fato que o texto procura tatear essas questões, colocar o problema sobre a mesa para que não possa ser ignorado. Não importa o quanto se revele, ainda não será tudo e sempre se corre o risco de ser mal compreendido. Não importa o quanto se oculte, ainda assim as pessoas serão passíveis de serem de novo e de novo não compreendidas. Então, por que, se é assim, não se joga tudo para o alto, por que dar tanta importância à opinião alheia para continuar a conduzir a vida? Acontece que há grandes irresponsáveis em posições de poder, agindo de acordo não com potenciais ou verdadeiras críticas, mas a partir do escopo pessoal, e com grandes repercussões na vida alheia. Talvez por isso, esse pudor de afetar o próximo, é que se refreie os desejos mais absurdos. Por respeito aos limites humanos, que afinal são uma régua de conduta em boa parte das situações. Mas é de se invejar quem não tem esse tipo de restrição, certo? Quem é desbragado e desenfreado, não importa contra quem ou o quê. Me parece tão digno, tão interessante. Enfim, tudo para insistir no mesmo ponto, ou seja, não tenho resposta.

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