Desse lado do ringue 3

Foto | Christophe Jacrot
Foto | Christophe Jacrot

 

 

Depois de dar uma folga, Deus resolveu me sacanear muito e fez com que minha namorada perdesse a carteira. Estávamos no começo do dia, o primeiro de um fim de semana que seria passado em outra cidade, e havíamos saído do metrô e entrado num café. Ela foi retirar a carteira da bolsa, não estava. Pegamos o metrô de volta, ela se lembrava de ter tirado a carteira na entrada da estação de onde tínhamos saído. Perguntamos para a moça do guichê de venda de bilhetes se alguém havia encontrado a carteira e a devolvido: nada feito. Ela recomendou o posto da polícia, era lá que as pessoas bem intencionadas retornavam coisas encontradas. De novo nada. A caminho do hotel, onde a internet permitiria o contato para cancelar o cartão de crédito, pelo menos, o rosto dela era a imagem do horror. Creio mesmo que a vi esconder uma lágrima, imaginando o transtorno para registrar ocorrência, fazer novos documentos, antes disso embarcar de volta sem eles, a confusão toda, o fim de semana revirado pelo avesso. Quando entramos no quarto, ela foi à mochila: a carteira estava lá. Deus é um cretino que fica nos dando sustos, transferindo carteiras de bolsas para mochilas de hotel, nem bater carteira direito ele consegue, deve se sentir tão culpado quanto um capacho cristão. Talvez por isso ele estava andando tranquilamente pelo aeroporto de Brasília e evitou interação em nosso último encontro: estava ao celular combinando a logística para pregar esse trote, o cretino.

 

2 comentários sobre “Desse lado do ringue 3

  1. Thaís Figueiredo 26/03/2015 / 13:46

    O primeiro comentário a ser feito, naturalmente, é a respeito dos efeitos desse texto. Ele não só conseguiu me surpreender (parabéns, senhor autor!), como me fez rir um bocado. Essa história é particularmente cruel, porque parece que Deus até dá: Toma, aqui vai um fim de semana glorioso para você, mas não sem apresentar a conta no final, ou seja, o preço da alegria dos personagens é o sarro que foi tirado da cara deles. E também é catalisador dos mais variados pequenos conflitos e desdobramentos: o namorado que certamente não acreditou nela (quem acreditaria?), a moça que deve ter pensado que havia ficado doida de vez, a imortalidade e onipresença dessa narrativa nas conversas entre os dois. Sem falar que uma coisa ficou claríssima para mim, o narrador e a moça certamente devem ser muito importantes e filhos muito amados para o Senhor, para ele ter se dado todo o trabalho de logística para dar um susto nos dois. Outra hipótese: talvez a própria moça seja Deus e as visões do narrador tenham sido arquitetadas por ela, bem como a transferência do objeto em questão, para zombar da cegueira e falta de perspectiva do narrador. Deus me parece esse ser que não sabe escrever bem (parece que escreve por linhas tortas), mas que adora dar pitaco e criticar e se intrometer no texto alheio, haha. Quem sabe não seja nada disso. Como já disse Hamlet a Horácio: “Há mais mistérios em uma bolsa de mulher que supõe a nossa vã filosofia”.

    Ps.: A cena de horror descrita é de partir o coração, hahahaha.

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    • paulopaniago 29/03/2015 / 10:15

      A conta de Deus seria um bom título. A fatura divina, haha. Que bom que você gostou. Pois é, Deus também é um mau escritor, que prefere as linhas tortas. Ou talvez os escritores devessem aprender com o recurso e passariam todos a também escrever pelo mesmo método. Mais mistérios em uma bolsa de mulher? Sim, tenho um amigo que foi se aproximar, acontece que terminou tragado pelo buraco negro da bolsa, até hoje não encontraram o corpo.

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