Preconceitos

Imagem | Corinne Vionnet
Imagem | Corinne Vionnet

 

 

Minha família sempre foi generosa com pessoas consideradas diferentes, meu bisavô recebia em casa todo tipo de gente necessitada sem levar em conta qualquer que fosse a natureza da questão que a tinha levado até ali. De alguma forma esse tipo de solidariedade se perpetuou como marca familiar. É algo que fazemos como se entendêssemos ser necessário e correto, portanto não há qualquer tipo de manifestação de orgulho no que diz respeito a esse assunto. Isso posto, devo dizer que meus pais sempre enfatizaram a necessidade não só de sermos tolerantes com as diferenças, mas percebê-las todas como naturais. De modo que onde as pessoas viam gordos, anões, vesgos, lerdos, chatos, obtusos, não raro eu via amigos interessantes, mesmo quando algo em mim reclamava que não valia a pena. Eu fazia um esforço e quase todas as vezes compensava — mas nem sempre. A diversidade humana. A tolerância. Generosidade. Compaixão. Compreensão. Nem sempre fui o melhor, mas havia esforço. De modo que não deveria estranhar albinos. Mas foi aí que a coisa emperrou. Algo nos albinos, essa expressão de não pertencimento na aparência ao projeto humano, esse ar de extraterrestres que carregam consigo, essa falta de pigmentação que lhes provoca tremores nos olhos descoloridos, associado aos problemas que lhes encurtam a visão e às pálpebras brancas, tudo isso me provoca um longo arrepio toda vez que me deparo com um albino. Até ali vai a minha tolerância, mas então recuo, perpassado por um incômodo estranho que me faz abdicar da tolerância. Claro, não lhes desejo mal nem traço qualquer plano horroroso para fazer qualquer ação malévola contra albinos. Sempre me irritei com os intolerantes ativos: contra os judeus, as mulheres em geral ou as putas em particular, os veados, negros, azuis, contra os isso, os aquilo. Os intolerantes me causam um profundo asco — mas nem por isso ajo contra eles, a não ser na forma de discursos que sei que não lhes altera em nada a boçalidade que os move e fundamenta. Mesmo esses toscos a quem abomino não me causam o tipo de estranhamento de que estou falando aqui, afinal tenho um elemento que se assemelha à tolice deles, me torna quase um igual, embora não goste de reconhecer. Acontece que travo nos albinos e não sei explicar a origem desse incômodo. Vejo um albino e quero mudar de calçada, evito o cumprimento, não pretendo ser apresentado. Porque meus pais não me mostraram um albino quando eu ainda tinha alguma chance de aprender? Por que o aprendizado, diga-se de passagem, não incluía essa categoria? Eu deveria ter repulsa apenas pelos intolerantes, mas vejo-me sendo um deles. Agora, só o que me resta é sair à procura de alguma moça que seja albina e pedi-la em casamento. Só o enfrentamento nessa camada mais profunda talvez me cure de mim mesmo, da minha imperdoável limitação humana.

 

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