No rumo de casa 1

Imagem | Laurent Cherehe
Imagem | Laurent Cherehe

 

 

Era o primeiro hotel em que entravam os desavisados que chegavam à cidade, porque ficava na principal rua de acesso e só depois é que se descobria que era o único. Tinha também um café caindo aos pedaços, onde seu Olavo servia cerveja quente e café frio, combinações normalmente fatais para esse tipo de negócio. No entanto, lá estava, e durando, com clientela fixa e os transeuntes do hotel que porventura não queriam se arriscar em outra parte, até serem informados que de fato nem havia outra parte, aquele era o único café no hotel da cidade. Jupiler, chamava-se, e pertencia ao nosso mafioso de plantão, Agnaldo. Ele estava sempre de colete e sempre de óculos escuros, mesmo à noite, ninguém jamais entendeu. Parecia ter vindo de outra época para lembrar a todos que os valores do passado ainda contavam para alguma coisa, sem que necessariamente se pudesse precisar o que seria essa coisa. Agnaldo tentava formar um corpo de associados subalternos que estaria sob seu comando, mas a indolência de nossa população, 752 almas desenganadas (e diminuindo), era completamente avessa a esse tipo de conduta e ele não chegava a ser um grande líder para reverter a situação. Nossa cidade parecia condenada, os filhos se mudavam para estudar e dificilmente queriam voltar depois, o destino que nos aguardava era lacônico e reticente, o que temperávamos com cerveja quente, à noite, e café frio, de dia, além de melancolia e resignação que ninguém sabia explicar qual seria a origem, mas que se espalhavam com enorme eficiência pelos habitantes. Seu Olavo também era gerente do hotel de Agnaldo e o único que parecia disposto a suportar as chatices do chefe. Nós outros simplesmente ignorávamos os comentários e admoestações de Agnaldo, cópia chinfrim de um Al Pacino mais jovem, em fins dos anos 1970, por aí. A estagnação e anúncio de morte de uma cidade é algo terrível, gela o sangue, interrompe a noção de que a vida é vibrante. Até os ventos pareciam se desviar nas montanhas em volta e evitavam arejar as ruas silenciosas de Rio das Almas, no interior de nem te digo qual estado (o nosso era lamentável). O rio estava assoreando, sucumbindo como metáfora viva da condição patética de resistência dos parcos habitantes. Ali o tempo tinha andamento muito mais caprichoso, excelente para escritores, essa raça que precisa ter exatamente o que escasseia por toda parte e lá havia de sobra, com inclusive muita folga a ponto de virar recurso. Foi o que fizemos para nos salvar, criamos uma colônia de escritores, para os quais vendemos tempo e eles vêm, em peregrinação, em busca do ambiente agradável e dilatado que proporcionamos. Há um bangalô para cada um, no qual escrevem e onde dormem, e espaço comunitário para conversas noturnas. Nem todos são bons, mas isso pouco nos importa, o que queremos é que a cidade não morra. E para os que estão com falta de inspiração, sempre tem Agnaldo, com relatos de histórias que jamais aconteceram, mas que funcionam muito bem em literatura. Ele é nossa versão local de Barão de Munchausen. O próximo passo é convencer seu Olavo a comprar geladeira nova e decente para a cerveja, uma máquina apropriada para fazer expresso e estamos feitos.

 

2 comentários sobre “No rumo de casa 1

  1. Thaís Figueiredo 14/04/2015 / 11:42

    Adorei a ideia de uma cidade para escritores, mas sem um café razoável fica difícil. Também achei sensacional a ideia de uma escassez grande a ponto de virar recurso. Também não achei de todo mal a versão literária jovem do Al Pacino, porque… né? Hahaha. Curiosa para ler o resto da série.

    P.S.: Continuo me perguntando se Calvino tem soprado a sua produção de 2015. Não só pelo tom elegante das narrativas, pela vontade que dá de entrar no texto e conferir o mundo criado pessoalmente, mas porque inspiração anda farta. Continue, meu queridíssimo escritor. Uma árvore por vez, recado de Dona Lélia, que tanto entende de jardinagem 😉

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    • paulopaniago 14/04/2015 / 15:05

      Que bom que te agradou e fico muito feliz (honrado, na verdade) por você encontrar semelhanças com Calvino. E sim, sem café é complicado, mas parece que já resolveram a questão. E quanto à dona Lélia, fato, ela entende de jardinagem e isso é ótimo, mas devia se eximir de falar francês, porque o dela é sofrível.

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