No rumo de casa 2

Imagem | Laurent Chehere
Imagem | Laurent Chehere

 

 

Juliana, coração apaixonado, destempero das emoções, perdição de minha vida. Juju um dia, Julinha no seguinte, mais tarde Ju e Jujuba, cem mil nomes para cem mil contorções da cintura enlouquecedora, o coração em fogo, olhos em brasa. Ela sabe os pontos em que dói a minha dedicação e a verdade é que ela gosta de causar dor, dominadora e feroz como faz questão de se mostrar toda vez. Eu devo ser o escravo desgarrado, o masoquista do amor, refém dos caprichos e indolente para traições, porque desejo com tamanha imensidão aquela mulher que não consigo resistir a qualquer que seja a proposta alucinada que ela me faz, e são tantas e tão intensas a cada dia, uma hora me quer como testemunha das orgias, com cinco homens, de uma vez foram sete mulheres, eu tinha que assistir e sem um pio, nem a língua podia usar, eu sou a contenção do anjo desesperado na coleira. Desejava que o amor tivesse me errado, as setas de Cúpido não me envenenassem, mas é querer sem causa, eu sei, estou à mercê de uma vontade que não é a minha. A boca só traduz as palavras incandescentes do meu coração, minha desrazão perdeu-se há tempos, nem tenho sonho de reencontro, o mapa tão perdido quanto a bússola. Minha fé e meu ardor é Ju, minha religião e toda a ciência, Juju, meu norte e o sul, Jurubeba, o sal da terra e o doce da água, Juzinha, meu começo meio e fim, Jujete cara de chiclete, meu isso e aquilo, meu desacerto e o desacato, o sol, a lua e as estrelas todas do firmamento até aonde a vista nem mais vai, ela me vira do avesso e ri, a desgraçada. Rendido, perdido, rodopio e peço bis, ela faz que nem é com ela, maldita, desconsolada, pisca torto e de saída, diz que volta não sabe quando, quer ver a casa um brilho, um brinco, parecido com o de pérolas que me desdobrei para conseguir. Valeu um beijo, um afago, sou Rex, o cão vadio, não mereço nem osso, incondicional feito crimes que não prescrevem. Sou Maria, a da faxina, Dora, a da cozinha, Marivalda, a escrava perdida do rei egípcio, isso quando não me xinga. Juju finge indiferença, mas eu sei que ela me quer, precisa dessa minha dedicação. Até que um dia. Porque tem sempre um dia que a coisa vira, o vento muda, a vida movimenta. Flagrei-a se apaixonando por outro, o coração prestes a ser estendido numa bandeja de prata, e aí perdi-me, a paixão avinagrando-se em negro no meu peito. Estavam os dois no quarto, cuja porta tranquei por fora. Gasolina pelas frestas de baixo e depois o incêndio, bonito, as labaredas lambendo-lhe a cintura em contorção, um coração em fogo como aquele nunca mais se viu tão belo.

 

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