Algumas lembranças de outro tempo

Foto | Brian Bowen Smith
Foto | Brian Bowen Smith

 

 

Antes de perceber os fantasmas, eu tinha todas as dúvidas voltadas para mim mesmo. Era o que garantia, eu pensava, que os meus pensamentos fossem efetivamente meus e não implantados em mim e controlados a distância por aquele que os implantou, com tal sutileza que me fazia inclusive duvidar da autonomia dos meus pensamentos. Ou, por outra, o que garantia em mim a autenticidade humana? O sangue que escorria pelos meus dedos ou pela minha testa quando eu me machucava em alguma brincadeira parecia ser apenas mais um elemento do dispositivo implantado em mim para me enganar melhor. E se descobrisse um dia que eu era um robô tão sofisticado que tinha um implante de mecanismos de pensamento que conseguiam inclusive formular essas questões e, tal como ocorre com os demais humanos, não ter a mais remota ideia de como ia começar a respondê-las. Talvez essa grande quantidade de questões que me assolavam estavam vindo do fato de que eu era deixado muito tempo sozinho na infância, com muitas horas vagas para especular e especular novamente, formulando e reformulando questões e narrativas pessoais nas quais eu poderia abolir a previsibilidade do mundo convencional e me comportar de modo semelhante ou melhor do que aquele que testemunhava nas histórias em quadrinhos que me eram dadas para ler, ou nos filmes que podia assistir uma vez por semana no cinema perto de casa ou em bases mais frequentes na televisão, que tinha afinal horários muito restritos — e eu, outras obrigações e afazeres, de modo que o acesso também era limitado e controlado. Mas em tudo isso que estou contando o importante, me parece, é perceber — o que consigo agora, mas não sei bem se tinha essa consciência à época — que um garoto deixado sozinho por muito tempo vai desenvolver um lado muito introspectivo, ruminante e cheio de indagações, mas que não sabe para quem deveria formular, de modo que as ruminações sofrem quase sempre uma segunda rodada de reflexões e novas elaborações mentais. Na vida real eu poderia estar indo a pé para a escola todos os dias, mas na imaginação eu voava, o que em geral causava uma sucessão de espanto e admiração entre as pessoas que podiam testemunhar, muitas deles meus conhecidos ou amigos, todos se transformando muito rapidamente em admiradores instantâneos. Na imaginação os voos se davam sem qualquer dificuldade, enquanto na vida real o máximo que eu conseguia sair do solo eram as corridas até em casa, tão intensas que me deixavam o peito dolorido de calor e a pele do rosto avermelhada por muito tempo, enquanto o cabelo grudava na testa, cheio de suor. O mundo se oferecia para ser desbravado e a verdade é que o meu repertório limitado não me sugeria caminhos melhores para desfrutar dele do que aquelas corridas desenfreadas ou senão uma brincadeira na rua com amigos que se estendia até escurecer e que parecia ter a extensão do infinito, mas que na verdade estava apenas na casa dos minutos.

 

Um comentário sobre “Algumas lembranças de outro tempo

  1. marielfernandes 26/04/2015 / 21:29

    Isso de ficar sozinho na infância… Bom, também pode nos livrar de pensar roboticamente, ou de achar que não pensamos assim

    Curtido por 1 pessoa

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s