Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.

 

10 comentários sobre “Manual de sobrevivência do homem solitário

  1. Cláudio Souza 07/05/2015 / 10:25

    Muito bom! Houve uma época em que me pareci com este personagem, se é que ele é um personagem.

    Eu era, na época, um DJ já decadente. Depois de 5 anos no Vagão Plaza e mais três no Le Masque, casas com a frequência de moças “relativamente tolerantes”, eu tinha ido parar numa sombria casa em São José dos Campos, onde fiquei por três semanas e decidi-me por isolar-me de lá, tendo em vista que, decadente ou não, eu ainda tinha alguns vestígios de dignidade e não poderia continuar trabalhando num local onde se falava de cocaína como se fala de rúcula na feira livre.

    No dia funesto em que decidi parti, outra moça tomou a mesma decisão e me disse algumas coisas, dentre elas a proposta quase infame de juntarmos forças, à qual eu respondi negativamente e ela, num pesaroso discurso, disse, da forma que ela podia dizer:

    “Ide, ide com tua mala, uma vez que teu destino é como o meu, Tu e a mala…”

    Eu fui. Felizmente a vida retraçou meus caminhos (ou terá improvisado com o que me sobrava?) e me encaminho, celeremente, em direção ao Club de Paris, onde vim a conhecer Renata, que, deliberada e sorrateiramente, transmitiu-me o HIV…

    Isso trouxe mudanças em minha vida, é claro e, curiosamente, hoje, debalde o preconceito, não estou mais só e, pelo contrário, tenho um lar e uma esposa que me ama.

    Embora o fato de saber, eu, que Renata não tivera a intenção quase sacra de me dar à luz novamente, de alguma forma, se ela ainda vivesse, eu diria:

    Obrigado, Renata! (…)

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    • paulopaniago 07/05/2015 / 10:39

      Impressionante o relato, além de muito literário (discutir sobre cocaína como se discute sobre rúcula na feira é digno dos melhores cronistas). Fico feliz de saber que, apesar do preconceito, você conseguiu não apenas se reinventar mas também encontrar conforto num lar e ter uma esposa que te ama. A minha história é tão-somente, na medida do possível, ficção.

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      • Cláudio Souza 07/05/2015 / 13:49

        (discutir sobre cocaína como se discute sobre rúcula na feira é digno dos melhores cronistas)

        Extrema é a sua bondade… E, de tão extrema, fico sem palavras para agradecer pela resposta.

        Sim, é fato, eu venci (quase) todos os preconceitos recomecei a vida, chegando a esta posição de ter um lar!

        Tenho um amigo, amigo de infância, que eu perdi de vista há cerca de quinze anos e que, meses atrás, eu reencontrei. Ele esteve em minha casa, sentou-se na cadeira que eu lhe ofereci e me fez uma pergunta que me deixou perplexo:

        — Você sabe que é um vencedor, né?

        Eu disse que não e ele fez longo discurso, até me convencer disso. Para você, que teve este gesto de bondade, eu deixo o arbítrio de publicar este comentário com o link que lhe ofereço, ou sem ele. É uma parte de minha história…

        http://soropositivo.website/2009/12/04/depoimento-de-um-soropositivo/

        []’;s

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      • paulopaniago 07/05/2015 / 14:54

        Obrigado novamente pela história, Cláudio. É claro que o comentário fica com o link, para que outras pessoas também possam se interessar pelo seu relato de vida.
        Abraço.

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      • Cláudio Souza 07/05/2015 / 16:05

        Muito obrigado. Vou passar a segui-lo. Tentarei prestar atençào em tudo o que vc escreve, porque gostei do seu estilo. Pense que para criar-se um personagem é necessário, no mínimo, uma boa visào da vida e isso, eu já percebi, você tem, sim! []’s

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  2. Luana Mineiro 21/05/2015 / 15:14

    Gostei muito da maneira como você escreve. Parabéns! Já me senti solitária, da forma como descreveu (e ainda me sinto de vez em quanto). Grande abraço!

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    • paulopaniago 21/05/2015 / 19:06

      Fico feliz de saber disso, Luana, ou seja, que você gostou, não que você tenha se sentido solitária dessa forma, porque isso não faz muito bem. Enfim, você entendeu, imagino. Abraço.

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