Tardes de sábado

Arte | Sepe
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Em algumas cidades do interior, brilha o sol mas não a vida. Essa segue modorrenta, arrastando-se por entre uma decisão lenta e um adiamento inadiável. Num lugar desses cresceu Airton, considerado pelo pais e professores bom menino — opinião compartilhada, no que diz respeito ao qualificativo, por Janete, que disse sim ao pedido de casamento, quando chegou a hora. Airton não usou de pompa, em circunstância tão corriqueira quanto esquecível. Memória não é o melhor atributo das pequenas cidades interioranas, há quem culpe o calor do sol ou o absoluto desinteresse generalizado pelo que aconteceu no passado. É uma cultura — ou a falta dela, a depender de quem argumenta. Fato é que Airton e Janete partilharam o leito e tiveram uma penca de filhos tão cretinos quanto desinteressantes. O terceiro de uma leva de oito, Juvenal, cresceu bruto e frívolo, combinação que pode ser desastrosa em algumas situações. Tentou ser sapateiro e trabalhar numa oficina mecânica, mas o emprego que se revelou duradouro foi no frigorífico. Numa tarde especialmente azucrinante, Juvenal conversava com um amigo tão tosco e brutal como ele mesmo, Dioclécio. Os sujeitos se embriagavam durante o turno, porque não havia o que fazer e precisavam esperar a hora de bater o ponto. Um carregamento de carne que aconteceria sofreu atraso, que não lhes dizia respeito, em termos de responsabilidade, de modo que se sentiam autorizados a beber no ambiente de trabalho. Dioclécio desafiou Juvenal, matar uma pessoa não era a mesma coisa que matar vaca, mas Juvenal teimou que sim e, para provar, pegou a faca e foi para cima de um rapaz que apareceu ali com o intuito de fazer uma cobrança, chamado João Vitor. Começou pela barriga e subiu com a faca até quase o pescoço, expondo as vísceras do jovem no chão encardido por tantos sangues animais. Quando Airton e Janete receberam a notícia de que o filho estava preso por assassinato, ele pensou diversas vezes onde tinha errado. Janete ficou na dúvida se teria alguma coisa a ver com a depressão que sentiu pouco tempo depois de dar à luz a Juvenal — doença que não lhe acometeu em nenhum dos outros partos. Fato é que às vezes é preciso afastar para o lado com a mão firme a pachorra que se acumula feito gordura em certas tardes de sábado, no interior.

 

2 comentários sobre “Tardes de sábado

  1. Paulo Vasco 29/05/2015 / 15:21

    Magnífico e tão adequado à atual realidade portuguesa, com um ou outro ajuste aqui e ali que de tão pequenos, nem se notam.

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    • paulopaniago 29/05/2015 / 19:06

      Muito bom “ouvir” isso, Paulo. Sinal de que os interiores não se alteram tanto em muitos lugares, a não ser nos pequenos ajustes.

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