Sarcasmo e aspirinas 2

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Segunda

13

Sarcasmo não tem alternativa: precisa ser intolerante com a burrice.

Não é à toa que no mundo florescem, neste momento, livros de colorir.

 

14

Numa ficção distópica, imagino um futuro em que o sarcasmo foi proibido e a punição é severa. Uma seita secreta iria se reunir, uma seita de adoradores de George Bernard Shaw, H. L. Mencken, Nelson Rodrigues.

 

15

A versão carnavalesca do sarcasmo é o deboche. Combina com o Brasil, porque deboche é o sarcasmo que não consegue assumir-se plenamente diante da estupidez do outro e disfarça o repúdio com um toque de malemolência. O que me gera o aforismo: deboche é sarcasmo com malemolência. Mas, para usar minha ferramenta predileta, posso dizer: deboche é o sarcasmo que se acovarda.

 

16

Jornais não conseguem lidar com os níveis elevados de acidez do sarcasmo e se contentam em chamar os políticos de hábeis. Mas o máximo que um jornal alcança é a suavização do sarcasmo, ou seja, a ironia. Porque políticos não são hábeis, pelo menos não no Brasil. O nome correto é sempre outro. Mas é difícil para a nação conferir o verdadeiro nome ao político que elegeu para representá-lo, porque isso significaria reconhecer o verdadeiro caráter local para a cretinice ilimitada.

 

17

Alguém que se disponha a usar de sarcasmo é porque alcançou o patamar de ir além do senso de humor. A única coisa além de sarcasmo é a mordacidade — embora ela ainda queira encontrar algum potencial para o riso no mundo.

Além do sarcasmo, só mesmo o remédio para dor de cabeça.

 

18

O cético é realista. O sarcástico acredita que o riso não salva, mas pelo menos permite uma postura intransigente diante do absurdo da existência. Ride ridentes, como diria, muito sério e compenetrado, um poeta russo cujo nome me fugiu.

 

19

Para se conseguir ser sarcástico, é preciso ter a mente desocupada para perceber o vazio das atribulações mundanas.

É por isso que as pessoas se ocupam tanto e a cada dia mais: não querem se contaminar inadvertidamente.

 

20

Religiões abominam o sarcasmo, porque se levam a sério demais no papel de explicar a ficção a respeito do espírito.

 

21

O meu único espírito é o do tempo. E ele vive gripado.

 

22

Só se pode pensar no limite da liberdade se se puder fazer o exercício perpétuo do sarcasmo. Quando começa o respeito, a liberdade vai para o saco.

 

23

Apontar o dedo na cara de uma ideia ou argumento e chamá-la de idiota ou cretina é a prerrogativa de que o sujeito sarcástico não pode abrir mão, mesmo sob risco de ser — e será, não tenha dúvida — tachado o tempo todo de grosseiro.

 

24

Elegância é incompatível com sarcasmo, esse rude do humor com fome pelas canelas das visitas. Ainda mais se bem vestidas.

 

2 comentários sobre “Sarcasmo e aspirinas 2

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