Sarcasmo e aspirinas 3

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Terceira

25

Se as pessoas estão à procura de bússolas que as orientem, o único efeito plausível do sarcasmo será desnorteá-las. Portanto, você que se comporta como ovelha desgarrada à procura de reingressar no rebanho, mantenha distância do sarcasmo e de quem o pratica.

 

26

O que você anda fazendo, me perguntou um amigo. Morrendo, respondi. Ao que ele sorriu: nada para hoje, então, de novo?

Esse é um verdadeiro amigo.

 

27

O cheiro do sangue e da tragédia anunciada enchem de expectativas aqueles dotados dessa especialidade do humor. A elegância é relegada para os piratas da existência. Charme é atributo dos filhos que receberam atenção excessiva das mães, preocupadas com botões e casas e as firulas ocupacionais, da existência.

 

28

É muito difícil se equilibrar na corda bamba do sarcasmo. Uma gota a mais de amargor e a fórmula se perde, o veneno vira combate. A diluição, da outra parte, gera subprodutos, como ironia, bazófia, deboche, chiste. Mas a imperfeição, afinal, fundamento do projeto humano, cai bem, quando se pesa tudo na balança.

 

29

Num mundo que briga para banalizar tudo — passando com a régua da democracia como trator por cima de ideias e paixões — ou radicalizar de vez em fundamentalismos inflexíveis, o sarcasmo é o único remédio autoimune que se anuncia, mas com discrição.

 

30

Um mapa para emoções em conflito, para inteligência inquieta, para o riso que não acha exatamente graça daquilo de que ri. Um tumor na alma torta, que não consegue tolerar o nível sempre crescente da imbecilidade humana. Embora contraditórias, ambas as definições se aplicam a sarcasmo.

 

31

A Bíblia é cheia de narrativas excelentes, mas leva tudo excessivamente a sério. A se crer no texto, Deus concedeu sarcasmo aos seres humanos para vê-los manifestar em pequena escala o humor que teve ao criá-los, mas que não permitiu que aparecesse no livro sagrado — talvez esteja nisso umas das chaves para desvendar os mistérios.

 

32

Leio que os artistas plásticos do Brasil migram aos poucos para a literatura. É esforço para desautorizar o lugar-comum repetido à exaustão — bête comme un peintre (eu estou demais com meus chavões em outras línguas, hein?). Ou o desespero manifesto que é ser artista plástico num país analfabeto. O gesto dos pintores me enche de emoção, essa que é o tema recorrente dessas anotações.

 

33

Existe o mundo e ele pode ser visto e experimentado diretamente. O sarcasmo é essa película que separa a pessoa de ter uma experiência direta com o mundo, como se estivesse subitamente impossibilitado de alcançá-lo e por isso se atormenta com essa manifestação de sua alma mutilada, no sentido de provocar uma ruptura que lhe permitisse enfim alcançar a experiência direta.

O sarcasmo é uma dobra, o impedimento de ter a mesma experiência em que estão mergulhadas as ovelhas do rebanho. O sujeito dotado de sarcasmo trocaria em dois tempos a própria inteligência, se pudesse, com isso, absorver a experiência sem julgamentos que teve um dia, por um breve período.

 

34

Você corre para fugir da polícia e no caminho tem uma cerca, alta, de arame farpado, a qual você tenta escalar, a despeito dos ferimentos que ela te provoca. É essa a vítima do sarcasmo.

 

35

Não ter pudor de ferir os sentimentos e as suscetibilidades alheias é o que torna alguém sarcástico. Isso e a consciência de que é preciso fazer uso do sal com que se temperam as relações humanas. Amizades, casamento, são o terno e gravata das relações. Sarcasmo é o tempero que ajuda a sair da formalidade morna.

 

36

Desde que Montaigne colocou a lupa para enxergar a si no mundo que existe essa preocupação do entendimento. Mas Michel (o prenome de Montaigne) era elegante, portanto o sarcasmo ali passou longe. Mais recente, em meados do século vinte, Jean Cocteau escreveu um livro intitulado A dificuldade de ser, em que se retoma esse jeito especial e próprio de enxergar-se no mundo. Pronto. Está aberto o caminho para a entrada do sarcasmo, até porque Cocteau diz que a dificuldade de ser “nunca se ajeita”.

 

37

Sarcasmo é um isolante, um veda-rosca existencial. Parcimônia no uso é o recomendável, a não ser para o verdadeiro sarcástico, que não tem menor paciência com a contenção. É preciso corroer o estar no mundo, esse é o princípio e ele não quer ser bonito nem simpático. Se tem uma coisa que tira um sarcástico do sério é a simpatia, placebo das relações humanas.

 

38

Sarcasmo ri alto, mas é triste.

 

P.S.:

Antídoto que me permite continuar no mundo: sarcasmo previne contra o suicídio.

 

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s