Treinos da infância

máquina-de-escrever

 

 

Houve um dia, ali pelo fim da infância, em que me mandaram para aulas de datilografia. Era uma sala de primeiro andar num velho edifício, a que se chegava por uma escada sombria que desembocava num corredor largo. Por fim, chegava-se à sala cheia de mesas com velhas Olivettis pesadonas. Enquanto olhava com o rabo de olho para o volume sob a blusa da orientadora, fazia somar trilhas de asdfg, depois trilhas de çlkjh, se amontoando na página branca como fileiras de exércitos. Começava ali o jornalista, começava o escritor. Durante anos, no entanto, considerados inclusive os seios desejados da orientadora, aquela sala do primeiro andar serviu de locação para várias passagens da minha vida. Até hoje, é lá minha Wall Street particular onde trabalha (ou prefere não trabalhar) o escrivão Bartleby. Nova York tem conexões com o interior de Goiás, o que comprova que os cenários da imaginação são bem mais interessantes do que os da realidade.

 

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