Cadê Teresa

Foto | Jenny Gage e Tom Betterton
Foto | Jenny Gage e Tom Betterton

 

 

Também podemos chamar outro nome, ou em outro lugar.

Italo Calvino — Um general na biblioteca

 

As mãos em concha, o prédio em Brasília, gritei para o último andar:

— Teresa!

Apareceu alguém para me ajudar e depois mais um. A solidariedade do grito, achei bacana. Contava um, dois e três, depois juntos escandíamos:

— Te-reeee-saaa!

Alguém teve a presença de espírito de perguntar se o interfone estava quebrado. Acenei com a cabeça e disse: é capaz.

Até que alguém se deu conta.

— Você não mora aqui, nem ninguém chamada Teresa. Você só está imitando o que leu num conto do Italo Calvino. Eu conheço o livro, me lembro disso.

Como eu confirmasse, com a cara mais lavada do mundo, eles se foram, me chamando de cretino e farsante, entre outras coisas. Parecia que ela estava só esperando que todo mundo se dispersasse, como se fosse a pessoa mais tímida deste mundo. Teresa apareceu na janela, sorriu para mim e se inclinou para que eu a ouvisse melhor:

— Sobe, vou abrir.

 

10 comentários sobre “Cadê Teresa

  1. Thaís Figueiredo 27/08/2015 / 13:52

    Há um bar em Brasília chamado “Cadê Tereza”. Nunca fui, nem sei o porquê do nome. Será que também é inspiração Calvinística?

    [Alerta de piada ruim! Cadê Mathias? Haha]:

    Se for, o slogan deles podia ser algo assim: “Aqui, a única proposta é a embriaguez”, ou “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele sem cerveja”. Poderia pensar em milhares outros, hehe.

    Ok. Parei.
    Em tempo: a narrativa é deliciosa 😉

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    • Mathias 27/08/2015 / 14:41

      Entra dama das mais afoitas na livraria e vai até a estante de literatura estrangeira. Perto, espreguiçando-se, há este jovem vendedor que usa óculos, veste pullover com estampas natalinas, penteado contemporâneo. Dama se aproxima do vendedor e sem delongas diz:

      — Sabe o que é?, meu tio lê muito, e ontem me sugeriu os russos, e aqui estou, não sei se levo Dostoiévski, ou se levo Nikolai Gógol, ou se de repente levo um Górki…

      Vendedor ajeita a armação dos óculos no nariz, pigarreia discretamente:

      — Quer uma dica, dama afoita? Liev Tolstói.

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      • Thaís Figueiredo 27/08/2015 / 14:51

        HAHAHAHAHA.

        Genial. Como é bom poder contar com os amigos 🙂

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      • paulopaniago 27/08/2015 / 15:12

        Hahaha. E ouvi uma vez de um grande amigo a história de Machado de Assis chegando ao céu e arrebatando um montão de medalhas literárias. Essa é minha, dizia o escritor, essa é minha. E por fim, para uma última e menos brilhante, ele afinal dizia: Essa, não, ‘eça’ é de Queiroz…

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      • paulopaniago 27/08/2015 / 15:29

        E outra história, passada nos Estados Unidos, seria se o vendedor estivesse mal humorado, porque ele poderia dizer para ela: “Go Faulkner yourself”.

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    • paulopaniago 27/08/2015 / 15:10

      Outro tema para você pensar: a criação de slogans etílicos para bares, pode ter uma carreira interessante aí…
      E fico feliz de você ter gostado da narrativa.

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  2. Paula Teixeira 03/09/2015 / 18:29

    Muito bom, um texto leve e agradável!!

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