Cautela, cautela

Fotos | Jan Zimmerman
Fotos | Jan Zimmerman

 

 

Essa coisa da alegria ainda vai dar muito certo, ela disse, um sorriso tão lindo quanto manhã de primavera tropical. Estávamos nas nuvens, pequenas ilhas de expectativa cercadas de avião por todos os lados, de volta ao país natal depois de anos de exílio não forçado em que nos submetemos a coisas demais para no fim redundarmos em fracasso. Renovação de esperanças parece ser um dos esportes preferidos dos terráqueos, de modo que ali estávamos, nos embriagando da coisa na ambição tola de não termos ressaca. Foi nesse momento que Estela soltou a pérola, essa coisa da alegria, ela disse, embora soubesse que eu não tinha qualquer paciência para frases iniciadas com “essa coisa de”. Era decretar minha morte antecipada. Estela, no entanto. Esperançosa renitente — a despeito dos avisos da realidade, todos cumpridos à risca: de mim não há como escapar; nem de mim, nem de minha brutalidade —, Estela parecia agourar a nossa volta. Quando vi os guardas fardados conversando com os oficiais da alfândega e apontando o dedo em nossa direção, não tive mais dúvidas de que Estela estava muito, mas muito errada.

 

Seria, não foi

folha-mão

 

 

I

 

Viraria fazendeiro

engenheiro enciclopedista

geógrafo astronauta

viraria chef na França

tipógrafo tecelão

um futuro de bifurcações

a se desdobrar em infinitos

Padre bispo cardeal papa

rei polícia ladrão

poeta marceneiro gênio

pensador revolucionário presidente

viajante equilibrista

dono do elefante e do circo

a traquitana do colecionador

a bússola das emoções

cinco mil filhos

dez mil amantes

pirata pipoqueiro não

nem lanterninha

era grande o sonho

sem limite sobretudo

ia até a lua e voltava

antes de inventarem o celular

 

 

II

 

Virei pouco quase nada

nem mesmo virei ainda virá

cozinheiro lavador de pratos

lixeiro faxineiro

subalterno suburbano

a cerveja quente

a mulher murcha

o filho banguela

não foi digno nem deu certo

a realidade insiste em me afrontar

todo dia eu madrugo e envelheço em breve

falhei miseravelmente

não tive coragem ou jeito ou arte

o sonho esfumaçou

e nada adocicou meu amor a minha vida

nem mesmo quando ganho nas cartas

nem mesmo quando perco

Se pudesse nunca teria virado adulto

 

Não é possível pensar e ser feliz

moça-e-chuva

 

 

Ainda bem que no meu caso a depressão é suave, ele pensou. Bem, se tem que ser doença e tem que ser depressão, pelo menos que seja suave. Era algo que não o impedia de ir até a loja de tinta ou buscar a filha na escola. Pobre menina, crescer com um pai depressivo, mas a gente não escolhe as doenças que vai angariar nem a família onde vai nascer. Ainda assim, pobre menina, pensava Oduvaldo, todo fim de tarde que conseguia ir buscá-la na saída da escola. Depressão, pelo lado bom, era efeito colateral de ter inteligência. Embora fosse obrigado a admitir que havia gente inteligente que não era especificamente deprimida. Mas tinha certeza que pessoas medianas não eram deprimidas, e portanto podiam almejar e conseguir felicidade ou qualquer coisa que leve esse nome embora sem ser. Ou, se não felicidade, pelo menos conseguiam o bastante para se declarar bem resolvidas, o que não deixa de ser um avanço. O que não era seu caso, nunca tinha sido e sem qualquer perspectiva de vir a ser. Talvez fosse por causa do nome que os pais lhe deram, pensou, mais uma vez. Quem dá um nome desses para um filho? Alguém que não quer a criança, que a teve muito cedo, bem antes da hora, num momento em que os hormônios falaram mais alto do que a lógica ou a perspectiva de ter um futuro. Lembrou-se de um episódio em que a filha cantava e, ao chegar ao refrão, pediu ao pai que cantasse junto, mas ele permaneceu em silêncio. Você não cantou, ela disse. Cantei na minha mente, ele respondeu, porque lá pelo menos eu sou afinado. Mas a verdade é que nem lá. E, no entanto, naquela tarde Oduvaldo não conseguiu buscar Matilde na saída da escola. Ligou para a loja de tinta e pediu para uma funcionária ir até a escola e levar a menina para a casa da tia. Quando o corpo de Oduvaldo foi encontrado, o bilhete pedia desculpas à filha e trazia uma orientação específica: que evitasse ser deprimida. Mas a gente não escolhe as doenças, nem a família onde vai nascer.

 

É preciso alguém para conversar

Foto | Giulia Pesarin
Foto | Giulia Pesarin

 

 

Ele era curioso, é bem verdade, mas o calor prostra todo mundo e ele não conseguia ficar imune. Estava dividido entre a curiosidade e a lassidão naquele dia em que o sol parecia especialmente determinado a castigar a terra. Sua curiosidade, entretanto, não se atinha a dados quantificados ou exteriores. Ele gostava especialmente de ouvir as pessoas a expressar inquietações, seja na forma de angústias ou como paixões. Não era exatamente bom conselheiro, mas bastava ser ouvinte, observador imparcial num mundo em que ninguém escuta ninguém embora na aparência todo mundo se exponha muito e praticamente o tempo todo e tudo terminava bem para seu lado. Sobretudo mostrava curiosidade por essa característica humana que percebia nos outros de desejar tanto e tão intensamente um interlocutor para problemas, crises, animosidades, alegrias, alguém que escute a esse, o quê?, narcisismo simplesmente não comporta tudo o que era. Além do que a palavra narcisismo tem certa carga negativa com a qual não concordava. Implica dose exagerada de egoísmo e embora se possa reconhecer que egoísmo é um dos componentes da vontade de interlocução, não dá conta de tudo. Ele poderia escrever um tratado a respeito do assunto, mas o calor o desanimava e de modo geral parece impraticável desenvolver raciocínios densos do lado de baixo (ou muito próximo) da linha do Equador, embora de vez em quando ocorra, com gente mais tenaz e preparada do que ele.

 

Fúria do cotidiano

Imagem | Nigel van Wieck
Imagem | Nigel van Wieck

 

 

O horóscopo diz dia bom

eu digo não crer

 

A placa anuncia sonhos

mas não posso — e passo

 

O chefe reclama

aceno com a cabeça

 

O dia está quente

compro picolé o calor prossegue

 

Amigos ligam para reclamar que sumi

lastimo e minto que devo aparecer qualquer dia desses

 

A bolsa sobe — ou cai

Não ligo a mínima

 

Vai estrear um filme que esperei para ver

mas agora a vontade passou

 

Compro um litro de leite

Só então lembro que o gato morreu

 

A moça sorri no telejornal entre uma tragédia e outra

Não a conheço e abomino

 

Cinco pedras de gelo aliciam o uísque

um calor de renovação me percorre as veias

 

O horóscopo sobre a mesa insiste no dia bom

Esganaria com prazer quem o escreveu

 

Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Qual o seu número

Imagem | Mateusz Rybka
Imagem | Mateusz Rybka

 

 

Você nasce

e te dão uma pulseira no hospital

com um número

um código uma cifra

um início registrado

Você morre

e seu pé ganha uma etiqueta no necrotério

com outro número

outro código nova cifra

o fim catalogado

 

Você tentou outras tantas coisas

na vida

— emoções

lágrimas

destemperos

gritos

brados

fazer a diferença (mas qual?)

 

Você tentou tudo

Tudo do mesmo jeito

achando que era inédito

sem ser

 

Escapar dos números

e desviar das balas

Super-herói e mega-vilão

risos sem fim

o deslimite regulado

controle transigência

 

Você acha que sabe do que é feito

depois de anos terapêuticos

Você sabe que não sabe de nada

e se soubesse não contava

 

Você acha que sabe do que está falando

e com quem está falando

e o importante é dizer

— ou calar

Você cala

De que adianta

uma coisa e outra

 

Você pondera

Paciência é um estudo

de anos de impaciência

 

Sua vida é um limbo

Importou para você e só

Os outros fingiram ligar

mas só se importaram com eles mesmos

e não foi suficiente

Nunca é

 

Você envelheceu

Encinicou

Ficou remediado

Os números na conta bancária

ações investimentos

no que sempre fingiu desprezar

e hoje tanto te preocupa

 

Sua lápide terá bonitos dizeres

e um recado de entes queridos

Adorado esposo amado pai

A morte apazigua

Lerão a lápide

Mas toda vez que tiverem de localizá-la

recorrerão aos administradores

dos seus restos mortais

e eles darão um número

que ajuda a encontrar

o buraco onde te enfiaram

e enquanto você apodrece no escuro

te louvam as qualidades de pedra

para qualquer passante

se impressionar — entre um bocejo e outro

Agora me diz

valeu a pena?

 

O que vai, o que volta

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Todas e tantas juras de amor conectadas por ligações telefônicas mensagens digitadas gravações de voz enviadas por aplicativos que usam internet todos os amores trocados as juras os segredos universais as três palavras mágicas o significado de todas as conexões a mesma conexão o mesmo amor universal o segredo mais bem espalhado do mundo e a outra metade os desarranjos os não te amo mais os nunca te amei tudo não passou de ilusão os meu coração vagabundo os não vai dar certo desconexões bater o telefone na cara bater na cara ir embora para nunca mais voltar meu copo meio vazio e o seu metade metade entropia desacerto união juras eternas de uma semana de duração conexões o amor do mundo o desamor no mundo crise sorriso estou ansioso para te ver só liguei para ouvir sua voz desliga você não você ad infinitum.

 

Encontro inadiável

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Atrasado para encontrar o destino, F. escapa da chacina da vez — três homens no bar para onde se dirigia executados à queima-roupa. Mas um raio o atinge indiretamente: cai sobre um galho que se rompe e desaba sobre o corpo de F. Uma ambulância é chamada, recolhe F., que começa a receber os primeiros cuidados. Na pressa, entretanto, a ambulância se envolve num acidente e todos se salvam com ferimentos leves, menos F., que parece ter sido finalmente alcançado.

 

Pausa na guerra

Foto | Garry Winogrand
Foto | Garry Winogrand

 

 

Então decidiram fazer intervalo na guerra por um instante, pois é verdade que esse negócio de matar dá trabalho e tem alto custo emocional para os envolvidos. Na trégua, propuseram fazer um baile e aproximar as partes, aproveitando que havia a pausa e todos estavam de acordo com os termos. Então começaram a erguer brindes e a cantar canções e houve um momento em que o general estrategista de um dos lados comentou com o general estrategista do outro: “Ainda bem que as guerras continuam a ser iniciativa dos homens. Quando as mulheres aderirem, a coisa vai ficar realmente feia, porque elas são implacáveis”. O outro general, que nunca havia se debruçado sobre a questão, pensou a respeito do assunto: será que tinha ouvido aquilo como tentativa do inimigo de manipulá-lo, mas quando concluiu que não começou a convocar mulheres e seus exércitos derrotaram o adversário muito rapidamente.