A têmpera da vida

Arte | Eckart Hahn
Arte | Eckart Hahn

 

 

Costumava ter os nervos expostos sensíveis a qualquer brisa; o mais leve rumor do ar um sismógrafo das emoções apontado para o mundo. As lágrimas portanto brotavam feito rio e devo ter contribuído para o volume dos oceanos. Disseram-me a escolha é sua faça como quiser mas saiba que sofrerá consequências. A escolha era minha ou eu não tinha escolha é tudo questão de ângulo. Minha sobrevivência nos intervalos evitando conflitos escondendo-me de mim recusando recuando acossado, uma formação com especialidade em toda sorte de covardias. Abstenções recusas encolhas observações ruminâncias ponderações apartidarismo. Vocifero em voz baixa. Desço os olhos. Não digo nem que sim nem que não às vezes nem digo. O resmungo é um mastigar perpétuo do arsenal de recusas mas tive que aceitar muita coisa, havia fila de sapos à espera de serem engolidos e segundo consta e ficou registrado a escolha era minha bem como as consequências que se seguem. Agora é tempo de pesar e medir o que decidi o que releguei quanto custou o que arrecadei; na balança os pratos se desequilibram penso muito a respeito do que pensei do que me movia então e afinal quando ouvi dizerem que a escolha é sua é minha e faço dela o que quiser. O medo era meu, veio na bagagem ou eu o ouvi nas entrelinhas e intervalos de quando disseram que sofreria as consequências. Provavelmente concluirei tarde demais que não soube fazer as melhores escolhas nem sequer administrei bem aquelas que afinal me couberam. Serei daqueles velhos loucos que saltam de paraquedas tentam recuperar o tempo perdido com tempero extra de filme de ação. Um velho maluquete que se perde no deserto ou se afoga atrás do tesouro não lê jornal na praça enquanto toma sol nem oferece sorvete aos netos antes do almoço. Um velho preso por porte de drogas que passa seis meses numa volta ao mundo ou um ano ou dois ou dez um velho que se perde para finalmente se encontrar. Sobretudo que não resmungou nunca mais.

 

Aviso de encerramento

megafoneO blog desaforos.com deixará de existir esta semana, após a última publicação, na terça, dia 6. Foram quase seis anos e muitos posts, narrativas, micronarrativas, aforismos, poemas, provocações, ensaios etc. O endereço será desativado na sexta (o conteúdo talvez migre para o velho desaforos.wordpress.com, mas não será mais atualizado).

Agradeço imensamente os leitores que leram, comentaram, apreciaram, criticaram, curtiram e tornaram esta uma experiência que julgo ter sido consistente. A interação foi um grande motor do projeto, creiam.

Paro o blog, mas não paro de escrever. Tenho, pelas minhas contas, sete livros prontos (nove, se contar dois romances que não tenho a menor pretensão de ver publicados), outros que poderiam ficar prontos em pouco tempo, alguns em processo de maturação e vários futuros projetos. Se tudo der certo, ainda este ano lanço alguma coisa, nem que seja por conta própria.

A literatura é tudo, embora tenha ouvido dizer que existe um negócio chamado vida que disseram ser muito interessante.

Até qualquer hora.

 

Por afogamento

casca

 

 

Alguém se afoga

entre peixes mercuriais

abandona-se à corrente

e não sei se reza no último segundo

se se entrega ou resiste

se finge ou lamenta

se sente muito e relembra

uma tarde remota

numa praça ao sol

de mãos dadas com a mãe

o coração tão grande

que mal cabia no peito

 

Uma tarde de foto

de doce de emoção

estampada para sempre

— agora e na hora de nossa morte —

na moldura da memória

de todos os tempos

 

Os respingos da ressaca do mar

salgados grudentos

a morte é um temperamento

que experimento todo dia

ela respira num outro ritmo e só

 

Os peixes se alimentam do corpo

depois também serão alimento

desse canibalismo ignorante

sorridente saudável cheio de ômega três

e triglicerídeos

 

É tudo parte do mesmo movimento

alguém diz e sorri

 

Manter coerência

Imagem | Elena Arcangeli
Imagem | Elena Arcangeli

 

 

A ele sucedeu de escrever várias histórias — dois romances, cinco novelas, vinte e nove contos — cujo tema era o suicídio. No começo, os amigos se preocupavam. Não vá você imitar os personagens, advertiam. Ele ria, não se preocupem, replicava, não pretendo. Mas enquanto os amigos seguiram a recomendação e pararam de pensar no assunto, a crítica por sua vez não lhe poupou a redundância temática, a reiteração obsessiva, o excesso de “leitura focada”, que foi como traduziram a expressão para indicar uma vertente teórica de abordagem literária. Há limites para as obsessões, escreveu um deles, numa revista muito conhecida. No bilhete de despedida, que os jornais publicaram com grande estardalhaço, ele menciona a questão de manter a coerência, mas muita gente achou que ele queria somente atrair a atenção para a obra, que andava caindo em esquecimento.