14. Vazio que se enche

Imagem | Matthew Grabelsky

 

Acho de uma felicidade incrível quando alguém no metrô se põe a ler, um hábito que também cultivo com entusiasmo. Minha angústia é só pelo seguinte: fico tentando ler o título do livro, me encho de curiosidade para saber o que as pessoas afinal estão lendo, quase sempre quando consigo identificar o título é uma decepção, leem para passar o tempo, qualquer coisa, sem muito critério. Mas depois me dou conta de que o mundo, ainda bem, não gira apenas guiado pelo meu critério. Pelos menos leem. Leitores em vagões me confirmam visualmente que pertenço a uma irmandade, com a vantagem absoluta de não pagarmos qualquer taxa nem promovermos quaisquer tipos de reunião. É perfeito. Mas nada me anima mais do que encontrar alguém que escreve no metrô. Hoje foi um sujeito, vinte e muitos ou trinta e poucos anos, jeans, camisa com as mangas dobradas até o cotovelo, tênis pretos. Cabelo repartido ao meio, barba protuberante, como tem sido a moda masculina por esses dias. Chama-se Clemente. Ele se sentou na diagonal de onde eu estava e, depois de percorrer com os olhos os outros ocupantes do vagão, puxou um bloquinho da mochila, que estava sobre o colo, pegou a caneta e se pôs a fazer anotações. Por um instante me ocorreu que ele era um concorrente, um alter-ego de carne e osso que se materializou no meu vagão para deixar patente que eu não tenho qualquer prerrogativa sobre a ideia dos subterrâneos. Certo, de acordo, mas precisa mesmo me fazer ameaças? Imediatamente retomei meu bom humor. Ele devia ser um cronista de jornal à procura de tema, ou um escritor que apenas se lembrou de um detalhe que precisava ser anotado. Ou ainda, um sujeito que mantém um diário e aproveita os momentos vazios do dia — para muita gente, andar de metrô é entrar num túnel de vazios — para produzir anotações. Minha ideia, creio, está preservada, por enquanto. Voltei a sorrir, contente de ver alguém que produz anotações no metrô, como eu mesmo faço. Ainda que Clemente tivesse tido a exata ideia que tive, as histórias dele jamais seriam as minhas.