15. Encontro sonoro

Imagem | Nigel Van Wieck

 

Hoje foi o dia dessa mulher me fazer um relato pessoal sem que eu tivesse pedido. Ela tinha o cabelo grosso ligeiramente desgrenhado, de modo que não pude deixar de pensar que ela se enquadra perfeitamente no estereótipo da louca. Sentou-se do meu lado e começou a puxar conversa comigo. Me contou que pode escutar as cores e como elas são muitas e estão em toda parte, há uma música intensa, uma sinfonia de desencontros permanentes tocando dentro de sua cabeça. Tudo bem, eu disse, levantando o indicador para pontuar minha fala, eu tenho um zumbido, uma cor só, eu diria cinza, que toca o tempo todo uma música muito chata e contínua. De modo que entendo o que a senhora quer dizer. Tratei-a formalmente chamando-a de senhora, é claro, não é porque é louca que merece ser desrespeitada, antes o contrário. Ela então me disse o nome, Diana, e o que estava fazendo ali no vagão. No metrô, ela falou, e abriu um sorriso bonito, é o único lugar onde a música deixa de tocar de maneira desencontrada, os sons se alinham, escuto uma coisa só e isso me tranquiliza. Sorri de volta para ela e fiz um comentário qualquer a respeito de como ficava contente de ouvi-la dizer aquilo, mas não sei o que foi que disse que pareceu soar ofensivo, sei que Diana de repente virou a cabeça para o outro lado e parou de falar comigo, como se tivesse simplesmente se desligado da minha existência. Passou a se comportar como se eu não estivesse ali, ou como se ela nunca tivesse conversado comigo. Algum habitante de sua cabeça teria lhe dito que eu não prestava, que eu não era digno de ouvir a sua história? Na estação seguinte ela se levantou, ainda me ignorando, e foi embora. Nunca mais a vi.