16. Modos de pedir

Imagem | Stephen Stoller

 

Os pedintes são uma categoria curiosa nos cenários dos metrôs. Tem sempre alguém para solicitar compaixão e uns trocados, muito poucos recitam Shakespeare enquanto isso. Uma vez, quando visitei os metrôs de Nova York, vi toda uma categoria diferente de pedintes, todos dispostos a oferecer um pouco de arte musical em troca da boa vontade dos passageiros. Ouvi cantores eruditos, violinistas, um trio de blues, um homem-banda com vários instrumentos acoplados ao corpo e tocados de maneira simultânea, enquanto ele caminhava pelo saguão de uma estação próxima a Broadway. Tanto talento musical, pensei, e não há espaço para ser aproveitado, de modo que é preciso contar com a simpatia e boa vontade de estranhos, num mundo que segue sendo também muito, muito estranho. A mulher de hoje, Jurema, tinha um gorro mal ajambrado na cabeça e nem fazia frio. Duas ou três saias justapostas, acho que são todas as que possui, talvez as reveze, não sei se lava alguma, a de cima me pareceu bem suja. Ela lançou a ladainha e é isso o que me desanima profundamente. Por que as pessoas não colocam mais o coração nessa arte de pedir dinheiro, por que fazem isso como se fosse uma profissão, uma obrigação chata de se cumprir? Imagino a pessoa terminando o expediente e indo bater o ponto, dizendo pronto, pedi bastante por hoje. E justo porque a pessoa não se empenha, nem mesmo nessa pequena performance de quinze ou vinte segundos para conquistar a simpatia alheia, não me sinto estimulado a colaborar. Gosto dos apaixonados, dos que fazem a coisa com gosto, dos que estão claramente mergulhados nos dramas humanos. Com esses me solidarizo. E com os artistas mambembes em geral, que se dispõem a trocar dinheiro por arte. É honesto, me parece.