18. Ninguém é a roupa que veste

Imagem | Hillel Kagan

 

Ela é jovem, cabelos pretos, óculos de aros escuros, pele muito branca, camiseta cavada que mostra, sobre a magreza dos ombros, duas tatuagens de corações pulsantes e sangrentos, possivelmente porque sofrem além da conta, feitos com várias cores diferentes. Viviane, ou Vivi, está de short vermelho ferrugem, tênis pretos, sem meias. No braço direito há outra tatuagem, uma flor rebuscada com muitas pétalas e um caule com espinhos. Houve tempo em que essa estampa teria provocado olhares de reprovação, agora não mais, trata-se apenas de uma jovem em deslocamento no metrô, possivelmente a caminho de casa, onde é amada pelos pais, embora ela julgue talvez que eles não a compreendam inteiramente. Nem as freiras que se sentam próximas a ela lhe lançam olhares atravessados. É a nova ordem da tolerância. Na verdade, as freiras estão preocupadas com questões administrativas da diocese e discutem os pormenores em meio a muitos gestos, com a animação de duas comadres que trocam fofocas. Quando uma delas deixa cair um panfleto, é a jovem Vivi, sentada próxima, quem se dobra para recolhê-lo do chão e devolvê-lo, num gesto gentil, à freira, que dá um sorriso constrangido, de quem não esperava por essa. Tolerância pede reciprocidade.