20. Sobre anjos e fantasmas

Imagem | Nigel Van Wieck

 

Terno, barriga protuberante, careca a não ser nas laterais, onde o cabelo enrolado está também bastante grisalho, óculos praticamente enterrados num nariz largo, batatudo, com narinas que não acompanharam o desenho. Bigode, também grisalho. Nome maometano e sobrenome bíblico, ele é a própria confusão religiosa, Amir Salomão. Para confirmar, depois que acena a cabeça em minha direção dispara a pergunta: você acredita em anjo? Não, eu digo, sendo honesto, e tentando não sorrir de deboche. A vontade era perguntar, e o que um marmanjo como você faz ainda acreditando? Por acaso também crê em duendes e fadas? Vamos lá, estou tentando apenas averiguar até onde vai o seu grau de maluquice. Mas me contenho. Ele na verdade está interessado em me vender um anjo, ou melhor, um livro que determina qual anjo me protege e o que isso significa. Eu imagino que deva ser tão ruim quanto a imagem da capa me deixa adivinhar. Mas, claro, não estou interessado e digo isso a ele de maneira clara. Mesmo assim, dou corda, para ouvi-lo falar, entre outras coisas, de psicotelemetria, o que quer que seja isso, e de ectoplasmas, o que me é mais familiar em termos de conceito, embora eu também relegue à categoria das coisas inventadas, um pouco como meu passatempo nos percursos do metrô. A diferença é que minhas invenções mantenho para mim, por enquanto, e as dele estão sendo vendidas como cura suficiente para almas em sofrimento, ou qualquer coisa nessa linha. Ele diz que pode ver o futuro, previu quedas de avião e incêndios em prédios, tudo para dizer que se o mundo chegar a dois mil e dezenove sem uma terceira guerra mundial, dará um salto de qualidade incrível. Mas se ele ainda não foi capaz de perceber que a terceira guerra já começou, só me restou ter certeza de que aquela vidência toda não passa de uma balela maior do que a barriga que ele projeta para frente como se fosse sintoma de abundância. Em algum momento, desliguei-me da fala que parecia mais autocongratulatória do que qualquer outra coisa. Deixa falar, me ensinou a minha mãe. Eu deixo.