Talento em questão

 

 

Aquele que começa a escrever um livro é detentor de um segredo, o próprio texto ainda não divulgado. A solidão portanto se exacerba nesse ponto. O livro é bom, denso, interessante, sedutor, são questões que em maior ou menor grau o escritor vai se colocar e para as quais nem tão cedo tem respostas, se é que em algum momento chega a tê-las. A dúvida a respeito do talento é provável que permaneça no horizonte. Claro que o sucesso de determinados livros decorre de uma série de fatores que nem sempre se vinculam diretamente ao talento específico do escritor.

Se for pensar bem a respeito do assunto, a noção de talento está em jogo. Talento para quê, exatamente? Para atrair leitores, para compor um texto com chances de frequentar o cânone, talento para densidade? Atrair leitores, por mais que seja modalidade de talento, não é garantia de qualidade, um crítico mais cioso poderá apontar. O cânone vem sofrendo toda sorte de ataques e escrutínios e Harold Bloom mostrou como é difícil atingir o ponto em que a obra começa a ser cogitada, sobretudo a partir de Angústia da influência, mas também em O cânone ocidental. Densidade, numa civilização cada vez mais dispersiva, pode estar se tornando valor superado.

Óbvio que o autor, qualquer que seja, terá que pensar de novo e mais uma vez a respeito do que o motiva a continuar a escrever, para quem e por quê. Escreve-se, me parece, porque não há qualquer outra alternativa razoável. Outras atividades são distrações, ir ao cinema, fazer cinema, ler jornal, fazer jornal, mas escrever é essencial.

Quando Walter Benjamin fala, na última de suas treze teses sobre a técnica do escritor (“Proibido colar cartazes!”, em Rua de mão única), que “a obra é a máscara mortuária da concepção”, está sugerindo que as ideias são sempre maiores, melhores do que a realização: o livro é reflexo pálido do que foi a ideia original. No entanto, enquanto o escrevo, só eu o detenho.

A minha solidão de escritor nunca é devidamente compartilhada, porque o texto que media esse compartilhamento está aquém do que de fato imaginei. Não sei como o leitor compreende essa obra, se é que chega a ler algo dela. Quando comenta comigo, é para fazer elogios mais ou menos vagos ou uma avaliação crítica acerba demais, que me leva a desconfiar que ele não gosta de mim e está me tentando dizer isso ao denegrir meu texto para mim a pretexto de criticá-lo.

Escute aqui

 

 

Um homem maduro que pode ser Raymond Carver lê a poesia de Antonio Machado e, também poeta, escreve um poema em homenagem a ele. Conta que ler a poesia de Machado é como se apaixonar novamente — é difícil para homens maduros se apaixonar novamente, ele não diz, mas deixa implícito, e falo por experiência própria.

Conta que sonhou com um trem e isso o fez acordar no meio da noite, o coração aos pulos. A primeira coisa que pensou e que o acalmou: “Não tem problema, Machado está aqui”. E pôde voltar a dormir.

Em outra ocasião, produziu anotações a respeito do que viu durante o dia, porque havia lido essa sugestão em algum lugar na obra de Machado, dirigido a quem lhe perguntava que conselho poderia dar: “Preste atenção”.

Prestar atenção é difícil. No meu caso gera quase sempre angústia e melancolia. Às vezes penso que devo gostar de angústia e melancolia e ser um pouco masoquista, porque vivo fazendo isso, vivo a prestar atenção. É como se prestar atenção me direcionasse ao mesmo tempo para o mundo, para as coisas, os objetos e seres que estão nele, e para mim mesmo, meu interior, minhas introspecções. Prestar atenção é a ponte entre meu interior e o estado do mundo.

Potencial

 

 

“Quanto aos motivos, é sempre uma longa história”, anota o narrador da última narrativa do livro Anjo noturno, de Sérgio Sant’Anna. A história se chama “Um conto fracassado” e o narrador faz comentário a respeito de uma ex-amante que tentou suicídio, do mesmo modo que ele mesmo (o próprio Sérgio Sant’Anna, é impossível não pensar nisso, inclusive porque numa entrevista publicada antes mesmo do livro ele admitiu: portanto trata-se de admissão pública) também tentou, por meio de demasiados remédios para dormir como método.

A frase que citei é decisiva, me parece, e aponta para a vontade de não prosseguir no assunto. É sempre uma longa história e não vou perder tempo aqui — meu e seu — contando-a, parece dizer o narrador, que numa única frase, suponho que queira descartar a situação, por desimportante. E claro que ela não é em absoluto desimportante. É o contrário: é sumamente importante. Como diria Camus, o suicídio é a única questão verdadeiramente filosófica, sobre a qual vale a pena se debruçar e dizer coisas.

Ir por aí

 

 

Depois de ler A arte de viajar, de Alain de Botton, tenho a sensação de que posso viajar de empréstimo para lugares que não sei se algum dia terei a possibilidade real de conhecer. Ao mesmo tempo, aciono a memória de algumas viagens que fiz, sobretudo alguns trechos de viagens específicas, em que meu poder de observação parecia mais aguçado.

As viagens que faço hoje são bem mais introspectivas e me recuso, ou me forço, a não ser tão observador. Concluí que me serve para bem pouco a observação superficial de superfícies, como se fosse um pintor realista que quer sair dessa limitação de observar apenas o observável, sem retirar daí quaisquer outras interpretações ou possibilidades.

Porque também tem outro aspecto do deslocamento que é preciso considerar: toda viagem é marcada pelos trechos feios a que não é possível se furtar, trechos de casas depauperadas ou zonas industriais horrorosas, trechos em que a terra está devastada, em que a solidão, a desolação, predominam, até chegar os outros, os bonitos — e beleza aqui considerada da forma mais relativa possível. Porque sei que pode haver beleza nessas áreas depauperadas, mas quando vejo certos outros cenários, não é bem no que penso: é no lugar da beleza neste mundo.

Em alguma parte

 

 

Quem me pôs aqui?, pergunta-se Pascal num dos textos de Pensamentos. Por que aqui e não lá, em qualquer outra parte, ele está ansioso por saber.

Também eu e imagino que todo mundo um dia já se indagou a respeito do que existe além da linha do horizonte, do outro lado da montanha ou do mar. E como fazer para chegar lá. Ir, partir, encontrar-se em movimento, conhecer novos lugares, outras pessoas, ampliar o repertório.

Se não sei responder à pergunta a respeito de quem me pôs aqui, deveria saber responder pelo menos esta outra: por que continuo aqui? Por que não me lanço para frente, para fora, e viajo, essa a questão que deveria saber como responder.

No meu caso, tem um agravante. Quando estou em qualquer lugar e me pergunto por que motivo não me encontro em outro, mesmo que eu vá para esse outro a pergunta vai persistir, ou seja, não é bem o lugar em si o incômodo, mas eu mesmo, que não me situo bem em parte alguma.

Entre o nada e coisa alguma

 

 

Reli há pouco um trecho de Animal tropical, do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, por conta de um projeto literário em que estive envolvido.

É um livro curioso, pontuado por aquela linguagem que Gutiérrez costuma usar, algo desabusada, um tanto desabrida. Num determinado trecho, ele menciona a diferença entre um escritor europeu, hipotético, está falando de maneira genérica, que escreve da perspectiva de certo cansaço e exaustão, de sedimentação que a história da Europa lhe proporcionou e a todos os demais na mesma situação.

Em seguida compara com a própria perspectiva de escritor latino-americano. Ele se encontra embebido numa cultura vertiginosa, vibrante e jovem, em comparação com a outra. “Pertenço a uma sociedade efervescente, que convulsiona, com um futuro absolutamente incerto e imprevisível”, anota Gutiérrez. Penso que está certo, inclusive a previsão de que nada se pode prever e que alcança a literatura que ele mesmo exerce, e que não me parece que sobreviverá, porque falta a ela algo além da linguagem exacerbada, despudorada, que ele utiliza. Como consequência dessa imprevisibilidade, ele continua, “minha vida é uma perpétua experimentação entre o nada e o nada”.

Isso eu considero potente e diz muito a respeito da condição de escritor latino-americano, pendurado entre o nada e coisa nenhuma, com um abismo no meio. E tudo isso, mergulhado e embebido em exuberância tropical, em efervescência convulsa.

Autonomia do pensar

 

 

Num texto que também poderia servir de epígrafe aqui, Walter Benjamin escreveu: “Para os grandes escritores, as obras acabadas pesam menos que os fragmentos em que trabalham por toda a vida”.

Como estou começando a escrever um livro justamente com fragmentos — ou continuando um livro, porque os fragmentos de textos sempre estiveram muito presentes na minha vida —, a frase me toca especialmente.

Os únicos senões no que me diz respeito: não sou grande. E não raro, tenho sérias dúvidas a respeito de ser escritor. Mas a ideia de fragmentos que se arrastam por toda a vida é fascinante e atormentadora. Mesmo para grandes gêneros. Macedonio escrevendo durante boa parte da vida um romance (Museu do romance da Eterna) que não deveria ser concluído. Sobretudo penso nessas coisas porque fragmentos não deveriam ser peso, afinal são modalidade de escrita (poderia defender que se tratam mesmo de gênero) que a modernidade aprendeu a lidar de maneira tranquila, quando não simpática, desde os românticos, como deixa claro o caso de Novalis.

No entanto, o fragmento pode bem representar um peso, como atesta Benjamin. Vivo o tempo todo com a sensação de inacabamento, de não conseguir levar a bom termo as coisas a respeito das quais penso. Talvez porque pense de maneira dispersa, sem conseguir me concentrar muito num só assunto, reflexo talvez da minha época. Numa passagem do romance Herzog, o personagem diz: “Meus pensamentos disparam para todos os lados”. O médico que o atende e que não detectou qualquer problema físico sugere: “Quer que eu lhe indique um psiquiatra?”. Ao que Moses Herzog responde: “Não, já tive toda a psiquiatria que posso usar”.

Sobretudo, no meu caso, não tenho garantias de que sou eu mesmo a pensar. Muito do meu pensamento vem de segunda mão. Tenho essa enorme tendência a citar outros autores, como se a presença deles no meu texto me garantisse algum tipo de confiabilidade e respeito. E muito do que penso é decorrente do que li em outros autores. Ler me estimula todo tipo de pensamentos. Sobretudo ler bons autores, os que são mais provocativos.

Quando é que deixo claro que meu pensamento é autônomo me parece questão ainda a ser resolvida.