Palavras importantes

Seduzido pelas ideias impactantes ao final de Jogo de cena em Bolzano, procuro outros livros de Márai. Aproveito para reler As brasas, que de algum modo remete ao mesmo tema dos embates pessoais, em andamento de adágio. Retiro desse romance a seguinte frase: “Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras”. É bonito, e o curioso é que se vê justamente as pessoas fazendo esse esforço de subtrair uma pessoa de todas as outras. Não é essa a própria natureza do amor? Márai dá estocadas no leitor, também, além de fazer os personagens se esgrimirem.

Os dois personagens de As brasas, Henrik e Konrad, conversam no castelo do primeiro, quarenta e um anos depois que um deles, Konrad, havia se mudado para os trópicos. Uma fuga, diz Henrik. A palavra soa forte demais, pesada, e Konrad aponta isso. Quando volta a usá-la, Henrik pede desculpas, pode estar ofendendo o amigo. Konrad diz que tudo bem, pode usar a expressão, as palavras não têm importância. Henrik discorda: “Às vezes acho que as palavras, essas que pronunciamos, essas que evitamos dizer ou essas que escrevemos no momento exato, têm uma importância imensa, talvez decisiva…”

Quanto da vida de uma pessoa se baseia nas palavras que ela pronuncia é algo que ainda precisa ser devidamente investigado, me parece.

Nos romances de Márai, os personagens decidem dizer tudo de uma vez, tudo o que em outros momentos se pouparam. Os romances são abertura de comportas, momento em que as palavras jorram sem fim. Não há espaçamento, diluição, tudo está concentrado de uma só vez, num mesmo jorro. Torna-se quase penoso, porque é processo de intensificação de quaisquer que sejam os conflitos em andamento. Nesses dois mencionados, por exemplo, a impossibilidade do amor em triângulos amorosos.

Curioso, porque disse antes que se trata de adiar o que de fato é importante, o dado revelador. Mas esse adiamento é construído por meio de uma imensidão de palavras, de um chafurdar contínuo, parece, entre sentimentos e emoções até que se chegue ao ponto decisivo. É um jeito brilhante de escrever, difícil, árduo, intenso, tudo ao mesmo tempo.

— Paulo Paniago