CONTÍCULOS (120) Ah, senhora

 

 

O elevador mais sexy que tomei na vida fica num hotel de Buenos Aires, situado perto de uma praça simpática. A voz de mulher, suave e quente, anuncia todos os andares de maneira mais ou menos convencional, mas diz térreo como se estivesse me convidando para rolar com ela na cama:

Planta baja, ela sussurra feito veludo no meu ouvido. E derreto.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (119) Amplitude de gosto

 

 

Interesso-me por mulheres exuberantes. Chamá-las gordas me parece pouco e mesquinho. Prefiro exuberantes, embora alguns queiram entrever certa ironia disfarçada no que digo (toda ironia, contesto, é disfarce por definição: ou seja, tento desviar o assunto).

São mulheres que associo à conquista das altas montanhas: muito trabalho, muita satisfação. Lanço-me com uma modalidade bárbara de volúpia sobre e sob uma mulher exuberante, sei que ela não quebra.

As magras, não me entenda mal, têm atrativos, se dispõem a certas ginásticas e flexibilidades.

Ah, não sei, no fundo sou inconsistente, a verdade é que gosto de todas.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (118) Modelos de relacionamento

 

 

Adorava os começos e o fins dos relacionamentos, porque era quando não precisava dizer nada original, bastava seguir o menu de lugares-comuns e frases pré-moldadas.

O meio é que considerava a parte difícil, com suas possibilidades inexploradas, improvisos e caminhos abertos para o inesperado.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (117) Investimentos a fundo perdido

 

 

Apostou anos na carreira de bailarina. Anos na carreira de arquiteta. Anos na carreira (paralela) de mulher e mãe. Ensaiou investir numa retomada da carreira de dança, mas como amadora, numa academia do bairro. Meses — todo ano — na carreira de turista incidental. Uma vez foi figurante num filme. Anos na carreira de amiga, compensada e descompensada. Anos dolorosos na carreira de envelhecer, meses dolorosos como cavalos de corrida na carreira de morrer. Toda a eternidade em seguida.

 

 

— Paulo Paniago