CONTÍCULOS (147) Filosofia da consolação

 

 

O homem aprendeu a ter pressa (ele se ocupa) e a se arrepender de ter pressa (ele se desocupa: no fundo sabe que não vai a lugar algum).

O homem ri: o absurdo da vida lhe sugere alguma reação, um ato de rebeldia. O homem chora: o peso do desconsolo às vezes lhe enfraquece as resistências, não é possível ser forte o tempo todo.

Fuma charuto, bebe café, encontra intervalos em meio a essa espécie estranha de atividade que pratica. Dá braçadas na piscina, consulta búzios, desconfia do governo, pede esmola no sinal, agradece o convite, vai à missa, ontem não leu o jornal, alimenta o gato.

O homem se ocupa para não pensar na morte (no absurdo de tudo o que estar vivo envolve). Se desocupa e ri para evitar pensar na morte (ou para se opor a ela, tão séria e sisuda, tão lúgubre: ele se opõe com a irresponsabilidade do riso).

Tudo é disfarce, gerenciamento de sobras e folgas, pretensões de fama e dois dedos de prosa (charuto, café, uma última consideração). A insolência não ganha medalhas, mas devia.

Talvez tudo isso explique a necessidade de tantas viagens, a angústia do deslocamento: como se fosse possível viajar para longe do alcance da morte. A astúcia do riso, rebelião pelo descompromisso. É preciso inventar uma filosofia para esse — parco — consolo.

 

 

— Paulo Paniago