CONTÍCULOS (181) Ando cansado

 

 

Industriosos, com nossas fofoquinhas e a fabricação de segredinhos.

Verdade é que o ser humano me cansa, com inclusive a paranoiazinha, a psicopatiazinha e o mau-caratismozinho. Os ataquezinhos de pânico, as insoniazinhas.

Você há de convir, o ser humano é bem desagravelzinho.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (179) Fomos invadidos sem notar

 

 

Quando os bufões e os histriônicos começaram a assumir o poder, achamos que seria um bom negócio, eles nos divertiriam a comandar a nação.

Quando as coisas começaram a sair muito erradas, me preocupei e comecei a cogitar que talvez fosse o momento de voltarem os profissionais, os reis com suas guerras e a diplomacia padrão que sempre aplicaram a situações complicadas, com a mesma cara indiferente de todos os dias.

Não me parecia então, como não me parece hoje, que haja alternativa. Virei um sujeito bastante conservador e desconfiado, a verdade é essa.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (178) O fim do mundo

 

 

Nada acontece, o que é uma forma de acontecer.

Nada demais, ou seja, as rotinas do dia. Escovar os dentes, ler jornal, preparar aulas e almoço, limpar a louça, pagar algumas contas, preocupar-me com os rumos do mundo, fazer anotações.

Talvez o mundo acabe hoje, às cinco da tarde. É melhor escovar os dentes um pouco antes disso.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (176) Sobre paixões arrebatadoras e talento

 

 

Aparentemente nos encontramos ainda no estágio um da raiva. Aquiles nervosinho, indisciplinado. A fúria de Aquiles. A nossa fúria. Contra tudo e todos, sempre contra. Embora saibamos fazer discursos fingidamente a favor, falsamente civilizados, elogiosos quando a ocasião suscita.

Nossa especialidade é o ódio, no entanto.

Nisso investimos todas as nossas forças e vontades. Nisso somos realmente muito bons.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (175) O radicalismo dos suicidas

 

 

Suponho que em situações extremas de ameaça à vida, guerras e, por exemplo, quando você é confinado num campo de concentração, as taxas de suicídio despenquem. A ameaça aparece alavancar a importância da vida.

Imagino que os nazistas deviam ficar particularmente irritados se algum prisioneiro cometesse suicídio: eles eram os únicos com direito a retirar aquelas vidas, suponho que deviam supor, com aquela arrogância que lhes conferiam a autoridade e o autoritarismo.

Nessa modalidade de pressão do confinamento, alguém que cometa esse ato (redundante?) parece adotar uma posição ainda mais intensa do que se o fizesse em condições “normais” de temperatura e pressão.

 

 

— Paulo Paniago