CONTÍCULOS (19) Certas questões incontornáveis

 

 

Era possível ouvir o som de um pensamento a desabar, quando por acaso ele não conseguia equilibrar o danado em pé, o que ocorria com alguma frequência. Todos eram pensamentos pesos-pesados, viviam em disputa com os oponentes. Faltava a eles talvez um árbitro, ponderado, a mediar o conflito.

Pensava bastante a respeito da natureza do pensar, bem como a respeito do fato de que pensar sobre o pensamento ou o próprio pensar não é ainda pensar (ou é pensar demais, além da conta, metapensar).

Uma das perguntas que vivia a se fazer, por exemplo, era a respeito de onde estão as margens de um buraco, onde ele começa e termina, no que consiste exatamente o entorno de uma ausência.

Embora as respostas nem importassem tanto, fossem apenas contraditórias ou polêmicas. O mais importante era o disparador das perguntas, ele julgava.

Se a pessoa pretende usar o talento para o pensar precisa ter vocação para desmancha-prazeres.

 

 

— Paulo Paniago

CONTÍCULOS (18) Desdobramentos

 

 

Do “não posso ver Madalena” até lançar mau olhado e maldição entredentes foi um piscar de olhos. Margarete achava-se cheia de razão para detestar Madá, como se só tivesse sido culpa dela o roubo do seu homem, Agnaldo. Como se a vontade própria dele de nada valesse na equação sentimental. Talvez as mulheres saibam de algo em alguma camada profunda que escape profundamente ao entendimento de um homem.

Que digo? Talvez não, com certeza.

Acontece que o destino adora fogo no circo e fez Madá cruzar o caminho de Marga, que desdenhou.

— Pode ficar com aquele traste — disse, na direção da outra, embora não a olhasse diretamente, como quem a despreza o bastante para sequer encará-la. Usou um tom áspero de quem parece atrasado para resolver o problema da nação em caráter definitivo. — Não me serve mais, mesmo, está defeituoso. Faça bom uso, minha filha.

Especialmente a última expressão foi provocadora além da conta. A história, no entanto, não registrou comentário ou ação, quaisquer que tenham sido, da outra envolvida.

Consta, no entanto, que o caso entre Madá e Agnaldo não progrediu e ele chegou a procurar novamente por Marga, cabisbaixo e rabo entre as pernas, humilhado feito pinto na chuva. Foi rechaçado aí também, o que parece ter desencadeado o início do alcoolismo e o fim da sobriedade (o questionamento de que ele jamais teve alguma foi desconsiderado, por ser ironia desnecessária na ocasião) na vida de Agnaldo, até então tido como sujeito dentro dos padrões, o que é pouco neste mundo.

O que ninguém imaginava para o desfecho e acabou por acontecer foi o relacionamento entre Madá e Marga, que passaram a ser carne e unha. A frase de Marga usada no início do registro deste relato ganha agora, pensando bem, outra conotação.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (17) Cães raivosos

 

 

Acumulou bens como se estivesse num tipo de competição. Ou melhor, como se o acúmulo de objetos sobre os quais poderia declarar direitos de proprietário lhe desse vantagens não apenas no mundo real, mas também no imaterial.

Quanto a estes, não teve jeito. Quando chegou o limite, morreu, como acontece mais cedo ou mais tarde com os humanos, todos com data de validade: desconhecida, mas existente.

De nada lhe valeram as propriedades, sobre as quais os herdeiros se atiraram com fome de cão, como piratas a dividir butim. Até hoje disputam na justiça direitos de que se julgam detentores, com latidos mais ou menos potentes, a depender das gargantas. Mal se dão conta de que o limite também está estipulado para as respectivas futuras carniças.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (16) Legado

 

 

Tenho mais consciência de mim mesmo e do espaço a minha volta quanto mais sozinho consigo estar.

Solidão é alimento para a autoconsciência, torna os detalhes em volta mais nítidos, eles então cintilam.

A misantropia — que me proporciona solidão — é o que de melhor tenho para compartilhar com meus semelhantes.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (15) Você tem ideia?

 

 

Para você ter uma ideia deste mundo em que vivemos, ele disse. Prosseguiu com sei lá que linha de raciocínio. Parei de ouvir na frase de abertura e fiquei pensando a respeito dela, até que me senti ofendido.

 

(Parecia que eu não fazia a mais remota ideia de que mundo é este, a implicação da frase de abertura era me chamar de otário, para começo de conversa. E, bem, posso não fazer mesmo ideia e posso ser mesmo otário. Mas princípio igual deveria ter validade também para ele, tão ignorante quanto eu.)

 

Ponderei o que deveria ter feito e concluí que ter enfiado a mão na cara dele teria sido muito boa resposta. Assim, ele ia ter uma ideia precisa a respeito do mundo em que vivemos.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (14) Por trás da cortesia

 

 

Por que não podemos ser simplesmente honestos nas relações, eu me peguei pensando.

O vendedor lança bobagens na minha direção com um sorriso enigmático (condescendente? Irônico? Trapaceiro? Gentil? Todas as anteriores? Não sei avaliar). Ele diz algo.

— Estou pensando no seu bem-estar, senhor (na minha comissão se eu fechar a venda).

Formulo uma resposta.

— O desconto não é tão bom (o preço é ridículo e eu sei que esse desconto oferecido é na verdade uma farsa).

Toda conversa é formulada em pelo menos duas camadas. As mais complexas, em três ou quatro, o que é difícil de monitorar.

No fundo, começo a me perguntar se realmente preciso do aparelho pelo qual demonstrei interesse, ou se também preciso ter uma conversa séria com o capitalismo, o consumismo, a ordem do trabalho que me escraviza.

O desafio da conversa honesta ia ser ouvir as verdades sem desencadear guerras, me parece.

 

 

— Paulo Paniago