44. Seres da noite

Imagem | Shane Sutton

 

Trata-se de sujeito grandalhão, mas jovem. Estou voltando do trabalho numa sexta-feira, depois de ter ido encontrar velhos amigos do ensino médio para uns goles e o antigo jogo do que você anda fazendo por esses dias e como era boa a nossa vida naquela época. Então peguei um dos últimos metrôs da noite e de repente entra o sujeito. Ele é grandalhão, como eu disse, meio desajeitado e veste uma longa capa negra, uma espécie de sobretudo, cartola estilizada, um pouco mais curta do que a tradicional, meia arrastão nos braços, bota também preta, com plataforma alta. Tem colar feito de dois triângulos entrecruzados para formar uma estrela e ele fica ajeitando esse colar o tempo todo, usando o vidro das portas como espelho. O último toque eu só percebo quando passo por ele, que está de pé, para sair: há uma base de maquiagem no rosto largo e lentes de contato que tornam os olhos vermelhos. O efeito é realmente assustador, embora no metrô não passe de certo teatro do mau gosto. No resto dos dias, ele é Juvenal, assistente de entregas de uma grande loja de material de construção. Quando chega sexta, no entanto, ele se transforma nesse ser da noite, Vodu X, um nome tão pomposo quanto seu ego inflado. Mas não se trata de festa, ou melhor, não para ele. Para Vodu X é trabalho: assustar os clientes de um novo parque temático que virou moda entre jovens de classe média. E um ou outro passageiro do metrô no caminho para o trabalho.

43. Torneira das tormentas

Imagem | Saatchi

 

Há essa imagem a que normalmente se recorre quando se toma chuva: encharcado até os ossos. Mas ontem, quando cheguei ao metrô estava com a sensação de que em mim o que estava encharcado era o coração. Primeiro, porque Marcela me deixou, depois porque fui ao bar sufocar as mágoas. Por fim, estava chovendo e a água se misturou ao álcool e às lágrimas para criar um lago estranho. Sinto que às vezes me volto muito mais para meus problemas e dilemas do que para a observação do que se passa em volta. Gostaria de pedir desculpas por esse deslize, mas quando a vida me ataca de assalto tenho dificuldade de lançar o olhar para fora. Isso posto, quero falar mais um pouco a respeito de Marcela, se me permitem. Achava que estávamos numa ótima relação, claro, com uma ou outra rusga aqui e ali, mas nada grave e o importante é que era algo baseado em companheirismo e compreensão mútua, mas qual não foi a minha surpresa quando ela me lançou as fatídicas palavras: precisamos conversar. Isso em geral quer dizer uma coisa ou outra: ou a relação está com problemas e um freio de amarração precisa entrar em cena, ou a crise atingiu o ponto de não retorno e não há algo que os envolvidos possam fazer. Na gíria dos dias de hoje, esse barco já partiu. O nosso era o cais abandonado em que estou sozinho e fiquei surpreso com a velocidade com que ela juntou as coisas que havia espalhado pelos cômodos do apartamento e se foi, abrindo sobre mim a torneira dos tormentos e essa sensação de que nunca mais conseguirei me recuperar novamente. Em quem apoiarei agora que ela se retirou? Quem vai ouvir minhas queixas e me apresentar sugestões, com quem vou compartilhar as opiniões que tenho? A quem ajudarei quando ela estiver precisando? A quem vou lançar também sugestões e apoio? Éramos uma via de mão dupla. Marcela era meu Norte e Sul, meu Sol e Lua, o Avesso e o Direito e sei que estou precisando interromper esse fluxo de muro das lamentações, mas as coisas estão jorrando para fora de mim, não tenho comportas para conter toda essa água, esse uísque e o sal.

42. Dinâmicas de grupo

Imagem | Nigel Van Wieck

 

O metrô funciona à perfeição para duos. Uma pessoa se volta para a outra e eles interagem, até porque é quase sempre essa a disposição das cadeiras, duas lado a lado. Mas às vezes os grupos se apresentam aí também e as dinâmicas se alteram, formam-se quintetos ou trios, alguns raros septetos, mas às vezes ocorre. Ontem flagrei um grupo assim no meu comboio e quase fui à loucura tentando anotar o que diziam, aquele fluxo intercalado e sobreposto de vozes. Depois, em casa, tentei destrinçar o emaranho de garranchos e concluí que aquilo tudo era insânia. Preciso refletir bastante ainda a respeito da dinâmica das múltiplas vozes antes de me arriscar a compreender o que exatamente significou aquele momento de ontem. Perturbação do silêncio não comporta. Ruídos acima da média me parece pouco. Certa beligerância surda era inevitável de parte a parte (os outros que não fazíamos parte do grupo), mas o fato é que terminou em pouco tempo. As pessoas ficam paradas enquanto estão sendo transportadas, mas não suas vozes, que por alguns breves instantes parecem se rebelar, nas conversas pessoais. Talvez seja algo por aí o que me escapa exatamente de entender a dimensão da coisa.

41. Manual da felicidade

Imagem | nato

 

Paciência, perseverança e desprendimento são a tríade que aponta para o caminho da felicidade. O velhinho que usava uma espécie de bata que lhe deixava os braços soltos, bem à vontade, parecia estar conversando com o discípulo. O outro sujeito era franzino. Embora estivessem ambos de costas para mim eu percebia as discrepâncias e seria capaz de apontar que o mestre pontificava sobre uma protuberância na região da cintura. Ele devia ter, supus, uma barriguinha. Efeito de chope? Teria ele conseguido aplicar para si as regras que propugnava para a felicidade alheia? Talvez. Eu faria uma aposta no discípulo franzino, Aristides. Havia nele algo de relaxado que normalmente não se encontra nas criaturas magras e discípulas. Ele era promissor e talvez detivesse no fim das contas mais algum segredo que escapava inclusive ao mestre. A felicidade é uma desgraça, disso eu sei, desde que o homem se pôs a pensar que ela estava num horizonte possível. Talvez fosse o recado do mestre quando falou em desprendimento: não de nós em relação a posses ou bens materiais, mas de nós, de cada um de nós, em relação à própria felicidade. Uma vez que se consiga desistir de querê-la, ela se entrega a você. Mas o manual que ensina como se faz para abdicar da busca ainda está por ser escrito e a julgar pela tranquilidade daqueles dois a minha frente, o texto não ficará pronto nem tão cedo.

40. Deslocamentos livres

Imagem | Mawra Tahreem

 

E se de repente a humanidade deixasse de ser tão sedentária? Eu sei que uma parcela grande do planeta se deslocou bastante ao longo do século vinte, mas o que eu quero dizer é outra coisa: se todos, rigorosamente todos, decidissem que não podem mais ficar presos a rotinas e a decisão de nos movimentarmos tomasse conta do ambiente mundial? Se, numa só tacada, as fronteiras fossem abolidas e as pessoas não só tivessem autorização para se movimentar livremente, mas todas as tarifas dos meios de transporte, quaisquer que fossem, se tornassem inexistentes?  Para onde você iria em primeiro lugar, amiga?, perguntou a moça, Beatriz, para a outra a sua esquerda, Flávia, tão jovem e imaginativa quanto podia parecer. Eu começaria por Londres, depois Berlim, Flávia respondeu. Mas como ia ser com alojamento nesses lugares e com empregos?, ela continuou, fingindo um desespero exagerado. Não, prosseguiu, esse negócio não ia funcionar. Ah, a primeira lastimou, mas bem que podia, não aguento mais as muitas rotinas da minha vida, as repetições, isso está me pondo louca. É, amiga, Flávia disse, mas se você ficar viajando e viajando, isso também vai ser uma rotina e um inferno do mesmo jeito. A outra suspirou, conformada. A amiga tinha razão. Era uma espécie de dilema insolúvel, que obviamente não resolveram quando se levantaram para descer na estação que queriam. Mas que põe a gente para pensar, quanto a isso não resta dúvida.

39. A selva lá dentro

Imagem | Matthew Grabelsky

 

O sujeito tinha uma daquelas expressões de debilidade. Sem perceber, ele deixa a parte de baixo da boca um pouco caída, o que lhe confere aparência de pateta ou de alguém com dificuldade de respirar pelo nariz. Fica em pé, todos os assentos estão tomados. Deposita a pasta no chão e a prende entre as pernas. Dobra-se sobre ela, retira um jornal que também está dobrado e assim permanece quando ele se endireita e se põe a ler. A outra mão agarra-se à barra amarela acima da cabeça para que consiga manter o equilíbrio. Lembrei-me de um escritor londrino, Will Self, que, observando seus semelhantes ingleses apoiando-se  em barras semelhantes, decidiu compará-los a macacos pendurados em galhos. O livro se chama Grandes símios e tem uma sátira debochada da espécie humana como um todo. O fato é que aquele cidadão ali na minha tangente, Simão, com atitude abrutalhada, se qualificava perfeitamente, até no nome. A não ser pelo jornal, que duvido que ele consiga ler e apreender o conteúdo enquanto tenta manter o equilíbrio. Deve estar se exibindo para a moça sentada próxima a ele. Por sinal, ela não é particularmente bonita, mas consigo compreender o que o atraiu, uma apetitosa e cheia de volúpia comissão de frente. O comportamento sexual de um símio, com o disfarce de intenções do ser minimamente civilizado. Ou será que a volúpia está em mim, o grande primata, não no orangotango que a olha com gulodice e disfarce? Fato é que agora Simão está grunhindo alguma coisa para ela, que de onde estou não consigo ouvir direito o que seja. E para meu grande desgosto, ela não apenas responde, mas o faz com entusiasmo mal disfarçado, o que me desgasta ainda mais. Hoje, decididamente, é excelente dia para grandes primatas da floresta urbana.

38. Antipatia gratuita

Imagem | Kija

 

Em geral, tagarelice é vista como grave defeito que acomete as pessoas, mas no caso desse meu projeto, ela é essencial para o sucesso. Preciso estar perto de pessoas tagarelas, se possível atentar para o modo como falam, entonação, gestos. É dessa observação cuidadosa que virá o ouro das narrativas que desenvolvo. Portanto, em princípio sou favorável à tagarelice. Por isso mesmo não sei muito explicar o fenômeno que de vez em quando ocorre: o desgaste, o incômodo que certas pessoas conseguem provocar em mim, e a troco de nada, a partir de rigorosamente nada. A mulher estava conversando com o cara a respeito de trabalho — lá na firma temos isso, falta aquilo, o chefe ontem, a turma decidiu então, depois disso eu não quis mais saber de — e não sei, algo me desagradou de maneira profunda. Consigo me convencer de que, de modo geral, sou um cara bem tolerante, aberto às diversas vozes e narrativas que cruzam o meu radar. Mas aquela mulher, Renata… Identifiquei um pouco de estridência na voz dela, fato, entretanto não foi isso o que me deu ganas de esganá-la. Havia certa coqueteria no modo com ela lançava charme na direção do interlocutor, um sujeito barbudo e de rosto redondo em que brilhava estampada na testa a palavra cretino em letras garrafais, embora o nome que consta da identidade seja Rodolfo. Cretinaço, suponho que ela não saiba disso ainda. Seria esse o motivo? Creio que não, o fato de que ela parecia tão interessada em agradá-lo, aliado ao fato de que ele estava planejando dar algum tipo de golpe nela, não sei de que dimensões, deveria ser suficiente para aguçar minha boa vontade. No entanto eu continuava incomodado, diria mesmo que irritado, com a particular tagarelice daquela senhora. Não é também — outra hipótese que descartei — o fato de que ela dizia todas aquelas coisas com descomunal autoconfiança, como se tivesse absoluta convicção de que se o mundo girasse sob suas ordens as coisas não estariam tão bagunçadas. Pensei que talvez pudesse ser isso, mas a verdade é que adoro autoconfiança, sou fã da arrogância quando ela é consistente, de modo que não poderia ser esse o motivo do desgaste que eu estava sentindo. E sinto muito terminar esta história sem qualquer explicação minimamente razoável, porque afinal não resolvi a charada. O que posso dizer é que desci do metrô antes dela e ao passar a seu lado não me contive e disse, senhora, eu te odeio. Ela ficou estarrecida com a gratuidade daquela manifestação virulenta, virei-me em direção às portas que se abriam e fui embora, para nunca mais encontrá-la, quero crer.