13. Um conjunto estranho

Imagem | Jacques Villares

 

O bizarro é uma manifestação de desarranjo no mundo. Ele existe para nos tirar a todos de nossa zona de conforto. Hoje ele apareceu no meu vagão. Distraído com a leitura de um conto numa coletânea, eu demorei um pouco a perceber aquele conjunto de pessoas que havia entrado. Eram sete jovens e todos estavam vestidos de preto. Deviam ser parte de um grupo, uma banda ou mesmo de uma seita. Mas no retrospecto mental que me obriguei a fazer, compreendi o que estava acontecendo. Eles estavam voltando do enterro dos pais de um dos amigos, um daqueles jovens que estava ali, eu não conseguiria dizer qual exatamente. Por uma estranha coincidência e recuperando um velho hábito que se perdeu, todos decidiram se vestir de preto, sem que tenham combinado pelas redes sociais. Foi coincidência pura. O que Carl Jung chamaria sincronicidade, caso fosse convidado a palpitar. Primeiro senti uma mudança no ar a minha volta, não relacionada com a abertura das portas do vagão. Então ergui os olhos e lá estavam eles, um bando reunido, silencioso, taciturno, capaz de aumentar substancialmente o peso bruto do vagão com uma capa de pesar que se formou ao redor deles e atraiu a atenção discreta dos outros passageiros. Me pareceu mesmo que a composição passou a andar de forma mais lenta, mas eu sei que isso provavelmente não passou de impressão pessoal. Duas ou três estações depois o grupo desceu, carregando consigo aquela nuvem cinzenta que se formou em torno deles. Nem sempre o bizarro se apresenta de maneira divertida, mas de qualquer forma ele existe para desestabilizar, disso não tenho dúvidas. Um dos jovens, uma moça muito magra chamada Cristina e a última do grupo a deixar o vagão naquele deslocamento coletivo que fizeram, parecia lançar fagulhas de estática em torno de si ao caminhar. Me pareceu, mas posso estar enganado, que ela acha a morte muito excitante.

12. Cores e ritmos

Imagem | Hillel Kagan

 

Quando você olha para os diagramas dos metrôs existentes, João ou Roberta, tem a impressão de estar olhando para um jogo. Linhas coloridas formam os mais variados padrões e sobretudo existirão os pontos em que as linhas ou bem andam paralelas umas as outras por determinado trecho até se bifurcarem mais adiante, ou se cruzam em um único ponto. A ideia é que, de qualquer lugar onde você entre no metrô seja possível ir para outro lugar da cidade também contemplado pela rede. O projeto deve ser racional e orgânico, de modo a permitir os deslocamentos de maneira organizada e, se possível, complementada por um serviço eficiente de linhas de ônibus. Alguém precisa pensar nisso tudo e em onde cavar para que a coisa se realize da melhor forma possível. Os mapas do metrô — em todas as estações, nos pequenos folders distribuídos aos turistas ou mesmo ao habitantes não habituados ao sistema de transporte, nos aplicativos para celulares — precisam dar um jeito de fazer você compreender o projeto, a racionalidade e economia do projeto, muito rapidamente e de forma simples. Você está aqui, quer ir para lá. Qual o melhor caminho? O mais curto, o mais eficiente, o melhor preço. Há promessas aí, nem sempre cumpridas, nem sempre tão coloridas quanto as daquele jogo de linhas que andam em torno de um círculo e se espalham para muitas e diferentes direções. A racionalidade, a facilidade, a elegância devem se contrastar com a gigantesca dimensão do projeto: cavar buracos, colocar trilhos, encomendar vagões, construir plataformas, ter um bom sistema de comunicação, um outro não menos eficiente de vigilância, um que contabilize quantas pessoas são transportadas de lá para cá todos os dias — números que devem traduzir prestação de serviço, eficiência, números a serem empregados na hora de falar em expansão do sistema e convencer os investidores a colocar dinheiro. Números que lembram que você é quase isso também, mas você fica deslumbrado com as cores das linhas, com o jogo todo, as milhares de possibilidades de percursos. Você é humano e talvez por isso acha que o ritmo do metrô às vezes lembra o do seu coração.

11. Todos os metrôs do mundo

Imagem | Daniel E. Greene

O curioso das composições do metrô também é este fato: embora o trajeto seja sempre o mesmo, a viagem muda toda vez. Há o atraso — uma composição lá na frente, um dia de superlotação, um suicida chamado Manoel cujos fragmentos remanescentes precisam ser recolhidos dos trilhos. Há sempre novos passageiros, rostos diferentes, histórias potenciais. Eu poderia passar minha vida inteira só mudando de cidade e percorrendo os diferentes metrôs o dia inteiro, enquanto anoto histórias para contar, invento uma parte, testemunho outra, a depender da minha sorte. A vida inteira em subterrâneos, a grande toupeira humana proporcionada pela engenharia de escavação do solo. Os trajetos nunca cansam porque você sempre pode descer numa estação diferente ao longo do caminho e dar uma volta por ali, tomar um café e observar o movimento das pessoas em torno. Fiquei pensando se seria possível levantar o número de metrópoles do mundo que têm metrô (tem torno de 140, me diz um site de busca eletrônica na internet, o que é um número grande, mas também razoável), descobrir o número de quilômetros totais, calcular quantos desses quilômetros estão embaixo da terra, quantos do lado de cima, e evidentemente chegar a um cálculo de quanto tempo eu precisaria para percorrer todas as linhas, descer em todas as estações, produzir anotações, mas não sou muito bom com cálculos. Provavelmente levaria a vida inteira nesse projeto. Ou talvez me cansasse. Numa variante, conheceria a mulher de minha vida no metrô, Laura, e ela também ficaria encantada com o destino que me determinei, incorporando-se à aventura. A minha atual mulher teria pedido o divórcio assim que dissesse a ela que queria viver viajando de metrô. De vez em quando ela leria nos jornais que eu tinha lançado mais um livro de relatos do subsolo.

 

10. Pedido erudito

Imagem | Nigel Van Wieck

 

Essa foi um amigo meu que me contou, jamais teria descoberto sozinho. Tem um livro do Philip Roth, escritor norte-americano, com uma cena passada no metrô. É O teatro de Sabbath. Fui ler. O personagem, Mickey Sabbath, é um maluco que perdeu a mulher e a sanidade em Nova York, mudou-se para uma cidade interiorana, mas agora está de volta, trinta anos mais tarde, para o enterro do velho produtor, que cometeu suicídio ao fim de uma crise de depressão, não se dando, portanto, chance de sair dela. Sabbath tem a desfaçatez de, ao se deslocar para ir ao funeral do amigo, usando o metrô, levar uma caneca e pedir esmola recitando trechos do Rei Lear, de Shakespeare. “Por favor, não zombem de mim./ Sou um velho tolo e afetuoso,/ Com mais de oitenta anos, nem uma hora a mais ou a menos,/ E, para falar francamente,/ Receio que eu não esteja com a cabeça no lugar.” Em seguida, repassa vários trechos de diálogos da peça, economizando mentalmente algumas passagens. Apenas pelo prazer da afronta que pedir esmola talvez represente para toda a trajetória do artista que um dia ele foi. Ele não precisa pedir dinheiro, mas é algo que ele quer. Não há nada de humilhante, nada que um ator bem treinado não consiga fazer. Aliás, seria um bom título para o capítulo, caso Roth quisesse: Shakespeare no metrô. Ou Shakespeare no subsolo. Shakespeare subterrâneo. Ou, o meu preferido: Esmola erudita.

9. Outras histórias

Imagem | Matthew Grabelsky

 

Decidi checar o que existe na literatura a respeito de metrôs, já que minhas histórias se passam aí. Queria saber como os escritores abordam o assunto. Um título se destaca logo de saída, porque tem nele a própria palavra. É Zazie no metrô, de Raymond Queneau, um escritor experimental francês. A edição nacional é excelente, a começar pela frase de Otto Maria Carpeaux, um importante crítico literário austríaco que se naturalizou brasileiro, muito sério, cujo comentário é sucinto e provocador: “Zazie? Do caralho!”. Não sei se foi algo que ele disse, mesmo, mas de todo modo funciona de maneira magistral. Pensei: por que todas as críticas não podem ser simples e diretas como essa? Mas não podem, de fato. As páginas internas são impressas num papel bíblia bem fino e vêm dobradas, em duplas, de modo que o leitor deveria passar um abridor de cartas para encontrar impresso, do lado de dentro, imagens parecidas com aqueles cartazes que se colocam bem perto das saídas do metrô, em letras grandes, para anunciar shows ou espetáculos. Não tive coragem de abrir as páginas da minha edição, só posso ver um pedaço das imagens. Me deu pena de rasgar as páginas e estragar, sei lá, é uma intervenção avançada demais para mim. A história na verdade se passa durante uma greve do metrô em Paris e não vou me aventurar a resumir. Só isso: Zazie é uma garota bem desbocada e provocadora, o texto é ágil e divertido e parece que hoje estou me sentindo um desses anúncios que a gente vê num cartaz colocado no metrô, fazendo campanha pelo texto do senhor Queneau, a quem sequer conheci pessoalmente, acho que estava morto quando nasci. Só que no meu caso não tem ninguém me pagando.

8. Perdida

Imagem | Jacques Villares

 

Essa mulher, Tânia, parece muito desorientada. Tinha um olhar vago enquanto esperava a composição, ainda está com o olhar vago mesmo agora, do lado de dentro. A qualquer momento ela deve dirigir alguma pergunta a alguém. É loira, usa uns óculos escuros grandes demais para tampar o rosto, como se quisesse se esconder. Nem é famosa para precisar disso, no entanto acha importante manter a privacidade com esses óculos que parecem olhos de mosca, de vidros recurvos. Quando foi que alguém decidiu que isso era interessante? Moda é invenção dos cretinos, os feios que tentavam disfarçar a feiura de algum jeito, mas a maior cretinice de todas é um bando de gente realmente aderir, sinal de que tem algo aí que funciona realmente muito bem. Entendo nada de moda, não sei se quero aprender. Minhas roupas são convencionais, claro que seguem algum tipo de moda, a invisível, que não chama atenção. Eis, Tânia perguntando para uma senhora ao lado alguma coisa que não estou conseguindo ouvir. A senhora tem cara de que não vai dar conta de responder à loira. Tânia combinou de ir pela primeira vez à casa do novo amante, um sujeito que conheceu ontem à noite num bar e que lhe foi apresentado por amigos comuns. Estevão o nome dele. Conversaram, beberam um pouco demais, ela decidiu dar para ele no carro em que ele lhe ofereceu carona. Não foi a melhor das estratégias, ela teria que admitir se fosse conversar com alguma amiga a respeito do assunto. Agora vai procurá-lo em casa e preferiu ir de metrô na esperança de ganhar outra carona, Estevão lhe deu o endereço, algo de que provavelmente também se arrepende, mas no calor do momento muita coisa equivocada acontece. Como o fato de não terem usado camisinha, o que a fará saber, em breve, que é uma amante grávida. Se bem que amante não é o termo adequado, ela está ciente. Talvez seja como ela gostaria de ser chamada. O fato é que ao chegar a casa dele vai ter tempo de vê-lo sair de carro da garagem com a mulher no banco do passageiro e dois filhos pequenos no banco traseiro, ali mesmo onde se pegaram, ela espera que o cretino tenha limpado o assento. É quando vai decidir esquecer o assunto e se forçar a fazer isso nos dias seguintes, até a menstruação atrasar e o resultado do teste de farmácia ser positivo, confirmado depois por um teste mais preciso, no laboratório. A vida também, às vezes, é tão cretina quanto a moda. Ou mais.

7. A velha, o doido

Imagem | Darren Thompson

 

Estava chegando hoje à estação em que entro no metrô. Na escadaria que desce, percebi que algo diferente estava para acontecer. Uma velhinha, muito velhinha mesmo, e encurvada, Matilde, vestindo um casaco comprido que parecia para um frio maior do que o que de fato fazia, se apoiava na parede, meio de frente, meio de lado, para conseguir descer os degraus, que lhe pareciam árduos. Quando passei por ela, vi que tudo não passava de fingimento, ela na verdade é muito animada e anda muito bem, já a vi na mercearia do bairro. É o que a gente chama normalmente de velhinha serelepe, conversa bastante, é ativa, já a vi também dançando num salão local, animadíssima, sempre cercada de muitas amigas e muitos pretendentes a quem parece esnobar de maneira simpática. A não ser que tenha sofrido um avc, mas duvido. Sei que Matilde faz um projeto parecido com o de certos artistas performáticos, de modo que compreendi que era um truque dela para chamar atenção e talvez conseguir que alguém tome a iniciativa de ajudá-la, para que ela possa então conversar com a pessoa ou sei lá que outra intenção tem. Fato é que a ignorei completamente, passei por ela como um raio e foi então que vi a cena que me chamou a atenção e surpreendeu. Um sujeito estava conversando com a mulher estampada num cartaz pequeno de anúncio de agência de viagem. Parecia realmente engajado no monólogo, como se esperasse a qualquer momento que a moça também se lançasse na conversa e começasse a responder. Diminuí o passo, comecei a retirar meu celular para ver se conseguia fotografá-lo, pensando numa história para contar, mas foi nesse momento que me dei conta. Aquele cara, Rogério, na verdade não era louco, tinha sido contratado pela velhinha para compor a cena dela. Provavelmente, quando ela chegasse perto dele, ia haver algum tipo de interação previamente combinada. Na mesma hora, me senti enganado e parti dali, furioso, sem esperar para ver se minha suspeita se confirmava, mas estou convicto de que sim. Levei tempo para relevar. Afinal, eu não engano ninguém ao inventar histórias, elas acontecem apenas em minha cabeça. Mas isso, encenar peças públicas usando pessoas como vítimas, isso me parece criminoso. Eu, que a achava simpática, passei a odiar a velhinha a partir daquele dia e agora mudo de calçada para evitar qualquer possibilidade de contato.