Na verdade, eu minto

Imagem | Johannes Moreelse
Imagem | Johannes Moreelse

 

 

A invenção me salva de mim mesmo, ela disse, tentando esconder um sorriso, sem muito esforço, me pareceu. Queria mostrar que estava contente, talvez orgulhosa, com a frase reveladora pronunciada. Era a senha para dizer a verdade: todas as histórias que vinha me contando eram falsas, no todo ou em parte. Me virasse para descobrir onde era o quê. Sempre desconfiei muito dessas pessoas que alegam dizer só a verdade. Se a pessoa acredita nisso deve estar com um tipo muito sério de distúrbio, espécie grave de delírio fatal. Quando, no entanto, a pessoa diz não se importar muito — melhor ainda quando diz não se importar em absoluto — com a verdade, começo imediatamente a relaxar e me ponho à vontade. Acontece de dizer para mim mesmo então que estou em meu elemento natural.

 

Breve

gato-e-bolha

 

 

O que é breve tem qualidade extra no mundo. Sobretudo quando o sujeito começa a entender que a vida é persistente — impressão que aumenta bastante quanto mais idade se adquire, a ponto de virar obsessão — e portanto longa. Inevitável ser lembrado da frase com que Blaise Pascal encerrou uma carta certa vez: “E se escrevi essa carta tão longa foi porque não tive tempo de fazê-la curta”. Ganhar tempo significa aprender a encurtar. Um dia escrevi um aforismo para expressar isso: elegância é breve. O que me leva à triste conclusão: quanto mais envelheço, mais elegante me torno, necessariamente.

 

Sarcasmo e aspirinas 3

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Terceira

25

Se as pessoas estão à procura de bússolas que as orientem, o único efeito plausível do sarcasmo será desnorteá-las. Portanto, você que se comporta como ovelha desgarrada à procura de reingressar no rebanho, mantenha distância do sarcasmo e de quem o pratica.

 

26

O que você anda fazendo, me perguntou um amigo. Morrendo, respondi. Ao que ele sorriu: nada para hoje, então, de novo?

Esse é um verdadeiro amigo.

 

27

O cheiro do sangue e da tragédia anunciada enchem de expectativas aqueles dotados dessa especialidade do humor. A elegância é relegada para os piratas da existência. Charme é atributo dos filhos que receberam atenção excessiva das mães, preocupadas com botões e casas e as firulas ocupacionais, da existência.

 

28

É muito difícil se equilibrar na corda bamba do sarcasmo. Uma gota a mais de amargor e a fórmula se perde, o veneno vira combate. A diluição, da outra parte, gera subprodutos, como ironia, bazófia, deboche, chiste. Mas a imperfeição, afinal, fundamento do projeto humano, cai bem, quando se pesa tudo na balança.

 

29

Num mundo que briga para banalizar tudo — passando com a régua da democracia como trator por cima de ideias e paixões — ou radicalizar de vez em fundamentalismos inflexíveis, o sarcasmo é o único remédio autoimune que se anuncia, mas com discrição.

 

30

Um mapa para emoções em conflito, para inteligência inquieta, para o riso que não acha exatamente graça daquilo de que ri. Um tumor na alma torta, que não consegue tolerar o nível sempre crescente da imbecilidade humana. Embora contraditórias, ambas as definições se aplicam a sarcasmo.

 

31

A Bíblia é cheia de narrativas excelentes, mas leva tudo excessivamente a sério. A se crer no texto, Deus concedeu sarcasmo aos seres humanos para vê-los manifestar em pequena escala o humor que teve ao criá-los, mas que não permitiu que aparecesse no livro sagrado — talvez esteja nisso umas das chaves para desvendar os mistérios.

 

32

Leio que os artistas plásticos do Brasil migram aos poucos para a literatura. É esforço para desautorizar o lugar-comum repetido à exaustão — bête comme un peintre (eu estou demais com meus chavões em outras línguas, hein?). Ou o desespero manifesto que é ser artista plástico num país analfabeto. O gesto dos pintores me enche de emoção, essa que é o tema recorrente dessas anotações.

 

33

Existe o mundo e ele pode ser visto e experimentado diretamente. O sarcasmo é essa película que separa a pessoa de ter uma experiência direta com o mundo, como se estivesse subitamente impossibilitado de alcançá-lo e por isso se atormenta com essa manifestação de sua alma mutilada, no sentido de provocar uma ruptura que lhe permitisse enfim alcançar a experiência direta.

O sarcasmo é uma dobra, o impedimento de ter a mesma experiência em que estão mergulhadas as ovelhas do rebanho. O sujeito dotado de sarcasmo trocaria em dois tempos a própria inteligência, se pudesse, com isso, absorver a experiência sem julgamentos que teve um dia, por um breve período.

 

34

Você corre para fugir da polícia e no caminho tem uma cerca, alta, de arame farpado, a qual você tenta escalar, a despeito dos ferimentos que ela te provoca. É essa a vítima do sarcasmo.

 

35

Não ter pudor de ferir os sentimentos e as suscetibilidades alheias é o que torna alguém sarcástico. Isso e a consciência de que é preciso fazer uso do sal com que se temperam as relações humanas. Amizades, casamento, são o terno e gravata das relações. Sarcasmo é o tempero que ajuda a sair da formalidade morna.

 

36

Desde que Montaigne colocou a lupa para enxergar a si no mundo que existe essa preocupação do entendimento. Mas Michel (o prenome de Montaigne) era elegante, portanto o sarcasmo ali passou longe. Mais recente, em meados do século vinte, Jean Cocteau escreveu um livro intitulado A dificuldade de ser, em que se retoma esse jeito especial e próprio de enxergar-se no mundo. Pronto. Está aberto o caminho para a entrada do sarcasmo, até porque Cocteau diz que a dificuldade de ser “nunca se ajeita”.

 

37

Sarcasmo é um isolante, um veda-rosca existencial. Parcimônia no uso é o recomendável, a não ser para o verdadeiro sarcástico, que não tem menor paciência com a contenção. É preciso corroer o estar no mundo, esse é o princípio e ele não quer ser bonito nem simpático. Se tem uma coisa que tira um sarcástico do sério é a simpatia, placebo das relações humanas.

 

38

Sarcasmo ri alto, mas é triste.

 

P.S.:

Antídoto que me permite continuar no mundo: sarcasmo previne contra o suicídio.

 

Sarcasmo e aspirinas 2

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Segunda

13

Sarcasmo não tem alternativa: precisa ser intolerante com a burrice.

Não é à toa que no mundo florescem, neste momento, livros de colorir.

 

14

Numa ficção distópica, imagino um futuro em que o sarcasmo foi proibido e a punição é severa. Uma seita secreta iria se reunir, uma seita de adoradores de George Bernard Shaw, H. L. Mencken, Nelson Rodrigues.

 

15

A versão carnavalesca do sarcasmo é o deboche. Combina com o Brasil, porque deboche é o sarcasmo que não consegue assumir-se plenamente diante da estupidez do outro e disfarça o repúdio com um toque de malemolência. O que me gera o aforismo: deboche é sarcasmo com malemolência. Mas, para usar minha ferramenta predileta, posso dizer: deboche é o sarcasmo que se acovarda.

 

16

Jornais não conseguem lidar com os níveis elevados de acidez do sarcasmo e se contentam em chamar os políticos de hábeis. Mas o máximo que um jornal alcança é a suavização do sarcasmo, ou seja, a ironia. Porque políticos não são hábeis, pelo menos não no Brasil. O nome correto é sempre outro. Mas é difícil para a nação conferir o verdadeiro nome ao político que elegeu para representá-lo, porque isso significaria reconhecer o verdadeiro caráter local para a cretinice ilimitada.

 

17

Alguém que se disponha a usar de sarcasmo é porque alcançou o patamar de ir além do senso de humor. A única coisa além de sarcasmo é a mordacidade — embora ela ainda queira encontrar algum potencial para o riso no mundo.

Além do sarcasmo, só mesmo o remédio para dor de cabeça.

 

18

O cético é realista. O sarcástico acredita que o riso não salva, mas pelo menos permite uma postura intransigente diante do absurdo da existência. Ride ridentes, como diria, muito sério e compenetrado, um poeta russo cujo nome me fugiu.

 

19

Para se conseguir ser sarcástico, é preciso ter a mente desocupada para perceber o vazio das atribulações mundanas.

É por isso que as pessoas se ocupam tanto e a cada dia mais: não querem se contaminar inadvertidamente.

 

20

Religiões abominam o sarcasmo, porque se levam a sério demais no papel de explicar a ficção a respeito do espírito.

 

21

O meu único espírito é o do tempo. E ele vive gripado.

 

22

Só se pode pensar no limite da liberdade se se puder fazer o exercício perpétuo do sarcasmo. Quando começa o respeito, a liberdade vai para o saco.

 

23

Apontar o dedo na cara de uma ideia ou argumento e chamá-la de idiota ou cretina é a prerrogativa de que o sujeito sarcástico não pode abrir mão, mesmo sob risco de ser — e será, não tenha dúvida — tachado o tempo todo de grosseiro.

 

24

Elegância é incompatível com sarcasmo, esse rude do humor com fome pelas canelas das visitas. Ainda mais se bem vestidas.

 

Sarcasmo e aspirinas 1

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Primeira

1

É jogar sempre a inteligência por aí, desperdiçá-la com bobagens, com a cota extra do fútil. É esse o talento do tempo, o que para dizer de modo chique e elegante eu poderia usar o alemão, Zeitgeist. Ou o francês, l’esprit du temps.

 

2

Eu mesmo trato muito mal os neurônios que meus pobres pais se uniram para me transmitir. Não que tenham feito esforço especial para caprichar: a verdade é que o processo foi um tanto aleatório e atribulado. Atraídos pelos feromônios mútuos, acasalaram-se de modo muito parecido com o de outras espécies, ou seja, a atividade envolveu suor, saliva, fluidos, coração a toda, o pacote completo.

E eis-me, nove meses depois, a lhes berrar nos ouvidos para que se arrependessem. É claro que de nada adiantaram meus berros e eles ainda tiveram outros filhos.

Às vezes só me resta mesmo duvidar que somos capazes de usar a inteligência da melhor forma.

 

3

Hoje vi uma referência ao filósofo Wittgenstein. Jornais e revistas promovem, a intervalos regulares, os mesmos grupos de pensadores e artistas. O negócio é cíclico. Entra Wittgenstein, sai Kierkegaard, é assim?

Troque uma preocupação com a linguagem — um traço de superfície — por um mergulho no amargor da existência. E considerando que as discussões a respeito de inteligência artificial terão que levar em conta os fundamentos da linguagem, voilà, eis Wittgenstein em alta.

Eu, eu abomino as tendências, porque tornam os humanos muito parecidos com carneiros.

 

4

Tenho, atrelada a minha inteligência, que reputo cada vez mais escassa, essa característica terrível: o mau humor. No meu caso, ele se manifesta de forma muito específica, com essa característica que parece ausência de humor, ou até mesmo inversão completa: sarcasmo. Quando afiada demais, a inteligência se vê acuada a esse ponto de entrar em curto-circuito ou manifestar-se por meio desse riso acerbo.

 

5

Sarcasmo é veneno e remédio: não saio de casa sem levar uma boa dose comigo, embora o uso seja pouco recomendável e agrava as crises de relação pessoal.

 

6

Acabo sempre me voltando ao mesmo ponto: para que servem as gentes? Ainda bem que a humanidade se encaminha (a meu ver, ainda de forma lenta) para a criação definitiva da inteligência artificial e da superação definitiva do fracassado projeto humano. Mas demora e terei morrido quando essa etapa for atingida. A mim só me resta testemunhar os filmes que tentam se antecipar ao assunto. Todos com o mesmo princípio básico: o medo desse momento de superação, esse complexo de Frankenstein (o humano que cria um monstro autônomo e ele se volta contra o criador).

As gentes servem para viver a vida, contaminar o planeta, serem chatas, umas poucas serão efetivamente legais, servem para morrer de acidente ou velhice e renovar o estoque de gentes que se fazem as mesmas perguntas vazias de resposta: qual o sentido de tudo isso?

 

7

Sarcasmo não é riso coletivo nem inclusivo. Sarcasmo é o riso solitário da inteligência. Envenena a alma e estimula a produção da cárie, essa mazela típica de terceiro mundo com alimentação recheada de doces.

 

8

É isso. Vivo num país doce.

É o mais sarcástico que consigo ser.

 

9

Sarcasmo é inimigo da elegância, acho que essa conclusão não é difícil de admitir. Ele funciona para blindar quem o detém dos ataques de insanidade coletiva que o mundo é pródigo em produzir.

Sarcasmo te isola e te protege, no mesmo movimento. Por isso tem baixos índices de aproveitamento: o desenho da humanidade privilegia os tais bons sentimentos: solidariedade, tolerância, compaixão.

Sarcasmo é artigo de luxo e toda parcimônia deve ser empregada no uso dele. É como manipular veneno: se não forem tomadas as devidas precauções, alguém vai acabar machucado de forma séria ou morto.

 

10

Até quando se vai insistir na ideia de que só se pode ser terrible quando se é enfant? Quero ser um adulto terrible e um velho, se chegar a tanto, insuportável. Algumas pessoas que me conhecem hão de concordar que a minha terribilità está a toda.

Pessoas com um perfil parecido com o meu terminam presas ou internadas em hospício. Já entendi o destino que me aguarda, é questão de tempo. Claro, se eu tivesse poder, o cenário seria inteiramente outro, poderia ser chefe de estado, ministro, congressista. Minha têmpera me impede, no entanto. Vim definitivamente defeituoso. Confinei minha inteligência — parca, insisto — no campo das artes, onde os excêntricos podem caminhar sem serem incomodados. O que faço, artisticamente, alcança zero de repercussão. Para minha sorte ou azar, não sei dizer bem, mas acho que é o que ainda me faz manter algum grão de sanidade.

 

11

O mundo se esfacela e a arte sorri.

Não poderia ter feito melhor escolha.

Ou: o mundo se esfacela e a arte é elegante — o que dá mais ou menos no mesmo resultado.

 

12

Num mundo plenamente evoluído, todas as pessoas seriam plenamente inteligentes, ou seja, haveria uma distribuição em escala de sarcasmo. Ou será que aí não faria mais sentido usá-lo como ferramenta de sobrevivência.

 

Arlene, a proscrita

Arte | Lucia Znamirowski
Arte | Lucia Znamirowski

 

 

É isso, doutor. Tirei essa mulher da minha vida, consegui bani-la para os quintos dos infernos. Mas ela volta, se oferece, canta feito sereia, até quando preciso aguentar esse assédio? Acontece que fiz o esforço, vetei-a em todas as instâncias, não a vejo mais no bar que frequento, no carteado, esses lugares foi fácil, não a vejo mais no meu barbeiro, nem na padaria onde tomo café da manhã. Arlene está banida da igreja, do cinema, do bilhar, do boliche, do piquenique, essa mulher foi completamente impedida de toda parte, inclusive do meu coração, que eu achava que era o último lugar que estava faltando. Mas não é que agora, doutor, ela deu para se esgueirar pelas frestas e começou a aparecer nos meus sonhos? Ela é uma danada. Por isso estou aqui, para que o senhor me receite algum medicamento que dê jeito nessa questão de uma vez por todas.

 

Tardes de sábado

Arte | Sepe
Arte | Sepe

 

 

Em algumas cidades do interior, brilha o sol mas não a vida. Essa segue modorrenta, arrastando-se por entre uma decisão lenta e um adiamento inadiável. Num lugar desses cresceu Airton, considerado pelo pais e professores bom menino — opinião compartilhada, no que diz respeito ao qualificativo, por Janete, que disse sim ao pedido de casamento, quando chegou a hora. Airton não usou de pompa, em circunstância tão corriqueira quanto esquecível. Memória não é o melhor atributo das pequenas cidades interioranas, há quem culpe o calor do sol ou o absoluto desinteresse generalizado pelo que aconteceu no passado. É uma cultura — ou a falta dela, a depender de quem argumenta. Fato é que Airton e Janete partilharam o leito e tiveram uma penca de filhos tão cretinos quanto desinteressantes. O terceiro de uma leva de oito, Juvenal, cresceu bruto e frívolo, combinação que pode ser desastrosa em algumas situações. Tentou ser sapateiro e trabalhar numa oficina mecânica, mas o emprego que se revelou duradouro foi no frigorífico. Numa tarde especialmente azucrinante, Juvenal conversava com um amigo tão tosco e brutal como ele mesmo, Dioclécio. Os sujeitos se embriagavam durante o turno, porque não havia o que fazer e precisavam esperar a hora de bater o ponto. Um carregamento de carne que aconteceria sofreu atraso, que não lhes dizia respeito, em termos de responsabilidade, de modo que se sentiam autorizados a beber no ambiente de trabalho. Dioclécio desafiou Juvenal, matar uma pessoa não era a mesma coisa que matar vaca, mas Juvenal teimou que sim e, para provar, pegou a faca e foi para cima de um rapaz que apareceu ali com o intuito de fazer uma cobrança, chamado João Vitor. Começou pela barriga e subiu com a faca até quase o pescoço, expondo as vísceras do jovem no chão encardido por tantos sangues animais. Quando Airton e Janete receberam a notícia de que o filho estava preso por assassinato, ele pensou diversas vezes onde tinha errado. Janete ficou na dúvida se teria alguma coisa a ver com a depressão que sentiu pouco tempo depois de dar à luz a Juvenal — doença que não lhe acometeu em nenhum dos outros partos. Fato é que às vezes é preciso afastar para o lado com a mão firme a pachorra que se acumula feito gordura em certas tardes de sábado, no interior.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Não é bem assim

Arte | Federico Infante
Arte | Federico Infante

 

 

Seu Orozimbo sofria horrores com a molecada. Descobriram que ele tirava um frasco de álcool do bolso do terno e depois de embeber um lenço, limpava a mão sempre que alguém o tocava. A diversão da molecada era, portanto, passar correndo por ele e tocar-lhe a mão. Esperavam que ele fizesse lentamente o ritual asséptico para então o próximo menino avançar e fazer tudo de novo. Seu Orozimbo devia chamá-los mentalmente de cretinos, suponho. Por fora, ostentava terno arcaico, chapéu, um conjunto de indumentária antiquada demais para meados dos anos setenta. Andava encurvado por algum problema na coluna e tinha rosto velhíssimo. Atordoado por aquele assédio terrível de crianças interioranas e absolutamente desocupadas, lastimava a falta de modos, lastimava os dias em que era jovem e andava empertigado, em que não tinha obsessões com limpeza tão visíveis, em que era ele a torturar os outros, aqueles judeus que se submeteram a experiências no campo de concentração em que desempenhara as funções. A verdade é que agora parece que seu Orozimbo está pagando alguns dos pecados que cometeu, com larga vantagem, inclusive, se alguém se der o trabalho de comparar o que infligiu e o que sofre. Os pais das crianças apelam para a compaixão e tentam demover os pequenos da travessura, mas a verdade é que ela continua a acontecer impunemente.

 

Desilusões aos pedaços

Imagem | Ernesto González
Imagem | Ernesto González

 

 

1 Persistência sem fim

Ele não sabe bem por quê, mas deu ouvidos a uma dessas frases edificantes que dizia: nunca desista. Agora está com oitenta e sete anos e a sensação de que finalmente as coisas vão começar a desenrolar, mas aí vem a morte e atrapalha tudo.

 

2 Caminhos possíveis

Há limite de idade para que uma pessoa possa se sentir orgulhosa. Depois o pudor impede e, por último, existe as alternativas: ou se vira um cínico ou se continua a acreditar em alguma coisa — em qualquer coisa — e aí não há remédio a não ser abraçar o seu quinhão de patético neste mundo.

 

3 Mergulho radical 

Passou a vida inteira à procura de si mesmo. Era o que dizia aos outros. Quando se deu conta de que na verdade tinha atravessado a vida toda a se esconder, das outras pessoas inclusive, mas sobretudo de si, percebeu que também era tarde para fazer qualquer coisa a respeito.

 

Como educar para a discrição

Foto | Kersti K
Foto | Kersti K

 

 

No Uruguai, reparei um dia, caminhando por uma passagem entre a Biblioteca Nacional e a Faculdade de Direito, ambas construções antigas e sóbrias, que os balanços para crianças são muito altos, ficam longe do chão. Sendo o uruguaio um sujeito discreto e contido, minha mente formulou a seguinte teoria: é assim que são educadas as crianças para a discrição. Colocadas num balanço alto, aquelas que aprendem a se conter crescem para se tornar pessoas contidas, autocentradas. Os impetuosos se lançam do balanço, caem de cabeça e morrem. Paciência, dizem os pais sem muito alarde, e tentam educar o próximo. Além disso, sendo alto o balanço, o impulso é mais restrito do que se a corda fosse longa, o que também ensina contenção. Nada parece abalar a discrição e a tranquilidade segura de um uruguaio. Quando fui tentar me inscrever na Academia Pedagógica do país para explicar os fundamentos da minha teoria, me chamaram de louco e me negaram a inscrição.

 

À procura do segredo

planta

 

 

As minhas opções: neurastenia ou a liberdade das ruas. Correndo risco ser flagrado pelo meu chefe mais cedo ou mais tarde e sumamente demitido — por justa causa, ainda por cima — decidi-me pelas ruas. Acompanhei ao acaso o fluxo de algumas pernas femininas, recusei comprar loteria duas vezes, estudei a inclinação do sol nas laterais de uns prédios, acomodei-me como pude à vida, imaginando que poderia decifrar-lhe o segredo. No dia seguinte eu voltaria ao trabalho, humildemente me submeteria à comodidade embaçada que a rotina também me proporciona. Sabia que teria de esperar a próxima crise, o surto seguinte para de novo arrumar uma desculpa e lançar-me à rua como se fosse repórter especial da vida. Um dia descubro o segredo.

 

Mentiras que dão certo

Imagem | Endre Penovác
Imagem | Endre Penovác

 

 

Ela força a mão para ser profunda e, como se fosse a consequência inevitável, triste. Mas sua índole a desmente e quando se distrai, mostra quem de fato é: pessoa com vocação para ser feliz. Claro que nosso caso não poderia dar certo, comigo é o oposto: faço um tremendo esforço consciente para ser feliz, mas sou traído pelo talento natural para tristeza que me puxa de volta. No fim das contas, talvez seja por esse nosso contraste que as coisas deem certo. Isso e o fato inescapável de que ambos mentimos sobre nossa verdadeira natureza individual.

 

Profissão difícil

Foto | Gunars Binde
Foto | Gunars Binde

 

 

A dúvida é o que me mata. Se tivesse certezas e precisasse lidar apenas com elas seria tão mais fácil. A vida se tornaria um ângulo reto, encaixes e ajustes perfeitos. Em vez disso, tenho dúvidas, desgostos, círculos que não fecham, muito espaço tracejado. Margarete está me traindo, penso durante o café da manhã. Imagino que possa ser com Hércules, meu sócio, ou com Tânia, a dúvida não me deixa decidir e tento encontrar resposta em seus olhos, mas ela dissimula e foge. Quando Margarete se levanta da mesa e me dá um beijo de despedida, fico na dúvida se ela realmente me trai, se contrato um detetive para resolver o assunto, se me importo no fundo com isso, se abandono minhas amantes, Lurdes e Malva, para reconduzir Margarete à retidão do casamento e honrar o contrato de fidelidade que fizemos diante do padre e de nossas famílias. As dúvidas se multiplicam ao longo do dia de maneira realmente fascinante, em intermináveis bifurcações, mas encerro o dia cansado com tantas variáveis e o travamento geral que elas me provocam. Simplesmente não consigo decidir. A última do dia é a dúvida que sempre retorna como se fosse o fantasma de um filme ruim: devo ir para a cama e dormir ou cometo suicídio de uma vez por todas. Pelo menos, essa é uma dúvida que o dia seguinte responde por mim, sempre que desperto para enfrentar nova leva de conflitos e verifico que ainda não tive coragem suficiente para tomar a outra decisão.

 

Talento para deboche

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A última que soube dele foi que tinha organizado pesquisa que constatou o talento brasileiro para o deboche, aparentemente maior do que o de outros povos. Podia ser visto como o quarto pilar da identidade nacional, ao lado do Carnaval, samba e futebol. Ele chegou a argumentar que o Carnaval era a coroação do deboche; o samba, primo malicioso; o futebol, deboche do ritmo. Convidaram-no para escrever colunas em jornais e revistas, travou polêmicas com várias pessoas, uma arte que parece ser exercício do acinte, mas com camadas de sutileza difíceis de dominar. Aconteceu-lhe algo parecido com o que tinha se passado com Byron, acordou um dia e se descobriu famoso, como se reconhecimento fosse uma gripe que se contrai de maneira inesperada. Abriu depois um curso de sucesso e muito frequentado, A Arte do Deboche, em que ensinava alguns truques avançados para o perfeito domínio das técnicas e variações. Fazia a necessária distinção entre deboche, escárnio, bazófia, chiste, sátira, ironia, zombaria, troça, toda a gama de emoções do riso com vítima. Sabia das tentativas de fazê-lo feitiço que se vira contra o feiticeiro — que provasse do próprio veneno —, mas tinha ginga o suficiente para sair-se de todas. A pouca tolerância brasileira com a excelência, no entanto, devia ter sido alcançada pelo seu radar antes que fizesse qualquer besteira, mas percebi que ele estava com os dias contados quando anunciou num programa de televisão em cadeia nacional que era o rei do deboche. Destronado e esquecido com a mesma rapidez com que se troca de canal, ele anda sumido e para ser sincero não tenho mais visto.

 

Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.

 

Tomba a carrocinha

Foto | Balaton Kikasz
Foto | Balaton Kikasz

 

 

A casa era simples e havia pouco espaço para bagunça, mesmo assim meu pai fazia questão que os cômodos permanecessem mergulhados nela. Era como se fosse o recado dele para todos: estão vendo?, eu não ligo. Não que ele se achasse melhor do que o mundo, mas no fundo era isso: arrogância do desespero. E eu, mesmo que ligasse, não tinha direito a emitir opinião, ninguém me perguntava coisa alguma ou dava importância ao que sentia. A casa era simples e a rua em frente era de chão batido, o que significa muita poeira entrando pelas frestas e se depositando sobre a bagunça, por exemplo na louça suja que se acumulava na pia. Eu fazia uma visita, mais a meu irmão, que naquele momento estava morando com nosso pai, do que propriamente a meu pai, embora também a ele: queria entender por que tinha se separado de minha mãe, queria saber por que tinha sumido no mundo e não dava a mínima para os filhos. Meu irmão tinha se imposto a tarefa de morar com ele, mas resistiu um ano e depois mudou de ideia, quando os desentendimentos, as discussões superaram qualquer possibilidade de manutenção do convívio. No primeiro fim de semana da minha visita, depois que havia escutado Maria Bethânia cantar uma música de Chico Buarque num gravador — era a primeira vez que eu via um gravador, o que me causou sensação (a música me levou às lágrimas, eu tinha enorme propensão a me emocionar fácil com praticamente qualquer coisa que me afetasse e tudo me afetava; a letra falava de sonhos impossíveis) —, a família se reuniu na pequena sala da casa para assistir um filme de tomba a carrocinha, o modo jocoso como meu pai se referia aos faroestes: em todos eles chegava o momento em que os colonos tombavam as carroças que os transportavam ao velho oeste e faziam um círculo de carroças, de dentro do qual atiravam contra os índios que cavalgavam num círculo maior, em torno daqueles sujeitos que eram afinal os verdadeiros invasores, embora isso eu só fosse perceber bem mais tarde. Nossa conversa se resumia a comentários pejorativos sobre os filmes em preto e branco num velho televisor chuviscado que às vezes interrompia a transmissão. Por dentro, eu tinha sentimentos em polvorosa e milhões de perguntas que não sabia fazer, então engolia em seco e me exercitava também na arte do riso debochado, como se agir de acordo fosse o meu passe para pertencer de alguma forma ao mundo adulto. Aquele tipo de escárnio final não me foi muito útil, uma vez que eu tinha talento natural para tragédias, mas era a única ponte de conexão que nos definia como família naquele momento, enquanto eu permanecia com a sensação de morar um pouco no faroeste, embora não houvesse mais índios a dar combate, apenas muita poeira e as moscas que faziam festa sobre a louça esquecida na pia, com zumbidos cortantes.

 

Se tiver de ser assim 3

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Se eu tivesse que lembrar todas as vezes que nós meu vizinho e eu nos ignoramos fechamos rapidamente a porta de casa quando a do elevador se abre para o outro sair eu estaria no sal. O nosso é um jogo silencioso de esquivas o boxe da defesa infatigável. Somos o monstro da perturbação recíproca — mediados pela parede que nos separa produzimos o barulho que será o tormento um do outro. Achamos melhor nos tratar como inimigos respeitosos do que nos afligir mutuamente com uma amizade improvável que apenas ressaltaria nossas gigantescas diferenças de opinião e nosso constrangimento para fingir que partilhamos alguma opinião apenas para evitar que a discussão degringole para agressão mútua um ao pescoço do outro. Meu vizinho me desafia com música sertaneja devolvo com Bach no último volume acirramos nossa postura de inimigos não declarados incapazes de nos enfrentar em arena mais propícia onde pudéssemos usar luvas e protetores bucais. Ele grita gol nos intervalos em que meu time perde eu grito de volta quando é o dele que perde claro que até nisso somos adversários jamais acharemos consenso e se porventura algum se apresentar vai causar mais dissabor do que nos aproximar e daremos um jeito de encontrar divergência. Não queremos proximidade além da parede que nos divide: dele aceito a cabeça ou o fígado se possível numa bandeja de prata. Nossas rabugens se alimentam das picuinhas que sabemos atiçar um contra o outro. Meu vizinho meu inimigo declarado é o que me mantém vivo com a bile em ebulição. Prefiro ligar para a polícia e denunciar o barulho que vem de sua casa do que ligar para a minha mãe e perguntar as trivialidades filiais que me sinto na obrigação de cumprir dia sim dia não. Ninguém mexe um dedo para ajudar. Roubo o jornal deixado na porta dele valho-me da falta de câmera no corredor. Ele reclama ao porteiro que dá de ombros não sabe o que está acontecendo não quer se envolver pode ser os meninos do andar de cima. Desconfio que ele deu jeito de se vingar e se apropriou de parte da minha correspondência que não recebi: deve ter queimado tudo só de pirraça. Nos alimentamos nessa guerra de silêncios que um dia vai nos matar ou vai nos distrair até que alguma outra coisa nos mate.

 

Se tiver de ser assim 2

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Mesmo que eu quisesse dizer tudo — mas entenda: não quero — mesmo que soubesse como abrir o bico e dizer tudo o que me vai pelo lado de dentro as coisas sairiam atropeladas e sem sentido e seríamos obrigados a desistir eu de falar você de ouvir — forçados a concluir o óbvio: palavras não conseguem dizer não têm as nuances para esclarecer as emoções. Palavras são pragmáticas demais funcionais demais comunicação de superfície: a vida é o que está embaixo no subsolo das palavras. Seria preciso um dicionário das emoções estou convencido. Mas quá seria também ineficaz. Não sei como resolver simplesmente não sei. Nada mais para dizer a memória acaba de me levar para uma tarde na infância em que chovia e eu observava a água bater no vidro da janela a temperatura caía eu triste melancólico e feliz com a melancolia porque era minha e autêntica e emoção: pelo menos eu a tinha naquela época. A chuva no vidro mas agora do carro enquanto sou levado para casa escorregando rumo a um sono reconfortante o sono da melancolia reconfortante. Posso descansar a vida tem atrativos. Talvez eu não fosse feliz ainda mas sentia que estava ali ao alcance da mão. Precisa de coragem ou de medo? Ainda não sei dizer. Todas as coisas que devo esconder todas as emoções que não sei expressar todos os silêncios quando nem eu nem quem estivesse comigo tínhamos o que dizer aquele hiato difícil aquele vazio que poderia ser atravessado por uma galáxia escura. A vida é triste. Mas às vezes é engraçada. Um monte de coisas de uma só vez ou em sucessão. Um pensamento que vai e volta uma borboleta no jardim iluminada pelo sol brilhante de depois da chuva.

 

Se tiver de ser assim 1

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Enquanto meu pensamento vai e vem sobre um tema e outro — descreve a trajetória de voo de uma borboleta no jardim: errático ao olho humano embora para ela borboleta deva fazer todo o sentido — lembro de trechos da infância canções sobrepostas e emoções a elas atreladas. Não podia ouvir David Bowie cantando que tenta tenta (na letra de Modern love) sem ser quase levado às lágrimas porque havia um filme francês em que nessa hora o sujeito corria em direção à amada debaixo da chuva mesmo sabendo que a tinha perdido porque sabia que a tinha perdido a vida tinha se tornado inteira aquela corrida desesperada para recuperar o amor mas no cinema eu sabia que não tinha jeito que o amor perdido fica perdido para sempre que quando se estraga não dá para colar as partes de volta não é assim que funciona e talvez por isso me desse tanta vontade de chorar — eu também tinha perdido um dois vários amores era por mim mesmo por meu fracasso pessoal que eu queria tanto derramar alguma lágrima por saudade daqueles amores perdidos. Também não podia ouvir America cantada por Simon & Garfunkel sem evitar de sentir saudade de um lugar ao qual nunca fui — ou não fui ainda pelo menos: saudade por antecipação. O mundo um caleidoscópio de emoções um furacão que me agita e não sei mais como me sentir. Vejo coisas associo sons a lembranças algo disso se preserva mas a vida é na verdade uma enorme sucessão de perdas e perdas inclusive de todas essas emoções que um dia você jurou ter sentido. Elas não voltam ou se voltam é como arremedo pálido do que você sentiu da primeira vez. Deveria ter anotado tudo o tempo todo um jornalista perene a anotar o diário das emoções em tempo integral. O que teria sido então se fosse assim? Não há como saber só o que se sabe é que as coisas se esvaem para o ralo sem fim dos pensamentos perdidos. Os pássaros que um dia ouvi. Os pássaros que registram a mudança do dia que me alertam para que eu note a mudança: na cor na temperatura em mim mesmo imóvel sobre o sofá cinza apenas a cabeça em mil piruetas: como resolver os problemas do mundo como escrever literatura como acertar o passo dessa vez ou da próxima tanto faz nunca saberei acertar o passo.

 

Algumas lembranças de outro tempo

Foto | Brian Bowen Smith
Foto | Brian Bowen Smith

 

 

Antes de perceber os fantasmas, eu tinha todas as dúvidas voltadas para mim mesmo. Era o que garantia, eu pensava, que os meus pensamentos fossem efetivamente meus e não implantados em mim e controlados a distância por aquele que os implantou, com tal sutileza que me fazia inclusive duvidar da autonomia dos meus pensamentos. Ou, por outra, o que garantia em mim a autenticidade humana? O sangue que escorria pelos meus dedos ou pela minha testa quando eu me machucava em alguma brincadeira parecia ser apenas mais um elemento do dispositivo implantado em mim para me enganar melhor. E se descobrisse um dia que eu era um robô tão sofisticado que tinha um implante de mecanismos de pensamento que conseguiam inclusive formular essas questões e, tal como ocorre com os demais humanos, não ter a mais remota ideia de como ia começar a respondê-las. Talvez essa grande quantidade de questões que me assolavam estavam vindo do fato de que eu era deixado muito tempo sozinho na infância, com muitas horas vagas para especular e especular novamente, formulando e reformulando questões e narrativas pessoais nas quais eu poderia abolir a previsibilidade do mundo convencional e me comportar de modo semelhante ou melhor do que aquele que testemunhava nas histórias em quadrinhos que me eram dadas para ler, ou nos filmes que podia assistir uma vez por semana no cinema perto de casa ou em bases mais frequentes na televisão, que tinha afinal horários muito restritos — e eu, outras obrigações e afazeres, de modo que o acesso também era limitado e controlado. Mas em tudo isso que estou contando o importante, me parece, é perceber — o que consigo agora, mas não sei bem se tinha essa consciência à época — que um garoto deixado sozinho por muito tempo vai desenvolver um lado muito introspectivo, ruminante e cheio de indagações, mas que não sabe para quem deveria formular, de modo que as ruminações sofrem quase sempre uma segunda rodada de reflexões e novas elaborações mentais. Na vida real eu poderia estar indo a pé para a escola todos os dias, mas na imaginação eu voava, o que em geral causava uma sucessão de espanto e admiração entre as pessoas que podiam testemunhar, muitas deles meus conhecidos ou amigos, todos se transformando muito rapidamente em admiradores instantâneos. Na imaginação os voos se davam sem qualquer dificuldade, enquanto na vida real o máximo que eu conseguia sair do solo eram as corridas até em casa, tão intensas que me deixavam o peito dolorido de calor e a pele do rosto avermelhada por muito tempo, enquanto o cabelo grudava na testa, cheio de suor. O mundo se oferecia para ser desbravado e a verdade é que o meu repertório limitado não me sugeria caminhos melhores para desfrutar dele do que aquelas corridas desenfreadas ou senão uma brincadeira na rua com amigos que se estendia até escurecer e que parecia ter a extensão do infinito, mas que na verdade estava apenas na casa dos minutos.

 

Guerra interna

Foto | Tim Ronca
Foto | Tim Ronca

 

 

Ele tinha sido um sujeito assustadiço no começo da vida. Mais tarde, tornou-se introspectivo e por último podia ser visto como alguém cheio de brusquidão e amargura. É difícil imaginar o que as pessoas atravessam e como são afetadas pelo concreto das relações humanas. É fato que esteve num pequeno barco que deslizou bem próximo de um jacaré, mas e daí?, se você pensar bem, isso talvez não signifique muito. Até mesmo essas definições são limitadas e não conseguem delinear a quantidade de emoções ou a variedade de pensamentos. Soube que ele havia estado numa zona de guerra, fui a um jantar em sua homenagem e conversamos de forma breve. Eu estava fumando na varanda, contemplava as luzes da cidade e pensava a respeito das pessoas e das vidas irrefletidas que levavam. Ele se aproximou e começamos a conversar.

— Deve ser difícil voltar da guerra e se engajar em atividades sociais, como jantares — comentei.

— Pois é — ele assentiu —, muito.

Então me filou um cigarro e fumamos um pouco em silêncio.

— Chegou a matar alguém? — perguntei, depois de um tempo, mesmo sabendo que era o que todo mundo devia perguntar.

— Não, eu estava encarregado de organizar a distribuição de alimentos. Sou da área de logística.

— Entendo — eu disse, mas não entendia coisa alguma, a não ser o fato de que ele não havia matado alguém. Qual o sentido de ir para a guerra, nesses termos, eu me abstive de perguntar, mas fiquei com vontade. — Quer dizer que a guerra foi algo distante.

Ele deu uma tragada. Olhou para a cidade, depois para mim, como se eu fosse estúpido. Talvez estivesse certo.

— É possível ver muita merda, eu vi muita merda. A guerra externa pode ser bem feia, mas as guerras mais terríveis acontecem dentro das pessoas.

Sério que ele tinha dito um absurdo daqueles? Para quê, santo Deus, alguém diria uma bobagem daquelas? Acontece que tempos depois eu ainda estava pensando a respeito do assunto e me lembrava da voz rouca dele pronunciando aquelas palavras, as guerras terríveis dentro das pessoas. Parecia bom, depois de um tempo. Parecia realmente impactante.

 

Padrão que persiste

Arte | Giorgio Ortona
Arte | Giorgio Ortona

 

 

Uma pessoa sem memória é alguém sem vida, porque o que sou neste momento é resultado do modo como sei elaborar e perceber os eventos do passado. Estava tentando explicar isso para Júlia, que parecia relutante, mas que também hesitava em manifestar opinião, talvez temesse o confronto comigo, talvez não estivesse segura da melhor forma de manifestar ideias, pelo menos naquele momento ou em relação ao tópico. A memória, Júlia, eu disse, é a grande responsável por me definir. Sem memória, ela finalmente rebateu, o mundo seria novo de novo e a cada momento. Sinto falta desse frescor, dessa possibilidade de ver o mundo como se fosse a primeira vez. Seria assustador, rebati, é como esses adultos despojados da própria memória, você já teve oportunidade de conhecer alguém assim? É lamentável, insisti, é como se o sujeito fosse despojado de si mesmo. Nós somos o resultado do que fazemos com nossa memória, é o que nos define. Pobre dos brasileiros, então, ela riu, parecendo concordar com meu argumento, pelo menos por um instante. Pois é, ri também, pobre de nós, que nos esquecemos de muita coisa, de quase tudo, do essencial, e perdemos a identidade o tempo todo. Aliás, é por isso que ficamos a discutir a identidade brasileira. Mas tive a impressão de que ela ainda pensava a respeito da possibilidade de ver o mundo com olhos renovados e sentia tristeza de não poder simplesmente apagar a memória, por um dia que fosse, para depois recuperá-la. Seria uma pena vê-la nessa condição, porque Júlia estaria com olhos desmemoriados e um entusiasmo estranho.

 

No rumo de casa 3

Imagem | Laurent Chehere
Imagem | Laurent Chehere

 

 

Um vento atroz percorria a praia e vinha até o centro da cidade, com aquele odor marítimo característico, como se o oceano fosse uma enorme panela em que os animais, mesmo vivos, estivessem sendo cozidos lentamente. A mulher tinha os cabelos soltos, esvoaçantes por conta do vento forte, e um casaco que era uma espécie de vela terrestre do corpo, navio e mastro de uma só vez. Tinha desembarcado à procura do grande amor de sua vida, todos estão sempre à procura do grande amor, esse mito que permanece no horizonte. Para quem encontrou, daí a pouco começa a ladainha de reclamar do convívio e é possível imaginar que o amor da vida está em outra parte, no canto do mundo reservado aos amores da vida. Numa foto antiga, ela aparecia nua, sorrindo para a câmera, segurava os seios com as mãos e sugeria topar qualquer convite inusitado. Agora a mala era quadrada e parecia pesar muito, teria ali dentro o que achava essencial, para o caso de encontrar o amor. Embarcar, navegar, criar expectativas, desembarcar do outro lado, erguer a mala, carregá-la por ruas ventosas, o cabelo desarrumado, o amor cada vez mais perto, é o que ela imagina, é o que todos começamos a imaginar, torcendo por ela, pelo encontro, adoramos todos as histórias com finais felizes, por mais que saibamos que só existem nesse formato de histórias, não na vida real. Na vida real há vento e cheiro forte de peixes, um oceano bravio e uma pedrinha que entra no sapato e precisa ser retirada, a travessia completa, um descortinar de oportunidades que tanto podem se revelar contentes quanto muito frustrantes, não se sabe. Talvez caia uma chuva e será muito bom se ela estiver abrigada, quando isso acontecer, será muito bom se estiver aquecida e sentada, uma xícara de café ou chocolate quente para também aquecer por dentro, um olhar lançado para o vidro da janela onde as gotas de chuva batucam e se prendem, para começar uma corrida vidro abaixo, quem vai chegar primeiro, o modo como se prender aos detalhes impede o pensamento de ir atrás de questões complicadas. Aproximei-me da mesa e disse, pode ser que seja eu. Perdão, ela respondeu, não entendi. Nada, comentei, apenas disse em voz alta uma coisa que estava pensando, me desculpe. Ela virou o rosto de novo para a janela, tudo bem, disse, a voz suave, melodiosa, um acinte de voz, mas a atenção sobre a minha pessoa começou a se diluir naquele momento. Os cabelos eram cacheados e enfeitavam um rosto que eu tinha vontade de dizer que pertencia a uma deusa. Ia perdê-la, para sempre, se não a fisgasse. Aquele peixe, aquela sereia, vinda do oceano até onde eu estava, era um presente mas era fugidio. Ou você age, minha voz interna me deu um ultimato, ou perde. Com você eu seria capaz de ir a qualquer água, a toda parte, falei. Ela me olhou como quem se dá conta de estar na presença de um louco. Tem hora que não se pode perder tempo, ou você lança a linha e o anzol, ou vira o barco e passa fome. Não estou recitando uma fala de uma peça, não, moça, é isso mesmo que você acabou de ouvir. Qualquer parte. Entende? Posso te pagar mais uma bebida? E ali começou o nosso romance, o desentendimento mútuo, a vontade de ir ao outro lado do globo para encontrar um novo amor, porque ele está sempre lá, do outro lado, no canto do mundo reservado aos amores da vida.

 

No rumo de casa 2

Imagem | Laurent Chehere
Imagem | Laurent Chehere

 

 

Juliana, coração apaixonado, destempero das emoções, perdição de minha vida. Juju um dia, Julinha no seguinte, mais tarde Ju e Jujuba, cem mil nomes para cem mil contorções da cintura enlouquecedora, o coração em fogo, olhos em brasa. Ela sabe os pontos em que dói a minha dedicação e a verdade é que ela gosta de causar dor, dominadora e feroz como faz questão de se mostrar toda vez. Eu devo ser o escravo desgarrado, o masoquista do amor, refém dos caprichos e indolente para traições, porque desejo com tamanha imensidão aquela mulher que não consigo resistir a qualquer que seja a proposta alucinada que ela me faz, e são tantas e tão intensas a cada dia, uma hora me quer como testemunha das orgias, com cinco homens, de uma vez foram sete mulheres, eu tinha que assistir e sem um pio, nem a língua podia usar, eu sou a contenção do anjo desesperado na coleira. Desejava que o amor tivesse me errado, as setas de Cúpido não me envenenassem, mas é querer sem causa, eu sei, estou à mercê de uma vontade que não é a minha. A boca só traduz as palavras incandescentes do meu coração, minha desrazão perdeu-se há tempos, nem tenho sonho de reencontro, o mapa tão perdido quanto a bússola. Minha fé e meu ardor é Ju, minha religião e toda a ciência, Juju, meu norte e o sul, Jurubeba, o sal da terra e o doce da água, Juzinha, meu começo meio e fim, Jujete cara de chiclete, meu isso e aquilo, meu desacerto e o desacato, o sol, a lua e as estrelas todas do firmamento até aonde a vista nem mais vai, ela me vira do avesso e ri, a desgraçada. Rendido, perdido, rodopio e peço bis, ela faz que nem é com ela, maldita, desconsolada, pisca torto e de saída, diz que volta não sabe quando, quer ver a casa um brilho, um brinco, parecido com o de pérolas que me desdobrei para conseguir. Valeu um beijo, um afago, sou Rex, o cão vadio, não mereço nem osso, incondicional feito crimes que não prescrevem. Sou Maria, a da faxina, Dora, a da cozinha, Marivalda, a escrava perdida do rei egípcio, isso quando não me xinga. Juju finge indiferença, mas eu sei que ela me quer, precisa dessa minha dedicação. Até que um dia. Porque tem sempre um dia que a coisa vira, o vento muda, a vida movimenta. Flagrei-a se apaixonando por outro, o coração prestes a ser estendido numa bandeja de prata, e aí perdi-me, a paixão avinagrando-se em negro no meu peito. Estavam os dois no quarto, cuja porta tranquei por fora. Gasolina pelas frestas de baixo e depois o incêndio, bonito, as labaredas lambendo-lhe a cintura em contorção, um coração em fogo como aquele nunca mais se viu tão belo.

 

No rumo de casa 1

Imagem | Laurent Cherehe
Imagem | Laurent Cherehe

 

 

Era o primeiro hotel em que entravam os desavisados que chegavam à cidade, porque ficava na principal rua de acesso e só depois é que se descobria que era o único. Tinha também um café caindo aos pedaços, onde seu Olavo servia cerveja quente e café frio, combinações normalmente fatais para esse tipo de negócio. No entanto, lá estava, e durando, com clientela fixa e os transeuntes do hotel que porventura não queriam se arriscar em outra parte, até serem informados que de fato nem havia outra parte, aquele era o único café no hotel da cidade. Jupiler, chamava-se, e pertencia ao nosso mafioso de plantão, Agnaldo. Ele estava sempre de colete e sempre de óculos escuros, mesmo à noite, ninguém jamais entendeu. Parecia ter vindo de outra época para lembrar a todos que os valores do passado ainda contavam para alguma coisa, sem que necessariamente se pudesse precisar o que seria essa coisa. Agnaldo tentava formar um corpo de associados subalternos que estaria sob seu comando, mas a indolência de nossa população, 752 almas desenganadas (e diminuindo), era completamente avessa a esse tipo de conduta e ele não chegava a ser um grande líder para reverter a situação. Nossa cidade parecia condenada, os filhos se mudavam para estudar e dificilmente queriam voltar depois, o destino que nos aguardava era lacônico e reticente, o que temperávamos com cerveja quente, à noite, e café frio, de dia, além de melancolia e resignação que ninguém sabia explicar qual seria a origem, mas que se espalhavam com enorme eficiência pelos habitantes. Seu Olavo também era gerente do hotel de Agnaldo e o único que parecia disposto a suportar as chatices do chefe. Nós outros simplesmente ignorávamos os comentários e admoestações de Agnaldo, cópia chinfrim de um Al Pacino mais jovem, em fins dos anos 1970, por aí. A estagnação e anúncio de morte de uma cidade é algo terrível, gela o sangue, interrompe a noção de que a vida é vibrante. Até os ventos pareciam se desviar nas montanhas em volta e evitavam arejar as ruas silenciosas de Rio das Almas, no interior de nem te digo qual estado (o nosso era lamentável). O rio estava assoreando, sucumbindo como metáfora viva da condição patética de resistência dos parcos habitantes. Ali o tempo tinha andamento muito mais caprichoso, excelente para escritores, essa raça que precisa ter exatamente o que escasseia por toda parte e lá havia de sobra, com inclusive muita folga a ponto de virar recurso. Foi o que fizemos para nos salvar, criamos uma colônia de escritores, para os quais vendemos tempo e eles vêm, em peregrinação, em busca do ambiente agradável e dilatado que proporcionamos. Há um bangalô para cada um, no qual escrevem e onde dormem, e espaço comunitário para conversas noturnas. Nem todos são bons, mas isso pouco nos importa, o que queremos é que a cidade não morra. E para os que estão com falta de inspiração, sempre tem Agnaldo, com relatos de histórias que jamais aconteceram, mas que funcionam muito bem em literatura. Ele é nossa versão local de Barão de Munchausen. O próximo passo é convencer seu Olavo a comprar geladeira nova e decente para a cerveja, uma máquina apropriada para fazer expresso e estamos feitos.

 

Razões da ficção

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Por que você tem essa necessidade de ficção, de criar problemas alheios, depois escarafunchar neles como um dedo que remexe a casca que se formou sobre o machucado? Qual é, sinceramente, o prazer mórbido que você sente em projetar nos outros os problemas que afinal são seus? E, se me permite acrescentar, qual é a vantagem que as pessoas poderiam esperar obter com a leitura de todas essas narrativas que você insiste em criar, como se já não houvesse problemas demais por conta própria no mundo real para resolver? Você acredita que ler os problemas pessoais projetados num personagem inventado de algum modo ajuda as pessoas a perceberem a verdadeira dimensão do que estão atravessando? É por isso? Eu sorri para ela, procurando adivinhar o quanto havia de angústias pessoais envolvidas naquelas perguntas lançadas de uma só vez como se fossem balas de metralhadora e o quanto ela estava apenas sendo gentil e levantando as bolas que eu passaria a cortar como se fosse o melhor jogador de vôlei que já existiu. Então perguntei de volta: você tem quanto tempo?

 

Miranda por dentro

Foto | Chris Kovacs
Foto | Chris Kovacs

 

 

A magreza faz com que pareça mais alta, mas a verdade é que ela é mesmo alta. Os óculos lhe cobrem mais da metade do rosto, é como se fosse atriz conhecida que procura se disfarçar chamando atenção para o disfarce. O formato do rosto é bem definido e não poucos homens, se instados a opinar, diriam-na bonita, sobretudo porque os lábios grossos sugerem um bom complemento para as linhas do rosto e o tamanho do olhos — para quem conseguiu vê-los quando ela tirou os óculos. Quando pensa bastante a respeito, Miranda conclui que tem problemas normais para pessoas normais. Como só consegue sentir as próprias questões e muito pouco das alheias, julga que o importante é se ater a si e ver no que dá. Teve sua cota de insônias e férias, sorrisos e fotografias, fora ocasionais dores de cabeça. Se sopesar a própria situação e a de milhares, bilhões de humanos em condições extremas, seria forçada a admitir que está bem, bem acima da média. Claro, não recusaria o pedido de casamento de um príncipe e por se tratar de fantasia que jamais se realizará, o sujeito é além de tudo jovem e bonito. Miranda recentemente tomou a decisão de passar a sorrir com mais frequência, não apenas para os conhecidos. Disseram-lhe inúmeras vezes que tem um belo sorriso, esse mesmo que agora adorna uma série de anúncios em outdoors espalhados pela cidade, mas não foi apenas isso, quer testar se é capaz de alterar o ambiente em torno de si com apenas o gesto simples e descomplicado de contrair alguns músculos faciais. Também almeja, com esforço e boa vontade, promover reforma interna de disposição, se for possível. Ela sabe que o exercício vai lhe exigir persistência no limite, nem todo mundo está disposto a retribuir sorrisos como se fossem moeda de troca das relações sociais. Seu Manoel, por exemplo, o porteiro rabugento e artrítico, requer esforço dobrado, porque ele não pretende ceder fácil e Miranda acredita mesmo que vai insistir apenas por desencargo de consciência, seu Manoel é causa perdida. Olho para Miranda, que passa todo dia próximo a minha janela, distribuindo sorrisos como se fosse sua missão neste mundo e, além de estar secretamente apaixonado por ela, sempre me recordo da letra de uma música, que adapto para incluir seu nome: “Quero ver Miranda rir / Quero ver Miranda dar sua risada”. Não sabe que eu seria o melhor interlocutor, o mais risonho recipiente de sua missão e talvez a única coisa que falta para Miranda perceber que felicidade está muito, mas muito mais próxima do que imagina.

 

Fazer da derrota vitória

Imagem | Ferdy Remijn
Imagem | Ferdy Remijn

 

 

Fomos para a piscina assim que acordamos. Era bom estar na casa de um amigo bem de vida que mantinha piscina no quintal, à espera de livrar nossos corpos dos efeitos da ressaca. Redenção pela água, alívio dos pecados alcoólicos. Um fogo-pagou anunciou presença como se exigisse ser reconhecido, os cachorros vizinhos expressaram vontades de lhe estraçalhar as entranhas, aqueles cães são uns brutos disfarçados de amor incondicional que reservam somente aos humanos, crianças sobretudo. Beto pôs as mãos sobre o rosto, depois empurrou os cabelos para trás, como se quisesse arrancá-los pela raiz de uma vez. Abandonado por Marina, que deu no pé com Olavo, considerado a partir de então traidor, Beto não mede esforços para estragar o próprio corpo, como se ainda precisasse se punir por ter sido largado. Tornou-se fingidamente cínico, mas não passa de bebê chorão e às vezes é preciso lhe dar uma descompostura. Também, lamuriento como você está, quem aguenta?, alguém lhe diz, para ver se melhora. Ele engole o choro, feito menino, depois sucessivos copos, para ver se consegue se manter anestesiado por mais um dia. A verdade é que somos todos um tanto imaturos, pelos variados motivos que nossas histórias estimulam ou reconhecem. E a verdade também é que bebemos demais na festa de ontem, a pretexto de afogar mágoas que agora queremos ressuscitar na piscina. Bem, vá lá, não as mágoas, mas o que restou de nossos próprios corpos infames. Berna ameaçou vomitar na água, foi expulso. Ocupou o banheiro dos fundos e ouvimos suas tripas sendo excomungadas para fora do corpo, em profusão. Aquilo parecia não ter fim, como cabia tanta coisa naquele cara? Enfim, silêncio. Tranquilidade relativa. O resto de nós na flutuação, esperando clemência do sol em seu trabalho implacável. Berna saiu um fantasma da casinha, proibido por unanimidade de voltar à piscina. Nos resta um fio de honra, alguém lhe advertiu, chamando-o nojento. Ele prometeu bochechar com algo refrescante e voltar à piscina em breve, também era filho de Deus, o que nos anunciou com voz pastosa, como se estivesse primeiro mastigando as palavras antes de proferir. Parecíamos o exército da derrota depois da batalha de nossas vidas e houve um cretino que anunciou essa exata imagem, como se ainda fosse necessário ouvir a verdade naquele momento, algo que tenho certeza de que estávamos dispostos a deixar para outra ocasião e oportunidade. A questão profunda, sabíamos, era que a ressaca apontava nossa desclassificação não só momentânea, mas na guerra da vida de modo geral, ela assinalava o quão perto estávamos de assinar a rendição definitiva. Nem pensar em virar o jogo, em mudar de perspectiva. Nem o fato de estarmos produzindo aquelas análises de nossas perdas e danos na piscina do Setúbal aliviava a nenhuma consciência de que dispúnhamos. Mas depois de duas horas de tratamento aquático, à base de suco de tomate, hidratantes, antieméticos, cafeína em variadas formas, água de coco, a promessa do organismo de aguentar outra rodada se num futuro distante, recebemos a visita de Mariza. Nossas lamentações estavam na fase próxima ao esgotamento. Mariza é o mais perto que temos do que seja Musa, pelos mais variados motivos e razões. Alguns conseguiam sorrir de novo. É impressionante como a vida sabe renovar os ciclos, para a nossa glória, amém, para a nossa salvação, amém, para a continuidade dos trabalhos até o sem-fim dos tempos, amém, e a perpetuação inesgotável dos fígados, amém. À noite estaríamos de volta as nossas respectivas casas, restaurados parcialmente para o enfrentamento de pelo menos mais um round, outra semana, apoquentações, trabalho, contas pagas e renovadas. No próximo fim de semana estaríamos loucos por um pretexto para celebrar a vida, beber e comemorar antes que ela finalmente chegasse ao fim.

 

Circuito em curto

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É verdade que Italo Calvino andou dizendo da minha primeira obra umas palavras gentis, chamou-me de inclassificável e fez soar como elogio. Depois os argentinos me procuraram, queriam lançar numa edição da Eterna Cadencia uma coleção de contos que viria junto de uma novela, sob o título geral de Manter distância. As negociações não avançaram, previ que se publicasse em Buenos Aires daí a pouco me procurariam os chilenos, os uruguaios e minha vida iria virar de ponta cabeça, sem sossego. Gosto do anonimato, dos contos que reproduzo em cópia barata e distribuo a esmo por aí, sem critério. Franco-atirador literário, nada de compromisso. Outro dia menti que tinha traduzido um livro do László Krasznahorkai, mas era um romance meu mesmo, a verdade é que nem falo húngaro. Teria sido mais fácil apresentar um livro meu como sendo a tradução do argentino César Aira, mas nesse caso teria sido mais rápida a descoberta da empulhação. Importante é divulgação, meus livros sob auspícios da fama alheia. O problema dos escritores é que são cambada de certinhos, cheios de pruridos e preocupados com fronteiras éticas. Por isso nem atendo quando dizem que é um escritor que me procura. Não estou, mando dizer. Não tenho paciência com esses tipinhos, todos melífluos, cheios de conversinha com rendas nas pontas. Que se fodam, eu digo, não atendo. Todas as éticas caíram junto com o muro de Berlim, seus idiotas. Os tontos ainda perdidos. Não aguento. Vou me virando como posso, vivo de expedientes, pequenos golpes, fraudes precárias. Acho crime profissionalizar o crime, como fizeram os políticos brasileiros. Mantenho a cabeça abaixo do radar e vou. Literatura trato a pontapés e quanto mais mambembe, mais me interesso. Escritores de verdade são os que viraram fantasmas, óbvio que nem todos. Talvez escape entre os vivos aquele sujeito da Noruega, Karl Ove Knausgård, que não tem papas na língua para falar mal da própria família, esse é possível respeitar. Boçais, os escritores. Mendigam publicações, concorrem a todos os prêmios, amam noites de autógrafos, frequentam felizes festivais literários nos quais arrotam sapiência e sensatez, sempre jogando as melhores frases para a plateia (no subtexto: gostem de mim, comprem meus livros). Que triste. Entram para o circuito, se esquecem que literatura só funciona em curto. Respeito escritores que levam a sério o ofício, sobretudo quando se matam. Morrer de velho é a tragédia da literatura, sua longa e histórica agonia. Ainda bem que os leitores vão escasseando, isso me dá o alento de que preciso para continuar mais um pouco, até que chegue a minha hora. Entro para o sistema, se minha cretinice falar mais alto e alguma oferta generosa aparecer — o sistema comporta e precisa de alguém com meu modelo de perfil —, ou entro em curto e me mato de uma vez. São minhas opções.

 

Preconceitos

Imagem | Corinne Vionnet
Imagem | Corinne Vionnet

 

 

Minha família sempre foi generosa com pessoas consideradas diferentes, meu bisavô recebia em casa todo tipo de gente necessitada sem levar em conta qualquer que fosse a natureza da questão que a tinha levado até ali. De alguma forma esse tipo de solidariedade se perpetuou como marca familiar. É algo que fazemos como se entendêssemos ser necessário e correto, portanto não há qualquer tipo de manifestação de orgulho no que diz respeito a esse assunto. Isso posto, devo dizer que meus pais sempre enfatizaram a necessidade não só de sermos tolerantes com as diferenças, mas percebê-las todas como naturais. De modo que onde as pessoas viam gordos, anões, vesgos, lerdos, chatos, obtusos, não raro eu via amigos interessantes, mesmo quando algo em mim reclamava que não valia a pena. Eu fazia um esforço e quase todas as vezes compensava — mas nem sempre. A diversidade humana. A tolerância. Generosidade. Compaixão. Compreensão. Nem sempre fui o melhor, mas havia esforço. De modo que não deveria estranhar albinos. Mas foi aí que a coisa emperrou. Algo nos albinos, essa expressão de não pertencimento na aparência ao projeto humano, esse ar de extraterrestres que carregam consigo, essa falta de pigmentação que lhes provoca tremores nos olhos descoloridos, associado aos problemas que lhes encurtam a visão e às pálpebras brancas, tudo isso me provoca um longo arrepio toda vez que me deparo com um albino. Até ali vai a minha tolerância, mas então recuo, perpassado por um incômodo estranho que me faz abdicar da tolerância. Claro, não lhes desejo mal nem traço qualquer plano horroroso para fazer qualquer ação malévola contra albinos. Sempre me irritei com os intolerantes ativos: contra os judeus, as mulheres em geral ou as putas em particular, os veados, negros, azuis, contra os isso, os aquilo. Os intolerantes me causam um profundo asco — mas nem por isso ajo contra eles, a não ser na forma de discursos que sei que não lhes altera em nada a boçalidade que os move e fundamenta. Mesmo esses toscos a quem abomino não me causam o tipo de estranhamento de que estou falando aqui, afinal tenho um elemento que se assemelha à tolice deles, me torna quase um igual, embora não goste de reconhecer. Acontece que travo nos albinos e não sei explicar a origem desse incômodo. Vejo um albino e quero mudar de calçada, evito o cumprimento, não pretendo ser apresentado. Porque meus pais não me mostraram um albino quando eu ainda tinha alguma chance de aprender? Por que o aprendizado, diga-se de passagem, não incluía essa categoria? Eu deveria ter repulsa apenas pelos intolerantes, mas vejo-me sendo um deles. Agora, só o que me resta é sair à procura de alguma moça que seja albina e pedi-la em casamento. Só o enfrentamento nessa camada mais profunda talvez me cure de mim mesmo, da minha imperdoável limitação humana.

 

Certa autoconsciência

bonde

 

 

Os destinos das pessoas, quer queiram ou não, estão emaranhados. Não escolho as pessoas com as quais a minha vida vai se cruzar, mas sei que em boa parte do tempo a estratégia das pessoas é vestir uma máscara de indiferença e ignorar todos os novos humanos que lhe cruzarem pela frente. Não posso simplesmente dizer que se trata de um erro ou um equívoco. Seria exaustivo para qualquer um lidar com todos, dirigir-se a todos, manter o interesse e as conversações. A verdade é que a vida da maioria das pessoas é constituída de momentos vazios, obsoletos, desnecessários — no entanto, é disso também que é feita a experiência de estar vivo. Uma pessoa se dá conta, a certa altura, de que seu círculo de conhecidos será bem limitado, por mais que queira ampliá-lo. E conhece-se bem e a fundo, mesmo, um número ainda mais reduzido. A vida, pensei, é uma experiência estranha. Minha pele apresenta protuberâncias — acnes, cravos, espinhas — desagradáveis aos olhos, mas o meu interior tem escaras muito mais graves e no entanto há quem me aceite e me estenda afeto e ternura mesmo que eu não me julgue digno de obtê-los. Em algum lugar, creio — e essa crença me anima — há alguém que, se a loteria da vida me permitir encontrar, isso fará com que eu me desempenhe ao máximo e será o mesmo com ela, o que vai acabar resultando em que nossas vidas não apenas se completem uma a outra, mas que esse fato também faça a diferença para a vida das pessoas a nossa volta e com isso teremos motivos para nos orgulhar das escolhas que fizemos. Mas é uma loteria, como disse, e nem todos serão agraciados. Para a grande maioria, a marca fatídica é a da ausência, tanto de uma outra pessoa como, e isso é o pior, de si mesmo.

 

Desse lado do ringue 4

Foto | Christophe Jacrot
Foto | Christophe Jacrot

 

 

Na plataforma do metrô, próximo de onde o trem para, havia uma espécie de curral feito de canos resistentes. A ideia é facilitar o desembarque de passageiros e organizar o embarque de novos. Quando começamos a entrar no vagão, um sujeito aborda pelo lado do desembarque e avança para dentro, passando na frente de todos os que nos conformamos com as regras. Lá dentro me dou conta: é Deus, se sentindo poderoso a ponto de não se contentar com os limites toscos e animalescos dos humanos. Certo ele, que é Deus e lê Shakespeare de pé. Nas próximas três mudanças, ele está sempre no mesmo carro de metrô que eu. A certa altura, me distraio com duas bundas femininas prestes a desembarcar e quando vou checar, Deus desceu do trem e nem vi. Confiro os nomes das estações para saber onde ele desceu e vejo que a próxima é Patriarca. Penso que ele então só pode ter descido na estação errada. Tudo bem, o cara é crescido, ele se ajeita, por que Diabos estou preocupado? Deus sabe o que faz. Mas da próxima vez, se ele não tomar cuidado quando estiver entrando pela saída, Shakespeare ou não Shakespeare na mão, vou passar uma banda nele.

 

Desse lado do ringue 3

Foto | Christophe Jacrot
Foto | Christophe Jacrot

 

 

Depois de dar uma folga, Deus resolveu me sacanear muito e fez com que minha namorada perdesse a carteira. Estávamos no começo do dia, o primeiro de um fim de semana que seria passado em outra cidade, e havíamos saído do metrô e entrado num café. Ela foi retirar a carteira da bolsa, não estava. Pegamos o metrô de volta, ela se lembrava de ter tirado a carteira na entrada da estação de onde tínhamos saído. Perguntamos para a moça do guichê de venda de bilhetes se alguém havia encontrado a carteira e a devolvido: nada feito. Ela recomendou o posto da polícia, era lá que as pessoas bem intencionadas retornavam coisas encontradas. De novo nada. A caminho do hotel, onde a internet permitiria o contato para cancelar o cartão de crédito, pelo menos, o rosto dela era a imagem do horror. Creio mesmo que a vi esconder uma lágrima, imaginando o transtorno para registrar ocorrência, fazer novos documentos, antes disso embarcar de volta sem eles, a confusão toda, o fim de semana revirado pelo avesso. Quando entramos no quarto, ela foi à mochila: a carteira estava lá. Deus é um cretino que fica nos dando sustos, transferindo carteiras de bolsas para mochilas de hotel, nem bater carteira direito ele consegue, deve se sentir tão culpado quanto um capacho cristão. Talvez por isso ele estava andando tranquilamente pelo aeroporto de Brasília e evitou interação em nosso último encontro: estava ao celular combinando a logística para pregar esse trote, o cretino.

 

Desse lado do ringue 2

Foto | Christophe Jacrot
Foto | Christophe Jacrot

 

 

Não creio em Deus nem ele crê em mim, o que mais ou menos empata as coisas. Nossa luta é desigual, ele tem um grande número de aliados a defendê-lo e eu ando sozinho por toda e qualquer parte. Sendo o ser imaginário de maior poder de dissuasão do planeta, ele conta com o delírio e o fanatismo de bilhões de aliados prontos para entregar a vida por ele na briga contra cães infiéis feito eu. Nosso segundo encontro em que ele apareceu de roupas informais se deu no aeroporto de Brasília, quando eu estava prestes a embarcar para um glorioso fim de semana em São Paulo antes do fim das férias. Cruzamos nossos caminhos e eu quase não ia notar, mas de repente me dei conta: aquele velhinho narigudo com celular, boné, bermudão e jeito de quem ainda tem longas férias pela frente era ele. Deus no celular, pensei, essa é boa. E entendi porque ele decidiu me ignorar solenemente: meu dia tinha sido ótimo e produtivo, eu havia escrito bastante e andava empolgado com umas narrativas de metrô que vinha escrevendo. De modo que ele limitou-se a se manifestar diante de mim e evitou qualquer interação. Esnobe, eu disse, entredentes, esnobe e presunçoso. Me acerta um bom dia e depois vem me jogar na cara justamente isso, que é tudo obra sua, o arrogantão. Decerto esperava que eu caísse de joelhos diante dele, agradecendo por apenas um dia em que tudo deu certo. Quebrou a cara, porque eu também sabia, sempre soube, ignorar solenemente e ser arrogante e presunçoso. Aprendi com o mestre, no fim das contas.

 

Desse lado do ringue 1

Foto | Christophe Jacrot
Foto | Christophe Jacrot

 

 

Desde que minha família me ensinou a acreditar em Deus e eu sozinho desacreditei — tenho que agradecer os membros de minha família por isso, foram competentes ao me ensinar a pensar por conta própria —, venho tendo interações não exatamente frutíferas com a criatura. Não é porque você deixa de acreditar que o ser deixa de existir, no entanto. Afinal, uma parcela significativa da humanidade acreditar dá certo peso e respeitabilidade para ele. Vivia minha vida, alheio aos problemas, mas ultimamente ele começou a aparecer para mim, sempre disfarçado de algum velhinho e, para minha maior tristeza, nunca de barba comprida. A primeira interação se deu na forma de um grande susto, para chamar minha atenção. Estava num metrô num país estrangeiro e ele, disfarçado de trabalhador, terno cinza, gravata feia, pasta com supostos documentos, barriga proeminente, entrou, falando alto e dizendo que eu e meus amigos íamos na direção errada. Indicou a certa. Pasmos, descemos e acatamos, porque afinal estávamos mesmo na direção errada. Seria Deus?, alguém perguntou, ainda chocado com a capacidade dele de interferir nas vidas de simples mortais. Aquela rodada ele venceu, porque afinal fomos obedientes e Deus tem formas misteriosas de solicitar que façamos certas coisas. Cretino, eu disse, entredentes. Você me paga. Eu sei que ele ia querer se vingar pela minha blasfêmia, caso a ouvisse, mas não estou nem aí, eu não ia deixar barato, não deixar ele sair incólume. Eu também queria vingança.

 

O real é o que escapa

armadura

 

 

Sabe, a sua mente é capaz de pregar truques em você o tempo todo, o sujeito disse para a entrevistadora. Um dia você está bem e se julgando afiado, mas no outro é como se estivesse dentro de um nevoeiro, sem ideia de como fazer para sair dali. Ela deu um sorriso contido, como se quisesse dizer que havia compreendido ou como quem presta solidariedade. O problema, ele continuou, é que a mente é o único guia para a realidade, e se é capaz de falhar, de ratear durante o processo, o fato é que ela não pode ser confiável como o mecanismo seguro de apreensão do real. A moça sorriu novamente e respondeu com uma questão. Por que você se preocupa tanto em apreender o real, meu caro? Deixa um pouco o fluxo das coisas correr solto e livre. Ele apertou os olhos. Gosto de estar no controle, disse. Mesmo do que escapa dele?, ela rebateu, ou seja, como quase tudo nessa vida, acrescentou, como se fosse uma sugestão.

 

Alguns pormenores literários

Imagem | Sunga Park
Imagem | Sunga Park

 

 

Para escrever é preciso sobretudo caráter, e o que tenho sobrando é personalidade, às vezes nem isso. Para um escritor, personalidade é um truque funcional que ajuda a distrair a plateia durante um truque ou dois, mas o que o público realmente quer é encontrar a manifestação do caráter com o qual possa se identificar, seja porque é um ponto a ser almejado, no sentido de melhorar a vida, seja porque já se é detentor de caráter numa dose razoável e causa prazer vê-lo manifesto sobre o palco da arte. A personalidade é como o bobo da corte, diverte e mostra o quão interessante é ter diversidade de visão para que se possa questionar o como e porquê algumas decisões são tomadas, mas no fim do dia quem responde pelo bom ou mal estar da nação é o rei, não o bobo. Do rei se pede caráter, do bobo basta a personalidade.

 

Ruínas da literatura

xícara-de-café

 

 

Ele escolheu ser escritor na época errada, quando a literatura enquanto novidade tinha se tornado obsoleta e as pessoas continuariam a ler apenas até perder completamente o impulso. Inércia, explicaria o físico, numa única palavra. Mesmo assim, ele acreditava que conseguia captar a grandeza do projeto, a literatura era como aqueles bustos de membros decepados que os gregos construíram por inteiro há milhares de anos e cujas ruínas eram admiradas hoje, sobretudo pelo poder de evocação que uma peça deteriorada pela ação do tempo provoca: o passado tem importância e um recado que merece ser ouvido. Mesmo assim, ele não iria desistir, simplesmente porque aquela atividade é que o ajudava a definir a pessoa que ele era no mundo, em ruína ou não.

 

A restituição impossível

Arte | Lissa Bockrath
Arte | Lissa Bockrath

 

 

Eu não estou aqui, não estou em parte alguma, a impressão que tenho é que passei a vida toda distraído com alguma coisa que não estava ao meu alcance, em vez de ir seguindo concentrado o fluxo dos dias e fazer observações perspicazes — ou no mínimo atentas — aos eventos que se deram a minha volta. O que penso, ao olhar retrospectivamente, é que gastei tempo demais na primeira parte da minha vida observando com atenção os pormenores em volta de mim, os detalhes dos objetos, prestei atenção excessiva a cores e formas, encantei-me mais do que era razoável. Com isso, perdi a grande perspectiva que busca compreender períodos extensos e situações amplas. Quando me concentrei nessa outra parte, na segunda parte da minha vida, percebi que os desenhos de paisagem, os grandes planos não contemplam as minúcias, os detalhes das coisas, seres vivos, o recorte explicativo, o pormenor esclarecedor. Sempre havia algo a me escapar por entre os dedos, algo que parecia importante o suficiente para me fazer pensar a respeito daquilo que estava perdendo. Com isso, me distraí de compreender com exatidão o que sou e como funciona a vida por perto. Me distraí inclusive de mim mesmo, porque na segunda parte da minha vida comecei a me dar conta que a minha memória era composta sobretudo por aquela visão distorcida — minuciosa demais, cheia de detalhes demais — apreendida na primeira parte. E a decisão mais sábia, me pareceu, era limpar a memória dos excessos para manter as essências. Mas quem define o que deve ficar e o que escorrega para o abismo sem fim do esquecimento não é uma operação inteiramente lógica, de modo que me dei conta de algo preocupante: minha memória descartava eventos e situações que eram importantes e cruciais para serem assinalados numa biografia do homem comum que afinal sou, de modo que comecei a perceber que estava perdendo porções inteiras de lembranças importantes, que iam embora levando consigo as emoções a elas atreladas. Eu estava me perdendo de mim, de novo e de novo. Houve um período em que tentei me destacar dos outros exibindo publicamente personalidade: forte, controversa, exuberante, havia nuances atreladas a cada situação e eu era capaz de variar. A personalidade é uma espécie de espada social com a qual se esgrime contra seus pares ou adversários, com vistas a ampliar a memória a seu respeito, expandi-la para que não seja registrada tão-somente pelo seu próprio sistema interno de registro — como se sabe, ele é problemático e tem falhas incríveis de apuração. A personalidade, no entanto, é apenas um dos aspectos que te ajudam a se definir enquanto humano. E os outros elementos também precisam ser considerados. Sobretudo, o modo como não apenas você é o detentor de um sistema complexo de emoções, mas além disso o que é que você faz para registrá-las ou transmiti-las para os demais? Esse é o ponto difícil da questão. Você transmite as emoções de alguma forma, mas começa a perceber que os outros humanos jamais serão capazes de captar as sutilezas delas, jamais sentirão as coisas do mesmo modo nem captarão racionalmente o que existe afinal de lógica na manifestação das suas emoções. Então, você começa a pensar, qual é o sentido de extravasar isso se a compreensão é mínima ou mesmo inexistente? Você então passa a um outro regime, o de economizar na manifestação das emoções, cada vez mais, cada vez com maior eficiência. Por esse motivo, talvez, é que se observa com desconfiança os velhos que são expansivos, intuitivamente se é levado a concluir que se trata de pessoas que não amadureceram. E quando percebe, o que você esteve fazendo esse tempo todo foi abrir mão de ser você mesmo, de agir de acordo com as expectativas alheias ou, pior, com o que você julga que sejam as expectativas alheias. E não te ocorre pensar que seu julgamento pode estar profundamente equivocado. Ou mesmo que estivesse correto, não te ocorre pensar que talvez você deva viver a sua vida do jeito que achar melhor, sem ligar para o que os outros estão pensando ou se estão fazendo críticas a sua conduta e aos seus valores. Você chega mesmo a dizer algumas vezes para os outros que não liga para o que as pessoas acham, você gostaria de acreditar na verdade do que está dizendo, mas no fundo começa a perceber que sim, você se tolhe e observa de modo geral qual é a etiqueta vigente e procura segui-la na medida do possível. Os loucos parecem ser os que verdadeiramente conseguiram abolir todas as convenções sociais, mas em compensação foram todos confinados nos mesmos hospícios para que seu comportamento libertário não atrapalhe a malha social constituída por impedimentos, cerceamentos, restrições. O louco talvez seja o único ser humano que está em contato consigo e com a verdade do ser em si, talvez por isso precise se desvincular tanto dos demais e aparenta ser alienado: o contato verdadeiramente íntimo implica numa ruptura com esse mundo exterior revestido de tantas e tantas aparências e da manutenção dessa suposta ordem. O louco é o humano que deu certo, embora pareça justamente o contrário. Quando todos tivermos o projeto coletivo de enlouquecer será o momento em que a humanidade terá chegado ao estágio correto de amadurecimento. Infelizmente, a loucura não é um projeto que dá para encarar de maneira racional, não é possível ser louco com hora marcada. É preciso que esse meu flerte com a loucura pudesse ter sido convertido num mergulho radical, se eu tivesse tido a coragem, mas fui covarde e nunca pulei de cabeça. A história ensina que os loucos sofrem — confinados, medicados, terapeutizados — na mão da maioria, que não abre mão de tentar “recuperar todos” para o projeto avassalador da razão, esse império que atravessou séculos e fronteiras, muito mais eficiente do que qualquer capitalismo chinfrim. A razão é o que nos perde a todos, a razão é o grande projeto alucinado do qual não conseguimos nos desvencilhar. Por isso fico achando que me perdi, fico lacônico pensando nos estragos que a memória me proporcionou, fico triste pensando nas porções de mim mesmo que perdi, preocupado em restituir o que não pode ser recuperado jamais.

 

Mudança de conduta

dálmata

 

 

O entusiasmo como arma social para que você se destaque junto a seus amigos. Começa como artifício, às vezes chega mesmo a ser um fardo — você precisa mostrar entusiasmo para não decepcionar as expectativas dos amigos —, mas chega um momento em que se torna algo natural, sua ferramenta de destaque em relação às variações de humores dos demais, tão submetidos que estão às flutuações e nuances da economia e das crises locais e mundiais. Não é o caso de Zeca Domingues, esse gênio do tempo bom, anfitrião impecável, amigo de todas as horas, centro importante de catalisação do seu currículo de amizades. Nem mesmo o câncer de que tratou foi capaz de abatê-lo — estou com um pequeno problema, ele dizia aos amigos que sabiam da situação, fingindo estar muito sério, mas aí veio esse cancerzinho e eu me esqueci completamente do pequeno problema, e então caía na gargalhada, como se tudo na vida fosse uma grande piada pronta, à espera de ser contada. Alguém com essa disposição para atravessar a existência em meio a tanto entusiasmo, genuíno e acintoso, sobretudo contagiante… A verdade é que Zeca Domingues nos desconcertava a todos com aquela atitude tão saudável e entusiástica, de modo que tivemos por fim de nos afastar dele, a manada dos descontentes. Onde já se viu, insistir que dá para ser feliz nessa vida. Um anarquista, o Zeca, um verdadeiro terrorista social, uma tormenta incontrolável.

 

Noite no metrô

ônibus

 

 

Era tarde e voltávamos numa das últimas composições do metrô antes que o serviço se encerrasse. Entramos num vagão especialmente estranho. Havia um sujeito cantando sozinho — ou para todo mundo — e uma mulher claramente amalucada que fumava, totalmente alheia à advertência dos avisos que indicavam ser proibido. A loucura ignora fronteiras, é uma de suas prerrogativas. Sentei-me de frente para meus companheiros e no justo instante em que me dei conta de que aquela composição estava se dirigindo para outras estações que não a nossa, entra esse senhor, com sobretudo cinza, olhos empapuçados, pasta de couro. Um executivo velho e solitário, possivelmente, perto da aposentadoria, que decidiu tomar umas e outras. Ele entra e começa a dizer que tomamos o metrô no sentido errado. Precisamos descer na próxima estação, dar a volta pelas escadas, mudar o sentido, andar mais duas paradas, descer novamente e então nossa conexão correta poderá ser feita. Mas como é que ele sabe, como pode saber dessas coisas? Enquanto mudamos de linha e esperamos a, agora sim, última composição da noite, conversamos a respeito daquele sujeito. Seria Deus, arriscou um. Ou uma versão de Jorge Luis Borges. Entramos por um instante num universo paralelo e fomos agraciados com um guia virgiliano do submundo noturno, que gentilmente e sem ter sido solicitado, nos apontou a direção correta. Até chegar ao apartamento que alugamos por temporada naquela cidade estrangeira mantive a sensação de que eu era um personagem de alguma narrativa bizarra e mesmo hoje, quando penso retrospectivamente na história, não consigo concatená-la com nada que lembre lógica. A surpresa, no entanto, que me foi reservada, me parece um presente inesperado e não deixa de ser uma pena que nunca teremos como expressar a gratidão sentida.

 

Companhias constantes

Foto | Sigurd Grünberger
Foto | Sigurd Grünberger

 

 

A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta. 

John Banville — Eclipse

 

O que me atraiu nela primeiro foi a superfície. Disso não tenho dúvida, o primeiro mecanismo da atração para um homem é sempre a aparência. Os olhos, boca, seios, a grossura da perna, a maciez adivinhada da bunda, só depois as outras características assomam. No caso dela, um charme no sorriso, no gesto de mão ao jogar os cabelos para trás da orelha, o modo como levanta primeiro os olhos e então a cabeça em seguida. Então as camadas mais internas, o traço da personalidade, a manifestação do caráter, as sutilezas das emoções. Havia evidentemente esse problema comigo, essa disfunção que me faz cair de amores muito fácil e a vocação terrível para o sofrimento. A felicidade me incomoda de maneira profunda. Então, quando tudo parece ir bem, as peças se encaixando nos devidos lugares para que a vida possa continuar sua farsa a respeito da possibilidade de ser harmônica, eu dou um jeito de chutar a vida na canela com bastante força. Com ela não fiz diferente e logo dizia o quanto detestava seus gestos, seu charme, o quanto não podia mais suportar a feiura dela, todas as mentiras convincentes que estavam ao meu alcance usei para afastá-la para bem longe de mim e para me deixar em paz com a minha única e constante companheira, a infelicidade.

 

Ramificações

Foto | Gunars Binde
Foto | Gunars Binde

 

 

Eram histórias infinitas, sobretudo entrelaçadas. Numa, minha namorada pintava as unhas do pé, cigarro pendurado no lábio com desdém, enquanto eu insistia com ela que fumar era absolutamente inútil e prejudicial às duas saúdes, financeira e física. Ela em vez de me dar ouvidos aumentava o desdém, como se tivesse um botão de volume. Noutra, meu cão Emanuel perdia uma pata traseira num acidente automobilístico e ganhava um ar tristonho que comovia toda a mulherada do meu prédio — o que se revelou ótimo porque aumentou meu nível de faturamento xoxotal —, mas nunca jamais enganou seu Almeida, o porteiro mau humorado que detesta cães e via toda a minha cretinice em andamento. Noutra ainda, eu tinha um nome diferente do meu, uma história diferente da minha, era um sujeito cheio de amigos e recebia convites o tempo todo, o que transformou minha vida numa festa e a mim nesse alcoólatra que agora precisa frequentar reabilitação. As histórias se entrelaçam, pois sim, mas a verdade é que em todas a melancolia, esse sentimento tão absolutamente fora de moda, continua a dar as cartas.

 

Futuro é angústia

Foto | Flor Garduño
Foto | Flor Garduño

 

 

A expectativa de que algo vai acontecer gera uma angústia da espera: acontecerá? Terá o efeito que se imaginava quando acontecer? Será melhor ou pior do que a cena antecipada na imaginação? A quebra dessa expectativa, por exemplo adiar o horário para outro, bem mais tarde, pode ter duplo efeito: amplia ainda mais a agonia que incomodava ou então se abdica dela de uma vez por todas e entra-se numa espécie de relaxamento. Arnaldo na frente do espelho, a ensaiar as palavras que dirá para a mulher que deseja ter a seu lado e a quem pretende conquistar. Não será fácil, a vida desses dois, equilibrando mal e mal as projeções alheias de um sobre o outro, os defeitos não apenas revelados, mas ampliados, até que não mais se suportem ou, ainda pior, não mais se respeitem. Mas isso é depois, amanhã. Hoje a vida é desejo e esperanças luminosas e expectativas felizes. Como Arnaldo, diante do espelho, ensaiando sua fala.

 

Desentendimentos teológicos

avião

 

 

Os caminhos do Senhor, a freira disse, e eu dei um enorme suspiro e revirei os olhos, porque queria que ela visse o quanto eu ficava exasperado toda vez que precisava ouvir a repetição de uma frase que julgava estúpida, usada quase sempre para disfarçar a própria incapacidade de explicar alguma coisa prática, por exemplo, porque o avião tendo se atrasado prejudica o trabalho pastoral que ela desenvolve num país periférico. Na sua visão delegada, é sempre porque Deus quis, o sujeito dos caminhos misteriosos e planos diabólicos nunca explicados. A senhora me perdoe, eu disse, mas não converso com quem mantém relações de proximidade com entidades sobrenaturais inexistentes, sobretudo quando estão associadas com delírios de grandeza, e virei-lhe as costas, devo dizer que infelizmente. Não pude avaliar o tipo de reação que ela esboçou naquele momento. Minha cara, no entanto, era de deliciamento perverso.

 

Certas trocas

gaveta

 

 

Ele queimou todas as cartas que ela havia enviado ao longo dos anos (essa história é da época em que as pessoas enviavam cartas umas para as outras). Ele não queria mais a lembrança das palavras trocadas com juras de amor, agora que a relação havia se desgastado e estava se transformando em algo triste, envelhecido e mesmo sombrio, antes que o fim realmente se tornasse real. Ela, no entanto, não destruiu as cartas recebidas dele, porque algumas mulheres têm um tipo de apego a coisas materiais. Portanto, o que restou da história foi apenas a versão dele de todos os fatos, registradas nas cartas que ela guardou para o bem da História inclusive. Claro, há sempre conjecturas que se podem levantar em relação a como ela encarava o romance deles, mas sem grande exatidão e o potencial especulativo tem limites. Não é toda vez que a história faz justiça com as limitações com as quais é obrigada a conviver. Ele foi um escritor, além do mais, alguém para quem a destruição de cartas deveria ser sempre o componente de um crime sem redenção. Mas quem pode entender as crises do coração de maneira precisa?

 

Tempo tempo tempo

Arte | Marc Chagall
Arte | Marc Chagall

 

 

Hoje é o tempo presente, sempre aqui, de forma avassaladora a me consumir por dentro, a me enviar memorandos para mim mesmo no futuro — quando então será o presente e minha memória terá consumido em chamas boa parte do meu passado. Os humanos estamos sempre equilibrando essas noções peculiares e estranhas do tempo tripartido, talvez por isso essa nossa eterna cara de insatisfação, esse desconforto visível com um monte de coisas pequenas para disfarçar essa outra, maior, devastadora e incontornável que virá, a última chamada da qual já se tem consciência agora.

 

Metido em línguas

cafeteira2

 

 

Scrivi i tuoi pensieri, dizia o anúncio de caneta numa revista italiana. O objeto nem era lá essas coisas, embora o preço fosse, mas o conselho, meramente publicitário, surtiu efeito em mim e decidi que sim, escreveria os meus pensamentos, mas com o meu velho método de usar grafite macio sobre papel de cor creme do meu bloquinho metido a besta — feito o dono, que se lança a ler em língua que não domina.