Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.