Cautela, cautela

Fotos | Jan Zimmerman
Fotos | Jan Zimmerman

 

 

Essa coisa da alegria ainda vai dar muito certo, ela disse, um sorriso tão lindo quanto manhã de primavera tropical. Estávamos nas nuvens, pequenas ilhas de expectativa cercadas de avião por todos os lados, de volta ao país natal depois de anos de exílio não forçado em que nos submetemos a coisas demais para no fim redundarmos em fracasso. Renovação de esperanças parece ser um dos esportes preferidos dos terráqueos, de modo que ali estávamos, nos embriagando da coisa na ambição tola de não termos ressaca. Foi nesse momento que Estela soltou a pérola, essa coisa da alegria, ela disse, embora soubesse que eu não tinha qualquer paciência para frases iniciadas com “essa coisa de”. Era decretar minha morte antecipada. Estela, no entanto. Esperançosa renitente — a despeito dos avisos da realidade, todos cumpridos à risca: de mim não há como escapar; nem de mim, nem de minha brutalidade —, Estela parecia agourar a nossa volta. Quando vi os guardas fardados conversando com os oficiais da alfândega e apontando o dedo em nossa direção, não tive mais dúvidas de que Estela estava muito, mas muito errada.

 

Felicidade comprometida

 

lençóis

 

 

Havia essa cidade em que as pessoas sorriam muito e festejavam em tempo integral. Uma felicidade enlouquecida parecia ter tomado conta dos habitantes. Então, começaram a aparecer os turistas, atraídos pela notícia de um lugar em que todo mundo era feliz. Queriam ver com os próprios olhos e partilhar da alegria, se possível. Alguns começaram a perceber e assinalar que a cidade estava descuidando da economia, ninguém vive só de sorrisos e festas. Não demorou para ficar igual a outra qualquer.

 

Mentiras que dão certo

Imagem | Endre Penovác
Imagem | Endre Penovác

 

 

Ela força a mão para ser profunda e, como se fosse a consequência inevitável, triste. Mas sua índole a desmente e quando se distrai, mostra quem de fato é: pessoa com vocação para ser feliz. Claro que nosso caso não poderia dar certo, comigo é o oposto: faço um tremendo esforço consciente para ser feliz, mas sou traído pelo talento natural para tristeza que me puxa de volta. No fim das contas, talvez seja por esse nosso contraste que as coisas deem certo. Isso e o fato inescapável de que ambos mentimos sobre nossa verdadeira natureza individual.

 

Se tiver de ser assim 1

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Enquanto meu pensamento vai e vem sobre um tema e outro — descreve a trajetória de voo de uma borboleta no jardim: errático ao olho humano embora para ela borboleta deva fazer todo o sentido — lembro de trechos da infância canções sobrepostas e emoções a elas atreladas. Não podia ouvir David Bowie cantando que tenta tenta (na letra de Modern love) sem ser quase levado às lágrimas porque havia um filme francês em que nessa hora o sujeito corria em direção à amada debaixo da chuva mesmo sabendo que a tinha perdido porque sabia que a tinha perdido a vida tinha se tornado inteira aquela corrida desesperada para recuperar o amor mas no cinema eu sabia que não tinha jeito que o amor perdido fica perdido para sempre que quando se estraga não dá para colar as partes de volta não é assim que funciona e talvez por isso me desse tanta vontade de chorar — eu também tinha perdido um dois vários amores era por mim mesmo por meu fracasso pessoal que eu queria tanto derramar alguma lágrima por saudade daqueles amores perdidos. Também não podia ouvir America cantada por Simon & Garfunkel sem evitar de sentir saudade de um lugar ao qual nunca fui — ou não fui ainda pelo menos: saudade por antecipação. O mundo um caleidoscópio de emoções um furacão que me agita e não sei mais como me sentir. Vejo coisas associo sons a lembranças algo disso se preserva mas a vida é na verdade uma enorme sucessão de perdas e perdas inclusive de todas essas emoções que um dia você jurou ter sentido. Elas não voltam ou se voltam é como arremedo pálido do que você sentiu da primeira vez. Deveria ter anotado tudo o tempo todo um jornalista perene a anotar o diário das emoções em tempo integral. O que teria sido então se fosse assim? Não há como saber só o que se sabe é que as coisas se esvaem para o ralo sem fim dos pensamentos perdidos. Os pássaros que um dia ouvi. Os pássaros que registram a mudança do dia que me alertam para que eu note a mudança: na cor na temperatura em mim mesmo imóvel sobre o sofá cinza apenas a cabeça em mil piruetas: como resolver os problemas do mundo como escrever literatura como acertar o passo dessa vez ou da próxima tanto faz nunca saberei acertar o passo.

 

Mudança de conduta

dálmata

 

 

O entusiasmo como arma social para que você se destaque junto a seus amigos. Começa como artifício, às vezes chega mesmo a ser um fardo — você precisa mostrar entusiasmo para não decepcionar as expectativas dos amigos —, mas chega um momento em que se torna algo natural, sua ferramenta de destaque em relação às variações de humores dos demais, tão submetidos que estão às flutuações e nuances da economia e das crises locais e mundiais. Não é o caso de Zeca Domingues, esse gênio do tempo bom, anfitrião impecável, amigo de todas as horas, centro importante de catalisação do seu currículo de amizades. Nem mesmo o câncer de que tratou foi capaz de abatê-lo — estou com um pequeno problema, ele dizia aos amigos que sabiam da situação, fingindo estar muito sério, mas aí veio esse cancerzinho e eu me esqueci completamente do pequeno problema, e então caía na gargalhada, como se tudo na vida fosse uma grande piada pronta, à espera de ser contada. Alguém com essa disposição para atravessar a existência em meio a tanto entusiasmo, genuíno e acintoso, sobretudo contagiante… A verdade é que Zeca Domingues nos desconcertava a todos com aquela atitude tão saudável e entusiástica, de modo que tivemos por fim de nos afastar dele, a manada dos descontentes. Onde já se viu, insistir que dá para ser feliz nessa vida. Um anarquista, o Zeca, um verdadeiro terrorista social, uma tormenta incontrolável.

 

todos sorriem

ilustração | raphaëlle martin
ilustração | raphaëlle martin

 

 

havia um misto de felicidade reprimida e expansiva, mas de qualquer ângulo que se olhasse ou percebesse ou mesmo analisasse o que se via era felicidade. não a falsa, de comercial, fingida, atuada, mas autêntica, aberta, ampla, alargando-se em ondas e se espalhando com um tipo de contaminação bem-vinda. não parecia insuflada por artifícios como drogas, lícitas ou não, nem por demandas programadas, mas pela própria natureza das dinâmicas humanas. a alegria, ele pensou, a onda de sorrisos e disposição para cima vem de não pensar muito a respeito. de modo que despiu-se ele também dos pensamentos, bem como das roupas, e entrou na confusão dos corpos que se movimentavam.

 

o poder das mentiras

cadeira-e-meia

 

 

ela se virou para ele com aquele olhar que ele não sabia decifrar se significava paixão ou ironia. disse: “sabe quando eu fico mais apaixonada por você?”. ele a olhou, à espera do resto. “quando você mente para mim”, ela prosseguiu. “não quando mente mal, mas quando mente de maneira perfeita, de modo que nem desconfio que estou ouvindo uma mentira. porque a verdade é boçal demais e me cansa. só a mentira é estimulante e provocadora. só a mentira contém o germe da verdade, porque a verdade está resolvida e completa, não precisa mais nada, é aquilo e pronto.”

ela sorriu. ele não sabia se aquilo era tudo ou a preparação para algo mais.

“o fato, meu querido, é que quando eu entendi isso também passei a mentir para você. por exemplo, como posso dizer que estou mais apaixonada quando você mente para mim, se não sei quando você mente bem para mim? você acha que podemos ser felizes para sempre dessa forma?”

 

ritmos

foto | reuben wu
foto | reuben wu

 

 

pôs as razões de foro íntimo porta afora a pontapés. era hora de arejar os sentimentos embotados, tocar música animada nos salões da alma e dar início à festa da ressurreição. que importa que tivesse o travo da maturidade? dançaria feito um índio em celebração da vida, como um adolescente no rock, um galante no bolero. todos os ritmos que seu coração comportava, além dos por serem inventados, antes da parada definitiva.

 

este porquinho foi ao mercado

fagulhas

 

 

tem gente que é assim, coloca uma quarta, abre um sorriso, toca a vida como se ela fosse maravilhosa, ou pelo menos contém a promessa de ser maravilhosa, ou, mais precisamente, como se fosse o palco onde sempre é necessário vestir a máscara da felicidade compulsória. então a pessoa sorri; não, gargalha, e conta a coisa mais trivial como se fosse a mais incrível e mirabolante de todos os tempos, com ênfases e impactos, a mão em gestos amplos para acompanhar. fico imaginando que história essa pessoa conta à noite, diante do espelho, enquanto tira a maquiagem. não me parece que existam sorrisos ou casos fascinantes, somente o mesmo velho eu de sempre, que conhece todos os truques e não acha graça de nenhum em particular.

 

aniversário do blog!

amanhã, um ano de blog.

20 de dezembro do ano passado, escrevi:

“só a ficção me redime de tudo o que de errado se passa em volta. romance é minha ilha, meu horizonte, a tábua de salvação no oceano onde naufraguei.”

primeiro post, pinta de aforismo, já.

tudo bem, não publiquei todos os dias. mas alguns dias publiquei mais de uma vez, compensação razoável.

de toda sorte, é aniversário. o blog é de sagitário, seja lá o que for.

amanhã é festa. sem champanhe nem bolo. mas se quiserem aumentar o índice de leituras, favor avisar os amigos…

haverá uma história publicada a cada hora, perfazendo o total de 24 novas micronarrativas num mesmo dia.

as fotos utilizadas no cabeçalho ao longo do dia serão trechos de imagens aéreas do fotógrafo cássio vasconcellos. espero que gostem.

hoje, desaforados são os leitores, nos desaforismos e micronarrativas enviados…

abrazos.

encerra inscrição

pessoas, amanhã (sábado, às 23h59) é o dia-limite para quem quiser enviar aforismo ou micronarrativa (sim, leitores também publicarão micronarrativas aqui no blog, e eles são ótimos nisso).

então, se quiser participar, envie até três textos (no caso de aforismos, de até 200 caracteres no máximo; no caso de micronarrativas, er, não tem limite, mas vamos ser sucintos, né, pessoal?) para paulopaniago@gmail.com com a palavra desaforismos no título.

a publicação será domingo.

segunda, dia 20, o blog faz um ano e, além de publicar uma micronarrativa por hora (portanto, 24 ao longo do dia), o blog trará algumas ótimas ilustrações feitas pelo leopoldo wolf.