Manter coerência

Imagem | Elena Arcangeli
Imagem | Elena Arcangeli

 

 

A ele sucedeu de escrever várias histórias — dois romances, cinco novelas, vinte e nove contos — cujo tema era o suicídio. No começo, os amigos se preocupavam. Não vá você imitar os personagens, advertiam. Ele ria, não se preocupem, replicava, não pretendo. Mas enquanto os amigos seguiram a recomendação e pararam de pensar no assunto, a crítica por sua vez não lhe poupou a redundância temática, a reiteração obsessiva, o excesso de “leitura focada”, que foi como traduziram a expressão para indicar uma vertente teórica de abordagem literária. Há limites para as obsessões, escreveu um deles, numa revista muito conhecida. No bilhete de despedida, que os jornais publicaram com grande estardalhaço, ele menciona a questão de manter a coerência, mas muita gente achou que ele queria somente atrair a atenção para a obra, que andava caindo em esquecimento.

 

Mudança de conduta

dálmata

 

 

O entusiasmo como arma social para que você se destaque junto a seus amigos. Começa como artifício, às vezes chega mesmo a ser um fardo — você precisa mostrar entusiasmo para não decepcionar as expectativas dos amigos —, mas chega um momento em que se torna algo natural, sua ferramenta de destaque em relação às variações de humores dos demais, tão submetidos que estão às flutuações e nuances da economia e das crises locais e mundiais. Não é o caso de Zeca Domingues, esse gênio do tempo bom, anfitrião impecável, amigo de todas as horas, centro importante de catalisação do seu currículo de amizades. Nem mesmo o câncer de que tratou foi capaz de abatê-lo — estou com um pequeno problema, ele dizia aos amigos que sabiam da situação, fingindo estar muito sério, mas aí veio esse cancerzinho e eu me esqueci completamente do pequeno problema, e então caía na gargalhada, como se tudo na vida fosse uma grande piada pronta, à espera de ser contada. Alguém com essa disposição para atravessar a existência em meio a tanto entusiasmo, genuíno e acintoso, sobretudo contagiante… A verdade é que Zeca Domingues nos desconcertava a todos com aquela atitude tão saudável e entusiástica, de modo que tivemos por fim de nos afastar dele, a manada dos descontentes. Onde já se viu, insistir que dá para ser feliz nessa vida. Um anarquista, o Zeca, um verdadeiro terrorista social, uma tormenta incontrolável.

 

Uma dessas conversas

astronauta

 

 

Era para ser uma boa conversa, uma dessas em que ambas as partes se encontram desarmadas e dispostas a desfrutar o simples prazer da conversa, sem se importar com resultados que não a própria e mútua satisfação dos envolvidos. Mas há muito que se vem perdendo a noção da gratuidade dos dois dedos de prosa, há muito que as engrenagens cada vez mais velozes do tempo passaram a exigir eficácia, aplicação e produtividade de tudo e de todos, e portanto tornou-se um incômodo gastar a conversa em algo que não dê dividendos no curto e médio prazos, uma conversa que simplesmente não tenha rumos. Por isso, apareceram os interlocutores com seus desempenhos estudados, com trejeitos e argumentos afiados, com expectativas à beira da explosão. A amizade, que é tecida também entre silêncios, não se pôde celebrar. A amizade precisa abrir mão do cálculo e entregar-se despojada e transparente. A amizade tem o selo da renúncia, o altruísmo sem recompensas maiores do que a felicidade alheia. Amigos se elegem pelas sincronias de interesses, são irmãos sem a intimidade do sangue partilhado. Como disse, era para ter sido uma boa conversa.

 

efeito macedonio

foto | ana k
foto | ana k

 

 

estávamos indo ao aeroporto buscar uns amigos que chegavam de viagem, vindos de buenos aires, onde haviam passado um fim de semana prolongado que se iniciara na quinta-feira. eu, no entanto, é quem parecia que tinha estado no voo, porque estava acometido por aquelas ondas que parecem se manifestar quando se está num avião, algo entre o enjoo, o incômodo no ouvido e um mareamento que lembra o sono. sorrimos para nossos amigos e acenamos. eles puxavam malas com rodinhas atrás de si e não pude evitar de pensar em qual delas estaria o livro encomendado. mas cumprimos à risca os protocolos da civilidade e depois dos cumprimentos efusivos, abraços e trocas de risos, conversamos trivialidades durante todo o trajeto até a casa do amigos, quando então subimos ao andar onde ficava o apartamento deles para um café antes de deixarmos que descansassem. mas não resisti muito e dei um jeito de incluir na conversa uma pergunta a respeito do livro encomendado. “mas que livro?”, quis saber meu amigo. a mulher dele me olhou como se eu fosse um louco. “o livro que te encomendei, cara, do macedonio fernández.” meu amigo não se recordava da encomenda, nem sua mulher nem a minha haviam testemunhado a conversa na qual o pedido foi feito e o mal-estar que se instalou, pelo menos em mim, nunca foi devidamente superado —- não é à toa que tenho fama de ressentido. fato é que depois disso nós nos afastamos, mais por iniciativa minha, admito. muitos consideram um motivo pífio para fazer azedar uma amizade, mas um macedonio é um macedonio.

 

adiante

foto | bharat sikka
foto | bharat sikka

 

 

vamos adiante porque essa discussão não está indo a lugar nenhum, ela disse. debatiam história, o discurso inventado a respeito do que aconteceu para informar como a humanidade é no presente. vamos adiante, ele concordou, porque não podemos voltar atrás e retirar simplesmente o que foi dito, como faz cretinamente o tribunal, de modo que agora nossas diferenças estão expostas e não vejo como vamos encontrar a liga que restabeleça aquilo que se quebrou entre nós. ela sorriu triste e disse, não subestime o poder do tempo, você que é historiador e que deveria saber o poder curativo e restaurador que ele tem. mas certas esperanças — nenhum dos dois foi capaz de dizer, mas desconfio que ambos cogitaram — se alimentam apenas de ar. fato é que depois não se sustentam.

 

amargo

foto | robert herman
foto | robert herman

 

 

“dosando suavemente o nada para não se machucar”

julio cortázar — o jogo da amarelinha

 

visitava os amigos cada vez menos. caminhava pelas tardes vazias sempre um pouco mais. o mate e o café seguiam iguais. lia cada vez menos jornais, cada vez mais poesia. havia aprendido um método para separar os poetas excelentes — raríssimos — dos medíocres, mais nocivos que pragas de gafanhoto e persistentes como as estações do ano. não se importava que cada vez menos as editoras se interessassem pela publicação dos poetas, os que tinha eram uma cota generosa e suficiente, além disso sempre se podia iniciar a releitura. produziu uma importante série de ensaios dedicada ao tema da solidão, que quase não tinha quem a defendesse. os homens são barulhentos e gregários, por hábito, cultura e tradição, ele sabia. de onde a necessidade de novos paradigmas. tinha consciência de que, quando morresse e o corpo fosse encontrado em estado avançado de putrefação, depois que os vizinhos convocassem os bombeiros por conta do mau cheiro, os manuscritos seriam descartados, bem como o resto de suas coisas parcas. pensando bem era mesmo o melhor caminho. portanto escreveu com liberdade e gosto.